No meu zapping diário, vejo parte da Praça da Alegria, no Canal Um. Jorge Gabriel e Sónia Araújo entrevistam Paulo, um jovem que nasceu sem mãos nem pés, mas que é completamente independente, está a tirar um curso de treinador de futebol, sonha ser actor, tem uma namorada muito bonita e estudou em Coimbra (creio que não estou a dizer mentira nenhuma, pois escrevo de memória, mas o seu percurso é, com certeza, parecido com o que estou a contar).
Obviamente que qualquer pessoa se emocionará com este testemunho de coragem e força de vontade. Ninguém ficará indiferente a este exemplo e admirará o jovem, com uma lágrimazita no canto do olho, afinal, coitado, consegue ter uma vida normal apesar de tantas dificuldades. Eu, claro, não fugi à regra.
No entanto, o mais importante que se pode retirar deste caso é o que foi dito por uma das participantes no programa, de cujo nome não me lembro, mas que dizia que, apesar de não parecer, o Paulo acaba, no fundo, por ser um privilegiado. Porque apesar das óbvias deficiências a nível físico, tem uma característica rara nos dias que correm, que é um cérebro perfeito. Ou seja, uma mente forte, um cérebro que não se deixa abater, que raciocina com lógica e vigor, e essa é a maior arma que o ser humano pode ter.
Concordo perfeitamente com este testemunho e atrevo-me mesmo a dizer que, se o Paulo tem uma deficiência motora, a maior parte dos outros Homens tem uma deficiência a nível de coragem. Ao nível da moral, da confiança, da força de vontade e da lucidez. E essa é realmente a mais importante. De que vale ter mãos e pernas se não temos nada que fazer com elas, se nos fechamos em nós, se não sonhamos, se não tentamos fazer algo que faça diferença? Se nos limitamos a seguir o dia a dia e a ser inundados pelas modas e trends?
A verdade é essa e é inabalável: uma mente em boas condições, saudável, corajosa e com uma visão ampla do mundo permite que tudo o resto seja possível. Com ou sem mãos.
17/10/2007
Com ou sem mãos
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Luís Costa Pires
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15/10/2007
Mais uma vez...
Francisco Louçã, o eternamente revoltado líder do Bloco, disse, para variar e para surpresa geral, que tudo está mal. Falando em concreto no Orçamento de Estado para 2008, afirmou que era mais um desastre do Governo Socialista.
Agora a sério, e sem conversas para boi dormir: será que todos os Governos que estiveram até agora no poder tomaram apenas decisões erradas? Será que nunca houve uma única decisão certa?
Quando é que vai finalmente aparecer uma nova forma de fazer política onde deixe de existir tanta hipocrisia, tanto negativismo, tanta crítica só por ser crítica e comece a haver alguma coisa de construtiva? Quando é que este País vai produzir políticos a sério e não demagogos?
Será que não há ninguém farto de tudo isto?
Será que as novas gerações, no meio dos Morangos com Açúcar e do Wrestling vão ser capazes disso? O pior é que tenho medo que não...
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Luís Costa Pires
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14/10/2007
A reportagem sobre os segredos da Maçonaria

Vi na TVI parte de uma grande reportagem sobre os "segredos da Maçonaria", feita com a conivência das diversas ordens maçónicas e com a visualização de imagens dos templos, dos trajes e dos rituais, tudo a bem da "proximidade da Maçonaria ao grande público".
Por um lado compreendo a vontade de que a grande maioria das pessoas, que mesmo ignorante sobre determinado assunto exprime a sua opinião, perceba que a Maçonaria não é nenhum papão, nem nenhum clube de homens maus. Que se trata sim, apesar de como qualquer outro grupo também ter elementos menos positivos, de um grupo privado de homens, que, em sessões rituais, convivem entre si e discutem assuntos do foro intelectual, cultural e espiritual, com o objectivo de tornar cada um dos seus membros um melhor ser humano e contribuir assim para um mundo melhor, com mais liberdade, igualdade e fraternidade.
Mas, por outro lado, não deixo de ficar extremamente preocupado com a reportagem e com o "abrir de portas" que é feito actualmente. Abrir as portas ao "segredo", escancarar o ritual e a tradição para qualquer um ver é, definitivamente, tirar valor ao ritual. Afinal de contas, qualquer ritual que é secreto, é-o não porque os elementos que o conhecem são especiais, mas porque o segredo (ou sagrado) deve ser buscado, deve ser conquistado, e não dado.
Mas compreendo que no mundo de hoje, onde todos achamos que temos direito simplesmente a ter, independentemente de lutar pelas coisas ou não, em que já ninguém busca por nada a não ser a imagem e o gozo fácil, seja complicado perceber o que é isso de "buscar um segredo". Abrir as portas tem duas consequências: o ganho de prestígio junto do grande público mas, ironicamente, a perca de valor do simbolismo. E não é esse simbolismo afinal o grande propósito da Maçonaria? É preciso cuidado para os excessos.
Se uma filosofia existe, ela vale por si, não pelo que os outros dizem. Quem quiser encontrar o segredo, que o busque. Quem quiser apenas falar só por falar, que fale das revistas cor de rosa e da Floribela.
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Luís Costa Pires
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Não caso!

Com a apresentação do Orçamento de Estado de 2008 foram também apresentadas as alterações tributivas para o próximo ano. E foi com grande mágoa minha que vi que o Sr. Sócrates (de quem eu até gostava e defendia até agora) e os seus pares decidiram aumentar o IRS para os solteiros, continuando assim a beneficiar aqueles que constituem família em vez dos que preferem manter uma vida independente, quer seja porque ainda não tiveram a sorte de encontrar a cara metade, quer seja porque não sentem vontade de entrar para esse grande clube que é o das famílias portuguesas, com créditos imensos a pagar, dois filhos, almoços com sogros, passeios dos tristes ao domingo e cão para passear. Tudo a bem da ideia de que o País precisa de mais casais e que o Governo é que vai agora decidir o que é melhor para a vida privada de cada um.
Mas, como não sou pessoa de me calar e, por acaso, até me enquadro na segunda categoria referida antes, tenho apenas uma mensagem a deixar ao Sr. Sócrates, no caso de algum dos elementos do Governo ou do SIS andarem por aqui a bisbilhotar blogues que falem do seu nome:
Faça o que quiser, Sr. Sócrates, até me pode multar, mandar prender ou obrigar-me a fazer parte do Governo! Mas eu não me caso!
Tenho dito.
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11/10/2007
Jantar com fado
Jantar na “Adega do Avô”, no Cartaxo, com os amigos Florbela Silva, Ricardo Carriço, Maria Helena Torrado e Miguel Torrado. Entradas deliciosas e fartas, tantas que os secretos de porco preto quase ficaram para segundo plano.
Depois do repasto e de uma deliciosa conversa, a surpresa da noite, preparada pela Florbela. Para surpresa dos restantes (eu já fora avisado de antemão), entrou a Deolinda Bernardo, fadista que já gravou um CD com o Rão Kiao e que vai dar muito que falar nos próximos tempos e, acompanhada à viola pelo grande Zé Pires, deu origem a um espectáculo intimista e esplendoroso. Fados, mas não só. Também música de intervenção portuguesa, poemas de Ary dos Santos (grande amigo da Maria Helena Torrado), alguma MPB e, até, um inacreditável “Sunrise” que aqueceu todos os presentes, até os empregados e cozinheiras que, entretanto, já se haviam sentado connosco a ver o espectáculo, devidamente acompanhado com as luzes apagadas e velas acesas.
A voz da Deolinda Bernardo, ou Deo como assina o disco que irá sair daqui a poucas semanas, é um portento e ela própria é um furacão, um animal de palco como existem poucos, sempre a sentir a música, a interpretá-la não apenas com a voz potente, mas também com os gestos e as expressões. Atrevo-me mesmo a dizer que é uma das melhores intérpretes que já ouvi na minha vida. E a ver pelo ar emocionado dos restantes espectadores, não fui o único a achar isso.
Uma noite deliciosa que já tem data marcada para ser repetida.
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10/10/2007
Maddie
Isto tudo da Maddie já começa a irritar. Principalmente saber que, mesmo que se prove que os pais são os culpados, ainda vai tudo demorar muito tempo até ter um fim. Olho para o dossier Casa Pia e arrepio-me. Será que, caso aqueles pais sejam os monstros que parecem ser, ainda vão passar anos até pagarem a atrocidade do que fizeram?
Ler o resto do post...
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08/10/2007
Eterno Woody
Acabei de ver "Scoop", um dos últimos filmes de Woody Allen, desta vez rodado em Londres, e que conta com a minha adorada Scarlett Johanson e o Hugh Jackman, de quem também gosto muito. Não sendo uma obra prima, é um filme divertido que conta a história de uma estudante de jornalismo que recebe a informação de um jornalista famoso recém falecido sobre uma notícia que seria capa de qualquer jornal. Bem ao jeito das comédias do mestre, a estudante vai então, com a ajuda do seu recém amigo e inenarrável "mágico de circo" Splendinni (Woody Allen) tentar investigar o dito caso.
Não sei, digam o que disserem os críticos, que o Woody Allen já não é a mesma coisa, que está longe da forma de "Manhattan" ou de "Hanna e suas Irmãs", que está acabado, não quero saber. Hei-de sempre achar piada ao seu jeito atrapalhado, à forma como enrola as situações, ao humor cortante e subtil que está contido nas frases que derrama nos momentos de atrapalhação. Quase que diria que, quando vejo um filme dele, é por esses momentos que eu espero. O resto, o enredo logo se vê.
Um exemplo é outro filme dele, "A Maldição do Escorpião de Jade" que, não tendo a profundidade dos mais antigos, delicia-me completamente com o seu sentido de humor despretencioso e improvável.
No caso, em "Scoop", também gostei de ver a Scarlett… bom, mas isso não é novidade. Já agora, alguém tem o número de telemóvel dela?
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06/10/2007
De menina Cascais a Cascais Menino
Nova ida ao Casino, mas desta vez ao Estoril, para assistir à estreia da peça “De menina Cascais a Cascais Menino”, da autoria da Maria Helena Torrado e encenação do Ricardo Carriço. Muita gente conhecida no Casino e muitos amigos presentes, curiosamente amigos que são recentes mas com quem existe uma natural empatia.
Confesso que ia completamente a zero, sem expectativas, já que o Ricardo Carriço se tinha fartado de avisar que o Grupo de Teatro de Cascais, de que é encenador, é completamente amador e, conhecedor da realidade dos grupos amadores como sou (já tive alguns textos encenados dessa forma), sei que nem sempre é fácil, com as limitações existentes e mesmo apesar da dedicação dos intervenientes, conseguir um espectáculo à altura dos acontecimentos.
Por isso, a surpresa foi total. A peça, um retrato histórico de Cascais, baseada no livro de Pedro Falcão, “Cascais Menino”, conta a sua evolução desde a sua fundação até aos dias de hoje, falando dos momentos mais memoráveis, das personalidades da terra e das tradições que, infelizmente, se vão esquecendo, ajudando Cascais a tornar-se em algo bem diferente do que era. É uma obra bem conseguida, com mudanças de ritmo, interpretações notáveis (um aplauso especial para o João Quiais, para o Fábio Neves e para a Sara Inês), um guarda-roupas impressionante e coreografias e efeitos especiais que me surpreenderam e emocionaram. Um excelente trabalho que vale a pena ver, até ao final de Outubro, às sextas e sábados, no Casino do Estoril.
Depois da peça, o habitual jantar, num restaurante ali perto que, pelos vistos, fica aberto até às seis da manhã. Para mim, que nos dias normais vivo numa cidade onde quase tudo morre às oito da noite, tudo me pareceu um outro mundo. Ainda por cima rodeado de tanta gente simpática e boa conversadora.
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29/09/2007
Olhos perdidos no vazio

Sim, sim… joguei no Casino. Cinco euros, claro, que não sou maluco de perder fortunas. E essa pequenina perdi-a em dois minutos. Mesmo assim, comparativamente, acho que fui dos que se saiu melhor. Muito melhor do que aqueles indivíduos que vi junto da roleta e da mesa de Black Jack, os olhares perdidos no vazio, as mão nervosas a levarem o cigarro à boca. Os gestos secos de desânimo a cada número dito em voz alta. E as fichas, pilhas delas, centenas de euros a desaparecerem a cada minuto.
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Figueira
Adoro a Figueira da Foz. Além de ter um amplo espaço onde se pode passear em paz, é inundada de um ar sereno e juventude. Acho que, de todas as cidades junto do mar onde costumo ir, é a única que eu conheço onde não sinto um certo peso, talvez das lendas, das dores, dos presságios.
Apenas manias minhas, provavelmente.
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Luís Costa Pires
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Um animador na Figueira
Casino da Figueira para assistir a um espectáculo de Guilherme Silva, cantor moçambicano, de onde também sou oriundo, que está no Brasil há alguns anos, a morar na zona de Fortaleza, com uma agenda de espectáculos impressionante. Conta-me que já chegou a fazer três espectáculos no mesmo dia e que, cada vez, tem mais solicitações.
Apesar de já o conhecer há alguns meses, ainda não tinha tido a oportunidade de o ver cantar. Mas hoje vejo-o, one man show, a surpreender o Casino. De início, o bar está relativamente vazio, de qualquer forma é cedo, o Porto acabou de vencer o Boavista, altura de se começar a sair de casa.
Com a sua voz rouca e polivalente, com a sua manha própria de descobrir exactamente qual a música indicada para cantar a seguir, começa a animar os presentes que, pouco a pouco, vão sendo cada vez mais. Para minha surpresa, de repente, o bar do Casino está cheio, com vários casais a aventurarem-se até a dançar.
Percebo nessa altura a razão do sucesso do Guilherme. Grandes vozes, como a dele, há muitas por aí. Felizmente que existem muitas pessoas abençoadas com esse dom. Mas o que ele tem é um carisma muito próprio, é um artista no verdadeiro sentido da palavra, um animador. Aliás, por alguma razão é que, chegando ao Brasil vindo de um país pobre e com poucas referências culturais como é Moçambique, conquistou estatuto rapidamente no norte brasileiro e gravou mesmo há pouco tempo um CD com letras de um magistrado de Brasilia e com a participação de alguns cantores de topo brasileiros, entre as quais a Elba Ramalho.
Brevemente vêm mais novidades. Inclusive um disco por cá com a participação de alguns nomes bem sonantes da nossa praça musical e literária… mas não posso revelar mais nada por agora, pois ainda está tudo no segredo dos deuses. Mas tenho a certeza de que vai arrasar.
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13/09/2007
Escritores policiais
Durante uma das minhas actividades preferidas, o Zapping, vejo que no programa da Júlia Pinheiro está António Albuquerque, mais conhecido por Dick Haskins, o maior escritor português de policiais, com quem já passei grandes momentos em cafés a conversar sobre a arte de escrever policiais.
Divertido, ouço as teorias que ele e outros dois autores, António Navarro e o outro que, confesso, agora não me lembro o nome, desbobinam sobre o caso "Maddie" e como escreveriam um livro sobre o caso, se tudo não passasse de ficção.
Realmente, é bom ver a mente criativa a funcionar, mesmo falando de um caso tão triste. E, realmente, lembro-me também de que há muito tempo que não estou um pouco com o Dick Haskins a ouvi-lo contar as suas histórias delirantes.
Nota mental: telefonar para ele e marcar um café.
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10/11/2006
Uma pequena provocação
Quando eu era novo, o meu tio dizia-me sempre que eu devia, quando fosse grande, tentar entrar para a Função Pública. Porque era seguro, porque tinha muitas regalias, e mais um infindável manancial de qualidades de que agora não me lembro.
Sei que agora, esse pensamento continua a ser realidade em Portugal. Então, se a Função Pública é um local assim tão bom para se trabalhar, será que a quebra de alguns benefícios justificam tantos protestos?
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A (não) utilidade das greves (post muito longo)
Nunca vi um professor fazer greve para reclamar devido ao desemprego dos metalúrgicos, nem um pescador reclamar por falta de condições num Hospital (a não ser que necessite dos seus serviços), ou um professor pedir mais subsídios para a agricultura. Cada um só reclama quando o problema atinge o seu próprio bolso. Não existe consciência de nação, que a economia é um fenómeno global e que a situação só poderá melhorar quando todos correrem na mesma direcção.
Sou a favor de manifestações, claro, mas quando se justificam e quando têm o objectivo de lutar contra um problema extremamente grave ou uma opressão. Acredito que o povo não deve temer o seu Governo, mas sim que o Governo deve temer o seu povo. Mas as greves não devem ser banalizadas, até sob pena de perderem significado, o que já aconteceu depois de tantos anos cheios de manifestações por tudo e por nada.
Devem ser sim um recurso de último grau, já que o ideal é que a própria sociedade civil, indignada com o rumo da nação, produza naturalmente novos líderes, organizações e comportamentos que mudem esse mesmo rumo. Mas já se sabe que é mais fácil reclamar que está tudo mal, mas não fazer nada, não participar da vida activa da sociedade, em associações, em projectos de solidariedade, na participação da discussão pública dos problemas, na procura de soluções. Faz o que eu digo, não faças o que eu faço.
Percebo que os funcionários públicos se sintam afectados pelas recentes medidas do Governo. Mas também percebo que em Portugal cada um olha só para o seu próprio umbigo. Todo o País está a sofrer cortes, é necessário recuperar uma situação económica danificada e que, se não for estancada, levará a uma situação ainda mais grave do que a actual. Aliás, isto é de tal forma verdade que o Governo de José Sócrates, numa medida de grande coragem, está agora até a "atacar" os abusivos privilégios do sector bancário, coisa que nenhum governante antes teve ousadia de fazer.
Então, por que razão não terá também a Função Pública de assumir a sua parte nos cortes, principalmente quando se sabe que se trata de um sector pesado, lento, ineficiente e, ainda por cima, com muitas mais regalias do que outros sectores? É muito pouco provável que dois dias de greve, onde os pais faltam ao trabalho porque, com as escolas encerradas, têm que ficar com os filhos, em que a burocracia se atrasa ainda mais porque os serviços estão fechados, contribua para que a situação global melhore. Pelo contrário, piora ainda mais o estado do País e cria situações de grande dificuldade para outros cidadãos.
O problema de fundo é este: hoje em dia, as greves interessam, sobretudo, aos sindicatos, que têm à sua frente pessoas ligadas a partidos políticos da oposição e outras entidades influentes. Não nos enganemos: as greves são, no seu maior caso, organizadas por interesses políticos e económicos que pouco têm a ver com os problemas dos trabalhadores.
A verdade é que a única maneira de ultrapassar a crise é pela responsabilidade. É pelo aumento da produtividade e da receita, pois é de senso comum que é impossível distribuir riqueza que não existe. E isso não se faz com greves, nem com pontes, nem com habilidades para se trabalhar menos. Faz-se com responsabilidade, espírito de sacrifício e solidariedade, mais frontalidade e um sistema de distribuição mais justo. Herdámos a liberdade, mas não sabemos o que fazer com ela. Não vivemos hoje num regime que justifique tantas greves, mas sim mais responsabilidade, porque ser livre é ser responsável e lutar. E isso faz-se no dia a dia, em partilha, na sociedade.
Porque o irónico é que, se houvesse um inquérito, mais de 90 por cento dos portugueses responderia que concorda que o Estado gasta de mais e que é necessário cortar na despesa. Mas, se o corte representar uma diminuição no bolso da própria pessoa, então a resposta muda radicalmente.
Ou seja, com o mal dos outros posso eu bem. Mas em mim, ninguém toque.
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A queda de Bush
Finalmente, uma boa notícia vinda dos Estados Unidos da América. A queda de George Bush já começou. Daqui a dois, três anos, o mundo estará livre de um dos maiores responsáveis pela crise mundial e pelo terrorismo.
Só espero que, até lá, ele não consiga fazer ainda mais estragos do que já fez. Para já, parece que vai ser difícil. É que, agora, Bush já não tem a maioria para decidir o que quiser.
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09/11/2006
O Perfume
Muito brevemente, o filme "O Perfume", baseado no romance homónimo de Patrick Suskind, vai, aposto, tornar-se num grande sucesso de bilheteira por todo o mundo e, particularmente, em Portugal. É fácil fazer esta previsão já que, apesar de ser um livro pesado e de literatura "não light", este foi o romance mais vezes citado nos inquéritos de todas as pessoas (famosas e não só, recolhendo unanimidade entre todas as classes sociais e todas as áreas de trabalho) como o seu "livro preferido", logo seguido de qualquer um do Paulo Coelho ou da Margarida Rebelo Pinto. Alcançou também níveis de vendas inesperados para as livrarias portuguesas.
Sempre me fez confusão como é que um País que não lê e, na melhor das hipóteses, lê literatura mais leve (os nossos grandes autores fazem sucesso principalmente no estrangeiro e só depois aqui) deu tanta importância a um livro com uma atmosfera tão densa como "O Perfume".
Mas pronto, com a chegada do filme, fica agora desfeita uma dúvida que eu tinha. Finalmente, daqui a três ou quatro meses, a maior parte das pessoas que, nos inquéritos, refere "O Perfume" como o seu livro preferido já terá, finalmente, noção e conhecimento sobre o que fala realmente o livro.
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02/11/2006
Inteligência artificial
Revi o filme "Simone", com Al Pacino, Winona Rider e a top model canadiana Rachel Roberts. A película conta a história de um realizador de cinema que vê a sua carreira acabada devido à sua incapacidade de ver a sétima arte como um negócio. No entanto, o realizador acaba por ser presenteado com um programa informático que lhe permite criar a actriz perfeita, embora virtual, Simone (SIMulator ONE), que irá levá-lo ao estrelato.
Obviamente que não vou falar mais do filme para não estragar a surpresa a quem ainda não o viu. No entanto, refiro que, apesar de não ser um filme brilhante, tem aliás algumas cenas demasiado inverosímeis, é um filme divertido e que fornece uma crítica bastante feroz ao excessivo aspecto comercial da arte nos dias que correm, ao endeusamento das personalidades públicas, à imprensa cor-de-rosa, etc.
E, mais interessante, levanta uma reflexão sobre a possibilidade de ser criada vida virtual através da tecnologia. Curiosamente, após rever o filme, pesquisei na net sobre o assunto e encontrei alguns projectos muito avançados realizados por génios informáticos que trabalham para criar cérebros, ou programas, como lhes queiram chamar, com inteligência virtual que aprendem, memorizam e respondem de forma improvisada e única, consoante o feedback do utilizador, criando conversas únicas, lógicas e irrepetíveis. Estes programas são, sem dúvida, os embriões dos futuros cérebros informáticos, provavelmente num futuro não muito distante onde os sonhos de muitos autores da "sci-fi" se tornarão realidade.
Obviamente, não sou um especialista na matéria para explicar como tudo se processa. Mas, se quiser dar uma vista de olhos na matéria e instalar no computador uma "pessoa virtual" que já capaz de conversar consigo, visite a página http://www.kurzweilai.net/ e dê uma volta pelas suas muitas opções e interessantes artigos.
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01/11/2006
Cahora-Bassa
Boas notícias para Moçambique e para Portugal. Os dois governos chegaram finalmente a acordo sobre a barragem de Cahora-Bassa. Com este entendimento, que já devia ter acontecido há muitos anos, Moçambique pode agora beneficiar economicamente da grande barragem e distribuir em condições vantajosas electricidade pelo continente africano.
Mas não é só a questão económica que alegra o povo moçambicano, que festejou este acordo como se da conquista da independência se tratasse. Trata-se também da sensação do seu povo de que caiu o último símbolo do colonialismo, que agora não existem mais "obrigações" para com a Velha Europa. E, como disse o presidente de Moçambique, agora as relações institucionais entre Moçambique e Portugal podem melhorar, num clima de amizade e fraternidade, depois de um processo que se arrastou durante anos.
Para Portugal, significa um encaixe de 750 milhões de euros que não estavam previstos no Orçamento de Estado. Ou seja, inteligente foi o Governo em, por precaução, não incluir esta receita na previsão orçamental. Assim, em vez de, como em outros Governos, correr o risco de pecar por defeito, os economistas têm agora uma boa surpresa e uma redução do défice um pouco maior do que se esperava.
Também é por estas coisas que se vê a seriedade de um Governo.
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Ainda "Os Grandes Portugueses"
Ao contrário do que alguns críticos dizem, o resultado deste programa jamais será representativo do que a população portuguesa sente sobre a sua história, até porque a própria população não tem realmente noção da sua História. Como disse muito bem Eduardo Lourenço, este programa vai demonstrar sim a “ignorância” que existe em relação a quem somos, às grandes figuras que lutaram pela nação, pela liberdade, pelo progresso, não apenas português, mas mundial, pois fomos uma nação que descobriu mundos e que forneceu muitos ideais e ciências a toda a humanidade.
Também, os primeiros gráficos projectados pela RTP sobre as votações mostram que há claras diferenças de participação nas votações por parte das várias faixas etárias, o que impede o resultado de ser representativo.
Mas, independentemente do resultado final, o “Grandes Portugueses” servirá pelo menos para trazer à boca dos portugueses a história do nosso País, bem como alguns nomes menos falados habitualmente, para contar algumas histórias do nosso passado, para reviver grandes momentos e, espero, para elevar um pouco a nossa auto-estima e sentimento de patriotismo, numa altura em que nos esquecemos realmente de quem fomos e, consequentemente, de quem somos.
Mas, mesmo falando apenas dos grandes vultos nacionais, é injusto comparar personalidades de áreas completamente diferentes. Eu, como escritor, valorizo, por exemplo, Saramago acima de José Malhoa e Fernando Pessoa acima do Marechal Spinola. Mas serão comparações possíveis de se fazer, uma vez que cada um desempenhou papéis tão diferentes?
Mas, já agora, por curiosidade, num exercício meramente lúdico, pois os critérios de escolha são demasiado díspares e a história portuguesa e os vários contextos de cada época são demasiado ricos para serem reduzidas a uma votação, aqui ficam os onze portugueses (não consigo reduzir a lista a dez) que eu eventualmente escolheria, não necessariamente pela ordem apresentada: “D. Dinis, Infante D. Henrique, D. Sebastião, Luiz Vaz de Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Agostinho da Silva, Humberto Delgado, Amália Rodrigues, Zeca Afonso e Belmiro de Azevedo”.
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31/10/2006
Finalmente, o ambiente
Após anos de luta e de avisos, os ambientalistas começam finalmente a ver as suas palavras ganharem importância. Parece que finalmente os economistas e os políticos estão a tomar consciência da degradação do meio ambiente e dos perigos que esta traz ao planeta.
Mas, ironicamente, foi necessário que um economista inglês viesse a público explicar que as alterações climáticas provocadas pelo excesso de CO2 no ar vão provocar uma quebra de cerca de 20 por cento no PIB mundial para que se começasse a levar a sério este flagelo.
Agora sim, os Governos mundiais vão agir. E para tal, é necessário canalizar para a prevenção ambiental "apenas" 1 por cento do PIB de cada País.
Obviamente que tal não vai ser fácil, ainda mais numa altura em que tanto se fala na Europa de convergência financeira e do pacto de estabilidade económica, que obriga a uma contenção económica grande. Mas espero apenas que os economistas e os governantes percebam da importância desta medida.
Até porque, além da quebra prevista do PIB mundial, não me parece que os pulmões do homem estejam a preparar-se para receber dióxido de carbono em vez de oxigénio.
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Festival do Chocolate de Óbidos
Daqui a dois dias começa, em Óbidos, mais um Festival do Chocolate. O evento que a autarquia obidense começou a realizar há três anos, se não me falha a memória, é um fenómeno nacional e internacional, atraindo para a pequena vila dezenas de milhares de visitantes. Lembro-me mesmo de que, há dois anos, a GNR teve que encerrar os acessos da autoestrada A8 para impedir que mais pessoas entrassem nas imediações da vila.
Foi uma ideia brilhante, mais uma, do autarca de Óbidos, Telmo Faria, que tenho o prazer de conhecer de há muitos anos, muito antes de ser eleito presidente da Câmara. A verdade é que, em apenas 5 anos à frente da autarquia, elevou a vila de Óbidos e o seu castelo a um dos mais importantes pontos turísticos da região, ultrapassando todas as outras cidades em redor. E o Festival do Chocolate não é o único exemplo: o que dizer da fantástica Feira Medieval ou do Festival de Ópera? Ideias originais que elevaram e muito a vila.
Mas, considerações à parte, lá estarei outra vez este como jornalista a visitar os vários stands da feira, a deliciar-me com as maçãs cobertas de chocolate, o licor de chocolate, as mousses, os bolos, as esculturas extraordinárias feitas de chocolate, chocolate, chocolate.
Quem já foi a este evento em outras ocasiões sabe do que estou a falar. E quem nunca foi, que vá, com o alerta de que terá que fazer uma pesada dieta nos dias seguintes, pois é impossível resistir a provar muitas daquelas iguarias.
E deixem-me que vos diga que ser jornalista não é fácil. Para uma reportagem ficar bem feita, é preciso saber do que se fala. Então, é preciso provar, provar, provar...
Por isso, já sabem, quando regressar a este blogue, voltarei com uns quilos a mais. Mas também com um sorriso muito maior.
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26/10/2006
Ainda os "nobeis"
Por outro lado, fiquei mais uma vez desiludido com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Não por falta de valor do laureado. Mas porque já era altura de reconhecerem de uma vez por todas o valor deste homem. Mas, infelizmente, com uma idade avançada, Milan Kundera parece estar destinado a ser mais um dos grandes autores mundiais que nunca viu a academica sueca a reconhecer a grandiosidade da sua obra, os seus ideais de liberdade e a profunda melancolia e sensibilidade com que foca a história contemporânea, a poesia e o universo íntimo das suas extraordinárias personagens.
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Luís Costa Pires
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O Nobel dos Pobres
A notícia já é velha, mas, na altura em que surgiu, eu ainda não tinha regressado a este blogue, e, pela sua importância, não quero perder a oportunidade de falar nela.
Deixou-me muito feliz a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Muhammad Yunus, conhecido como o "banqueiro dos pobres", pela sua criação do microcrédito que permite a tantos milhões de pessoas normalmente sem acesso aos meios de financiamente, e em países do terceiro mundo, tentarem começar a sua vida com coragem e com empreendorismo. A atribuição do crédito a estes individuos baseia-se não na sua capacidade financeira para cumprir a devolução do crédito, mas sim na dignidade humana que fará com que, agradecidos pelo incentivo e pela generosidade, lutem para ganhar condições.
Porque a verdadeira caridade não é aquela que consistem em pena e em esmola, mas sim a quem permite que o outro se levante e se auto-sustente, sem medo de concorrência ou de perder o seu lugar de destaque e poder na sociedade mundial.
E para atestar da grandeza deste homem que merece inteiramente o Prémio Nobel, já que combatendo a pobreza se contribui para a paz (a pobreza e a riqueza, ao contrário do que liricamente acontece na Íliada, são sempre as causadoras das guerras), deixo aqui uma pequena transcrição de uma excelente entrevista publicado num especial do Público:
"Tem defendido que o microcrédito é uma arma de combate ao extremismo, ao fanatismo. O 11 de Setembro tornou essa arma mais forte?
Com o 11 de Setembro, os grandes países tomaram um caminho diferente. Se estivessem à procura de uma solução pacífica para o mundo, estariam a olhar para o microcrédito, mas não, tomaram a estrada errada. A guerra não é a solução para acabar com o terrorismo. Matar terroristas não resolve o problema. É através da compreensão das causas que se resolve o terrorismo. Uma das principais é a injustiça. Pode ser injustiça política, social, étnica. Por exemplo, a guerra pelos direitos civis nos EUA no início da década de 60 foi violenta. Foi-se então à procura de solução: fez-se discriminação positiva, deu-se emprego, crédito, poder económico e político à população negra. Deram-se oportunidades às pessoas. A negritude já não é uma expressão de raiva, pode ser de insatisfação ou desapontamento de alguns, mas já não é de raiva. Por quê? Porque se abriram as portas aos negros. Esquecemo-nos, entretanto, das diferenças étnicas. Com paliativos o problema não desapareceria. Isso apenas acontece quando eu me esqueço da minha diferença étnica em relação ao outro. É o único caminho.
O que pensa sobre a “saúde” da sociedade norte-americana, quando os seus valores são exportados para o mundo e tem, ao mesmo tempo, mais de 31 milhões de pobres e uma criança pobre por cada seis?
O problema da sociedade americana é que o tema do dinheiro absorve-a. Se se tem dinheiro, pode fazer-se tudo o que se quiser. Outras coisas, como os valores da comunidade, estruturadores de uma sociedade, ocupam um lugar muito secundário nas suas preocupações. O dinheiro desempenha um papel central nas suas cabeças e é-se culpado por não se ter sucesso. Não se criam expectativas aos pobres, criam-se programas de segurança social e manda-se lá passar todos os meses para levantar o cheque de 200 dólares. Não é nada, mas permite-lhes dizer que estão a cuidar dos pobres, dão-lhes também alimentos, mas não os estão a retirar da pobreza de uma forma activa."
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Luís Costa Pires
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Uma pequena honra
Numa altura em que se discute muito sobre quem terá sido o "grande português", tive, num encontro completamente casual e feliz, a oportunidade de conversar durante algum tempo com um dos homens que lutou contra a ditadura ao lado do General Humberto Delgado, de ouvir algumas das histórias de coragem que se passaram então, de luta por um ideal de condição humana que vai muito além da vida mesquinha que levamos hoje cada um em busca apenas da satisfação dos seus próprios prazeres e necessidades.
Serviu-me para chegar à conclusão de que o grande português, a existir, só poderá ter sido de outro tempo. Porque hoje não somos grandes, pois não damos o devido valor à liberdade que agora temos e preferimos viver debaixo de uma manta de pessimismo, cegueira e queixume.
PS - fica para muito breve um post mais elaborado sobre esse programa televisivo que promete algum polémica
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20/10/2006
Para amantes do cinema
Outra mensagem recebida que me parece importante divulgar:
"Ver, sentir, escutar, pensar e discutir o cinema, é o propósito ao qual o Núcleo de Programação Cinematográfica se propõe alcançar, ao avançar para um projecto de programação contínua em colaboração com a Mediateca da F.C.S.H. Após quatro anos de funcionamento activo, nos quais, em colaboração com o realizador João Mário Grilo, seus discentes, e variados colaboradores como Alberto Seixas Santos, Pedro Costa, Paulo Filipe Monteiro, José Manuel Costa, Margarida Gil, entre outros, foram realizados quatro grandes ciclos. Três ciclos de autor (Buster Keaton, Yasujiro Ozu e Westerns de John Ford), e um ciclo temático (Sonhos e Visões), assim como variadas mostras e outros ciclos.
O núcleo vai agora apostar na criação de uma proposta de programação alternativa contínua, querendo assim dar visibilidade a uma cinematografia excluída do circuito comercial vigente.
(...)
Vimos então por este meio solicitar a todos os amantes da sétima arte que se juntem a nós neste projecto, que passa pela tentativa de expôr não só cinema, mas outros cinemas, documentários, vídeo-arte, e cinema experimental, apostando sempre numa programação cuidada e criteriosa. Solicitamos então a todos os interessados que enviem o seu contacto para npci@fcsh.unl.pt para efeitos de agendamento de uma reunião."
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19/10/2006
O novo referendo sobre o aborto
Nova discussão no parlamento sobre o aborto. O PS quer avançar para novo referendo, após a recusa dos portugueses há oito anos atrás. O debate não terá nada de novo, as razões de cada uma das partes está mais do que explicada e, tratando-se de uma questão de consciência, nada irá mudar:
- Existem os que defendem a liberdade de escolha de cada mulher e casal nas primeiras dez semanas de vida do feto. Isto levará ao aparecimento de clínicas seguras onde se possa praticar o acto, permitindo assim melhores condições de saúde e segurança para a execução da interrupção da gravidez, responsabilizando os cidadãos sobre os seus actos e, claro, à necessidade de melhor informação e educação sobre a sexualidade.
- Existem os que defendem que o aborto é crime em qualquer altura, pois o feto é um ser vivo desde o momento da fecundação. Alguns falam ainda da vontade divina. Isto sem ligar ao facto de que os abortos continuam a existir mesmo sendo ilegais e que assim são feitos sem quaisquer condições, com risco de saúde para as mães. Já para não falar dos problemas psicológicos que pode trazer para as mulheres que, já pelo próprio acto, vão ver-se confrontadas pelo sentimento de culpa, e que podem trazer problemas relacionais e de integração na sociedade. Existe ainda a questão da invasão da privacidade de cada uma das mulheres.
- Existem ainda os hipócritas e os cobardes, como disse o Primeiro Ministro José Sócrates, e muito bem, que acham que a lei não deve ser mudada, que o aborto deve continuar a ser um crime, mas que não se deve depois aplicar a lei na prática.
Quanto a mim, a questão é simples. No que depender de mim, nenhum aborto acontecerá e jamais incentivarei a sua prática. Mas não tenho o direito de decidir pelos outros. Por isso, defendo a despenalização do aborto até as dez semanas, porque acredito na liberdade de cada um decidir. Só isso, é uma questão de liberdade. E quem estiver contra isto, está, obviamente também, contra a liberdade de cada um.
Mas levanta-se aqui outra questão. Há oito anos atrás, os portugueses escolheram o não. Independentemente do que cada um acredite, é preciso respeitar essa decisão, caso contrário os referendos não fazem sentido. Mas, desde então, têm existido sucessivas tentativas de promover novo referendo. Será que vamos ter referendos até que os portugueses digam sim? E depois, se o aborto for despenalizado? Vamos ter novos referendos de x em x tempo porque os defensores da penalização não concordam com o resultado?
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O novo Vietnam
Bush admitiu em entrevista a um programa televisivo que a ocupação americana do Iraque se parece cada vez mais com a guerra do Vietnam, mas que, mesmo assim, não planeia retirar as tropas americanas enquanto o Iraque não for um país com uma democracia estável (leia-se controlada pelos amerianos e pelos seus interesses).
É mais uma prova de que burro velho não aprende línguas ou de que as lições da história não servem para nada, pelo menos quando os interesses económicos existem.
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Um conselho
Um mail que recebi e que me parece pertinente, apesar de não ter nada a ver com os temas normalmente abordados no blogue:
"O que fazer com o óleo usado? Você sabe onde deitar o óleo das frituras em casa? Mesmo que não façamos muitas frituras, quando o fazemos, jogamos o óleo na pia ou noutro ralo. Este é um dos maiores erros que podemos cometer. Fazemos isto por desconhecimento. Sendo assim, o melhor que tem a fazer é colocar os óleos utilizados numa daquelas garrafas de plástico, fechá-las e colocá-las no lixo normal, ou seja, no orgânico. Um litro de óleo contamina mais de um milhão de litros de água, o equivalente ao consumo de uma pessoa normal durante 14 anos."
Às vezes esquecemo-nos destas pequenas atenções (por mim falo), mas é preciso começar a não o fazer.
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18/10/2006
Quando eu chego em casa...
Há um CD que me marcou desde a primeira vez que o ouvi e me toca profundamente sempre que o ouço. Não sei se é o facto de se tratar da junção de dois dos maiores artistas de sempre, se é a sonoridade (as batidas são hipnotizantes), se a voz melodiosa de um em contraste com a voz algo seca do outro, se os poemas magníficos,não sei. Mas a verdade é que o concerto que Chico Buarque e Caetano Veloso deram ao vivo na década de 70 e que imortalizaram em disco, é, para mim, uma das maiores obra-primas da música.
E nem sei o que dizer daquela fusão que eles fazem, fantástica em termos de significado e de ironia, dos temas "Você não entende nada" e "Quotidiano".
E para quem não conheça, aqui fica o poema da primeira música...
"Você não entende nada" (Caetano Veloso)
Quando eu chego em casa nada me consola, você está sempre aflita
Lágrimas nos olhos de cortar cebola, você é tão bonita
Você traz a coca-cola, eu tomo
Você bota a mesa, eu como, eu como, eu como, eu como, eu como
Você
não tá entendendo quase nada do que eu digo
Eu quero é ir-me embora, eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo
Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não agüento, você está tão curtida
Eu quero é tocar fogo neste apartamento, você não acredita
Traz meu café com suita, eu tomo
Bota a sobremesa, eu como, eu como, eu como, eu como, eu como
Você
tem que saber que eu quero é correr mundo, correr perigo
Eu quero é ir-me embora, eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo
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Agora sim, o regresso
Após alguns meses de regressos e partidas, de projectos, alguns bem sucedidos, outros perdidos, regresso a este espaço, com a felicidade de ver já quase 14 mil visitas diferentes registadas. Mesmo apesar de não escrever nenhum post há quase um ano, as pessoas continuaram a vir aqui e a ler os comentários e os textos que escrevi durante algum tempo.
Então, agora que me dedico outra vez mais a sério à escrita, aos livros e às crónicas, é altura de regressar.
Obrigado pelas visitas e até já.
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21/06/2005
Ainda o Papa
Isto tudo fez-me lembrar uma anedota brilhante que ouvi quando o alemão foi escolhido para o papel de Papa. A razão da sua escolha é óbvia: numa altura em que a Igreja vê tantas ovelhas tresmalhadas, o Vaticano foi buscar um pastor alemão para as manter mais juntas.
Ler o resto do post...
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Os ferraris do Papa
Já se notam mudanças no Vaticano. Após a morte do saudoso João Paulo II, que tanto pregou pela paz e pela luta contra a pobreza, a tal ponto que mereceu a total comoção do mundo inteiro, de católicos e não católicos, o novo Papa, Bento XVI, começou já a criar os seus próprios hábitos. Para começar, na habitual missa do Ângelus, na imponente e tradicional Praça de São Pedro, o novo Papa abençoou vinte veículos da marca Ferrari, que estavam estacionados no meio do local, perante um forte esquema de segurança e algum aparato, não estivessem ali presentes objectos de valor elevado que necessitavam de ser protegidos.
Acho que é bonito, de facto, ver a preocupação que o novo Papa tem para com estes veículos de luxo. Aliás, provavelmente, estes automóveis não possuem qualquer segurança na estrada (senão seriam bastante caros, não seriam tão baratos como são, algumas dezenas de milhares de contos) e os seus proprietários devem ser pessoas de grande infelicidade e necessidade de bênção, pois devem estar altamente necessitados e a passar grandes dificuldades. Pobres Bill Gates, Ted Turners e afins! É muito mais importante abençoar os milionários do que se preocupar com os milhões que morrem de fome ou que são ainda espoliados de guerra, com os que estão doentes ou necessitados.
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30/05/2005
Aos que se importam
“Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros usam a virtude / Para comprar o que não tem perdão. / Porque os outros têm medo mas tu não. / Porque os outros são os túmulos caiados / Onde germina calada a podridão. / Porque os outros se calam mas tu não. (…)”
Sophia de Mello Breyner Andresen
É pena que as novas gerações, principalmente fora das grandes cidades, raramente se interessem pelas coisas relacionadas com a política, os problemas sociais e eventos culturais. Parece-me importante que se perceba que todos temos uma voz e a possibilidade de falar e expor as nossas ideias, esse direito tão importante ganho graças ao 25 de Abril que há bem pouco festejámos. É fundamental tentar perceber o que se passa, pensar e, se possível, arranjar soluções para os problemas. Nem que seja para conviver num plano um pouco diferente da mera cortesia, da mera conversa de circunstância e do tempo que vai fazer amanhã, do odioso reality show ou do filme que passou no dia anterior. Parece-me importante não seguir cegamente as modas e as trends. É fundamental ter-se a capacidade e a coragem de decidir rumos e enfrentar obstáculos, de ter sonhos e assumi-los como objectivos, de nunca preferir a fuga, mesmo que a derrota seja uma possibilidade.
Está visto que era importante para o mundo existirem mais pessoas que se preocupam. Que percebem que o mundo não é apenas o seu umbigo e que a única forma de melhorar a sua própria vida é também melhorando o que os rodeia; porque não vivemos sozinhos, porque não existimos num vácuo, porque cada acção tem um efeito. Porque a nossa felicidade depende também da dos outros.
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27/05/2005
A falta de sensibilidade
No meu trabalho de jornalista tive, recentemente, para a revista que dirijo, de desenvolver um artigo sobre a falta de acessibilidades nas cidades portuguesas. E confesso que, apesar de me considerar bem informado sobre a maior parte dos assuntos, aliás a minha profissão obriga a isso, fiquei desagradavelmente surpreendido com este caso concreto.
Realmente, existe um grande sentimento de egoísmo generalizado nas pessoas. Uma incapacidade de olhar para o lado e pensar nas necessidades alheias. Existe também a incapacidade de perceber as dificuldades que não possuímos. É como, infelizmente, diz o ditado, "com o mal dos outros posso eu bem". Pois, mas a verdade é que não devíamos poder bem com essa situação.
A vida de um deficiente motor em Portugal, a vida de alguém que ande numa cadeira de rodas, já por si uma pessoa com um problema grande o suficiente (não se trata aqui de os tratar como coitadinhos, mas reconhecer de facto os seus problemas), é uma vida difícil. Por exemplo, encontrei muitos casos de edifícios públicos, que deveriam estar preparados para o caso, que não possuem rampa para acesso a cadeira de rodas. Noutros casos, eles foram integrados posteriormente no edifício, muitas vezes em materiais diferentes do original da construção, o que torna a estética horrível, e, ainda por cima, apesar de lá existirem, não há forma de uma cadeira de rodas conseguir subir o passeio antes de lá chegar. É o caso, por exemplo, do edifício do Tribunal das Caldas da Rainha.
Como dizia um dos entrevistados, até passarem pelas coisas, as pessoas não fazem ideia de como pode ser difícil encontrar um passeio mais alto. Ou, simplesmente, um automóvel estacionado no passeio, que permite a passagem de um homem a pé, mas não de cadeira de rodas. E tal é frequente em Portugal. Já para não falar dos espertinhos que estacionam em lugares para deficientes.
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30/11/2004
Até que enfim, sr. Presidente
Após mês e meio sem escrever neste blogue, por motivos de excesso de trabalho e desânimo perante o nosso País, volto a deixar aqui algumas palavras, na esperança de que, agora, com mais ânimo, o ritmo volte a ser o normal.
E as palavras são estas:
"Até que enfim, Sr. Presidente da República".
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12/10/2004
Toy no Iraque
Recebi um mail a informar-me que o cantor pimba Toy vai partir para o Iraque. A notícia continua referindo que a presença do músico português irá moralizar as tropas da Guarda Nacional Republicana, que estão colocadas no território em missão de paz.
No entanto, tenho uma dúvida. Qual é a real intenção desta viagem? Será realmente moralizar as tropas? Ou Santana Lopes quer dar graxa a George Bush e provar que Portugal também sabe ser cruel e torturar os iraquianos?
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03/10/2004
Diego
Não sei como é que o FC Porto consegue. Qualquer brasileiro que vá para os azuis e brancos prova o seu valor e encanta. Nos outros grandes portugueses, as grandes estrelas brasileiras são quase sempre fiascos.
Diego é uma maravilha. Tenho a certeza de que vai fazer rapidamente a genialidade de Deco pertencer a um passado distante. O passe para o último golo de McCarthy é qualquer coisa de inesquecível.
Não sei como é que o FC Porto consegue. Sinceramente, não sei.
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26/09/2004
Mystic River
Não tive oportunidade de o ver em cinema. Vi-o ontem em DVD. E arrependi-me de não ter conseguido vê-lo no grande écrã.
"Mystic River" é um filme excepcional. A prova de que um thriller pode ser contado de uma forma profundamente subtil e onde os pormenores e a intimidade das personagens ultrapassa até o interesse do "quem matou quem". Cada uma das personagens tem dilemas internos profundos, segredos por contar, traumas a ultrapassar durante o desenrolar do enredo. É uma história de amor e de medo, de traição e de ironia.
Sean Penn foi brilhante, mas todo o elenco é excepcional. A fotografia é de uma beleza extrema, com um ambiente eternamente sombrio e cinzento. Os diálogos brilhantes, com alguns momentos a merecerem ser recordados.
Vou evitar falar mais de "Mystic River" para não contar pormenores que estragem a sua visualização a quem não o tiver visto. Mas deixo um conselho a quem o fizer: não entre no filme com o objectivo de descobrir quem é o criminoso. Porque, mesmo que, por alguma razão estranha o consiga, nunca vai conseguir descobrir o enredo por trás do acontecimento, de tão irónico e envolvente com todas as outras personagens. Até porque, mesmo o desfecho que é sugerido como o mais evidente, ainda encerra muitas dúvidas de ter sido a realidade.
Encoste-se e aceite o que está perante si. É um daqueles filmes em que vale a pena ser um simples espectador que apenas ouve e vê o que lhe estão a contar, em vez de se armar em detective.
Imperdível. Dentro do género, com "Memento", "Seven", "Os Suspeitos do Costume" e "Clube de Combate", um dos melhores filmes de sempre. Só não ganhou mais do que dois óscares da Academia (melhor actor para Sean Penn e melhor actor secundário para Tim Robins (Os Condenados de Sawshank")) porque a academia tinha, nesse ano, que premiar a triologia de "O Senhor dos Anéis".
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21/09/2004
Entrevista em Cascais
Tarde excelente passada em Cascais, na belíssima Casa da Guia, na companhia da simpática Paula Pinto, promotora musical, e do artista brasileiro Maurício Mattar. Entrevista excelente, que comprova o que já pensava dele. É muito mais do que uma cara bonita que fazia de galã nas telenovelas e faz suspirar as adolescentes. É um homem com um pensamento profundo e objectivos concretos. Sabe o que quer e como quer, e tem até, pasme-se, uma forte ligação esotérica. É budista e não tem problemas em falar do assunto.
E é um grande autor da Música Popular Brasileira. Djavan, Caetano Veloso, Toquinho e Carlinhos Brown já o afirmaram. Eu, que não sou nada ao pé desses monstros da música, afirmo o mesmo.
Sem dúvidas. Espero agora que a entrevista que lhe fiz fique à altura do que merece.
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20/09/2004
Surpreendido
Já tinha ficado surpreendido com os dois avançados que Trapattoni colocou a jogar contra os eslovacos na primeira mão da eliminatória da Taça UEFA. Hoje, o técnico italino voltou a mostrar arrojo, ao colocar fazer entrar dois pontas de lança na equipa na segunda parte, para combater o empate a zero que se verificava então. Em ambas as ocasiões, a coragem foi recompensada e o Benfica, após o desastre na Liga dos Campeões, promete outros feitos.
A continuar assim, terei que retirar completamente o que disse anteriomente sobre a inadequação de Trapattoni à realidade do Benfica.
Aliás, espero bem ter que o fazer.
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19/09/2004
Visita mais do que obrigatória
Mais do que obrigatória a visita ao blogue http://doportugalprofundo.blogspot.com/, onde o seu autor fala em pormenor do processo Casa Pia, com excertos de declarações dos envolvidos no processo, com considerações e pormenores de grande importância. Excelente trabalho para quem quer tentar perceber um pouco melhor a porcaria que se passa neste País e que ainda está muito longe de ser totalmente revelada.
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31/08/2004
Frutos de Sombra
Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade
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30/08/2004
Barco do aborto
O "Barco do Aborto" foi impedido pela marinha portuguesa de entrar nas águas territoriais nacionais, responsabilidade dos ultra-conservadores por trás da manutenção da falsa moral e bons costumes que minam a hipócrita sociedade portuguesa.
Correndo o risco de ser mal educado e ordinário, acredito que, se este barco tivesse vindo a Portugal há alguns anos e tivesse cumprido a sua função, esta situação não seria possível agora.
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24/08/2004
Trapattoni
Evitei fazer comentários após a derrota do Benfica frente ao Porto, na esperança de estar errado. Mas agora não tenho dúvidas. Há um grande responsável pelos resultados vergonhosos conseguidos pelo Benfica nos últimos jogos. E esse responsável é Luís Filipe Vieira.
O presidente do Benfica tem que assumir as responsabilidades da má escolha que fez ao trazer Trapattoni para o Benfica. Não está aqui em causa o profissionalismo, nem a competência da "Velha Raposa". Trata-se de perceber que nem todas as peças encaixam em todas as máquinas. Trapattoni é um excelente treinador se tiver jogadores capazes de praticar o seu futebol cerebral e calculista. Acontece que o Benfica não é uma equipa inteligente. É uma equipa emotiva. Os jogadores portugueses não são cerebrais, são virtuosos. Por isso é que a fúria espanhola de Camacho funcionava para melhorar o jogo do Benfica, porque dava ainda mais força a essa qualidade encarnada. Não a frieza de Trapattoni. Essa não cabe no Benfica, não funciona. E, sinceramente, nem quero vê-la no meu clube.
O Benfica que eu amo é a equipa emotiva, imprevisível, capaz do melhor e do pior, mas cujos espectáculos são um hino ao desporto. Não é uma equipa de jogadores cinzentos e calculistas, que preferem empatar a zero do que arriscar perder o jogo. Não é uma equipa que, a perder por três a zero, coloca mais um defesa em campo.
Mas Trapattoni também errou em termos técnicos contra o Anderlecht. Ricardo Rocha, o melhor central da equipa, e Zahovic, o jogador em melhor forma, não podiam ficar no banco. Mas a verdade é que o Benfica foi um enorme, um gigante zero. Foi vergonhoso e humilhante. Como já tinha sido contra o Porto. Aliás, para mim, a derrota contra o Porto ainda foi pior do que esta contra o Anderlecht. É que os belgas são uma equipa construída. O Porto é um grupo de jogadores a tentar construir uma equipa, depois da razia em relação à época anterior.
O que Luís Filipe Vieira tem que perceber é que um grande homem é aquele que consegue admitir os erros que comete e os corrige. Trapattoni não pode ficar no Benfica, porque não é homem para perceber o clube ou para dar-lhe o fogo necessário, pelo contrário, arrefece-o. Repito: não é uma questão de competência, é uma questão de adequação. Uma equipa de futebol é um grupo de homens. E cada grupo de homens tem que ser entendido e ter um método adequado a si. Mourinho percebe isso e, como tal, cria motivações e níveis de confiança inacreditáveis nos seus jogadores. Trapattoni não, prefere fiar-se na disciplina e na inteligência táctica.
Para o Benfica não fazer a pior época da história, só há duas soluções. Ou sai Trapattoni, ou Luís Filipe Vieira manda embora noventa por cento dos jogadores actuais e compra outro tipo deles, mais calculistas, mas sem o coração que caracteriza o meu Benfica.
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18/08/2004
Liber Mundi
Tenho passado grande parte do meu tempo livre a pesquisar e escrever sobre metafísica e o progresso espiritual. Não querendo misturar esses assuntos neste espaço, uma vez que não são bem aceites por toda a gente, muitas vezes por mero receio infundado do que ainda não conhecem ou por superstições tolas, criei um novo blogue, chamado Liber Mundi.
Nesse outro espaço irmão, colocarei os posts relacionados com essa temática, desde meros pensamentos, contos e parábolas, a estudos mais profundos sobre temas específicos como Tarot, Astrologia, estudos cabalísticos, etc, passando pelas palavras dos grandes mestres da humanidade. O objectivo é apenas partilhar a informação com quem se interesse pelos mesmos temas.
Fica já convidado a visitar esse novo espaço. Mesmo que "não acredite". Conhecer algo nunca fez mal a ninguém.
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Poemário
O Universos Desfeitos tem uma lista de poetas portugueses que vale a pena consultar. Está bastante actualizada e é extensa.
Um excelente trabalho a bem da cultura portuguesa.
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17/08/2004
Primeira medalha
Logo nos primeiros dias mdos Jogos Olímpicos de Atenas, um português alcançou uma brilhante medalha de prata, quase como que dizendo aos gregos que também somos capazes de conseguir bons resultados no “campo do adversário”. Sérgio Paulinho foi o autor do feito, na modalidade que elegeu há vários anos, o ciclismo.
Para mim, esta medalha teve um sabor algo especial, uma vez que acompanhei durante algum tempo a sua carreira, na altura em que colaborava na secção de desporto de um semanário regional e ele corria numa modesta equipa da zona de Alcobaça. Depois, o atleta deu o salto e acabei por perder-lhe o rasto. Agora, com surpresa e agrado, vejo-o ganhar uma medalha de prata na mais importante competição desportiva de todas.
Percebo que ganhar uma medalha olímpica deve ser um sentimento único. Ver a bandeira subir o mastro e ouvir os acordes do hino, ainda mais numa altura em que todos esses símbolos ganharam nova força junto do coração dos portugueses, deve provocar um momento de grande realização pessoal. É a noção clara de que toda uma nação está orgulhosa, embebida de um estranho e comovente amor comum, de que, por breves momentos, mais de doze milhões de pessoas, espalhadas pelo mundo, se emocionam e ovacionam um determinado feito.
Parabéns ao Sérgio Paulinho. Parabéns a Portugal.
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Fábrica de Sonhos
A Catarina Paramos, colega de escritas e pensamentos, pede-me para trocar o anterior link do blogue onde participava pelo novo, que se chama Fábrica de Sonhos.
Missão cumprida. Toca a visitar o novo blogue.
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13/08/2004
MPB
Na pesquisa que tenho andado a fazer sobre Música Popular Brasileira, encontro poemas de uma riqueza extraordinária, sempre com a simplicidade que caracteriza o povo brasileiro (voltarei a esse tema mais tarde). Quero, nos próximos dias, partilhar convosco alguns deles.
O primeiro, uma verdadeira obra-prima, é de um dos meus cantores brasileiros preferidos, Oswaldo Montenegro.
Metade
Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.
Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço,
Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente
Complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção.
E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade também.
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09/08/2004
Sonho III
Encontro continuamente um profundo pensamento metafísico nas lojas que se chamam "O meu sonho" (e há delas em todas as terras do País, pois por todo o lado existem sonhadores).
Agora, encontrei novo papel afixado na porta da dita loja, dizendo: "O Meu Sonho. Volto já"
Não é o que acontece muitas vezes? Termos que esperar pelos nossos sonhos e ganhar forças apenas das suas promessas de regresso?
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30/07/2004
Os incêndios
Continuo chocado e sem perceber como é possível que, ano após ano, aconteçam calamidades como a vaga de incêndios no nosso País. Quais são afinal as causas de todos estes incêndios? Falta de atenção das pessoas? Fogo posto? Mera subida do calor? Ou, como diz o Correio da Manhã hoje, falta de planeamento e de criação de planos de acção para a prevenção dos incêndios?
É muito complicado para mim perceber toda esta situação, ainda mais quando fico completamente arrasado com as imagens que nos chegam pela televisão dia após dia, do sofrimento das pessoas, dos bens perdidos, das vidas destruídas.
Lembro-me, como já tive oportunidade de referir em algumas crónicas que escrevi, que, quando em 2002, participei na Gala Nacional dos Bombeiros Voluntários com um poema escrito especificamente para a ocasião, os avisos eram muitos, as promessas de criação de planos de prevenção e aumento de fundos governamentais para o combate a este flagelo também.
No entanto, todos nos lembramos da desgraça que aconteceu no ano anterior. Neste, caminhamos para uma equivalente. Será que não há maneira de se traçar um plano realmente efectivo para, pelo menos, diminuir o problema?
Já agora, convido-os a lerem a crónica que escrevi no dia 6 de Agosto de 2003 sobre o tema, e que, infelizmente, continua a ser terrivelmente actual.
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28/07/2004
Visita obrigatória
O Atelier Arte e Expressão é uma associação que comemora agora quinze anos e de cuja direcção tenho a honra de ser Presidente. Muitas são as actividades culturais e sociais que levamos a cabo, e brevemente poderei colocar aqui um linque para a nova página na internet, onde poderão conhecê-la melhor.
No entanto, agora, gostava de vos convidar a visitar esta página: http://www.geocities.com/polypus2003/
Trata-se da página elaborada por jovens em risco, entre os 15 e os 21 anos, que o Atelier, através de um projecto com a colaboração da União Europeia, chamado Polypus, tenta reintegrar e formar. Visitem a página e participem nos jogos que eles criam.
É importante para saberem que a sua página é popular e que vale a pena fazer coisas construtivas. É importante o apoio de todos.
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Tempo escasso
O tempo anda escasso, entre saídas para visitar eventos, como o Mercado Medieval de Óbidos, que foi excelente e demonstra o que uma autarquia pequena pode fazer desde que tenha arrojo, imaginação e qualidade, saídas nocturnas, trabalho a dobrar para compensar o Agosto passado em férias e a obrigatória quota de horas dispensada para os amigos e família.
Mas prometo compensar aqueles que, teimosamente, ainda vão visitando esta página para ler os meus posts. É só mais dois ou três dias e terei outra vez disponibilidade consonante com a necessidade de um blogue pessoal.
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18/07/2004
Agustina
Mais vale tarde do que nunca. Leio a entrevista que Agustina Bessa-Luís deu ao Público e à Renascença e retenho um excerto que gostaria de partilhar.
"Lembro-me do meu irmão dizer, quando comecei a escrever, que se estivesse na América seria rapidamente célebre. E eu dizia que felizmente isso não acontece. Porque é muito importante a dificuldade. É preciso sentir que não é fácil escrever - como não é, de resto, fácil viver. O [escritor] Ferreira de Castro dizia que era preciso ter cuidado com o êxito fácil. E é um bom conselho. "
É, de facto, um óptimo conselho para qualquer momento da vida.
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16/07/2004
Barrabás
Muitos dias de ausência por excesso de afazeres e alguma falta de inspiração para posts curtos. Pelo meio, o recomeço de um romance que estava parado a meio há mais tempo do que devia, e o regresso à leitura de bons romances.
Reconciliado com a leitura (há alguns meses que simplesmente não me conseguia concentrar em qualquer livro), em dez dias, três excelentes obras, que todas aconselho: "A Cartuxa de Parma", de Stendhal, "Barrabás", de Par Lagerkvist, e "Seara de Vento", de Manuel da Fonseca.
"Barrabás", particularmente, é impressionante. Lagerkvist conseguiu encarnar na personagem bíblica, neste criminoso que foi libertado da cruz para que Jesus fosse crucificado, toda a humanidade, os seus anseios, as dúvidas, a vontade de ter fé e de acreditar, os medos, as fraquezas e as forças. Barrabás é uma personagem fascinante, com o seu drama cruel de tentar perceber por que razão é que a justiça o libertou, sendo culpado de vários crimes, deixando um homem inocente, que pregava o amor e a paz, ser castigado. Sempre tive vontade de me debruçar sobre esta figura para um romance. Mas, agora, depois de ler este livro, percebo que não vale a pena. Não poderia nunca criar uma obra que dignificasse mais a excelência desta figura do que a que acabei de ler.
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03/07/2004
Sophia
Não há nada a fazer quando a morte chama o nome dos Homens. Não há nada que se possa fazer para impedir essa viagem, dolorosa para os que ficam, incógnita para os que partem.
Sophia de Mello Breynner Andresen foi chamada e deixou mais pobre um País que, ainda que pouco dado à leitura e poesia, sabia reconhecer o seu talento, a forma límpida como escrevia a natureza e o amor, a magia das crianças e as pequenas coisas do dia a dia.
É sempre fácil fazer homenagens quando alguém parte. Nessas alturas, todos são recordados pelo bem e pelo talento. No meu caso, sinto-me absolvido. Prestei-lhe homenagem cada vez que me emocionei com os seus poemas. E, mais singelamente na altura, mas agora de uma importância acrescida, quando dei o seu nome a uma gata branca e de olhar azul e sonhador que veio parar a minha casa.
E essa ainda aqui está, ao meu lado, deitada confortavelmente a dormir, como se lhe nascesse no sonho algum novo poema.
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01/07/2004
PP
É impressão minha ou ninguém ficou espantado com o facto de, no meio de toda esta polémica com a saída de Durão Barroso para a Europa, o Partido Popular, normalmente tão inflamado e crítico, apoiar sem reservas qualquer decisão do PSD a respeito da sucessão do ex-primeiro-ministro?
O que alguns lugares no Governo não fazem...
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A universalidade de Portugal
A coisa bonita de ser português é esta universalidade que nos acompanha. Neste momento, quase todo o mundo, incluindo os adeptos dos países que foram eliminados por Portugal, estão a torcer pela nossa vitória na final do Europeu.
As manifestações de alegria e os festejos no Brasil, em Timor, em Moçambique, em Angola, as crianças holandesas que gritavam por Portugal no final do encontro, tudo isso demonstra bem essa magia que acompanhou sempre o nosso povo ao longo das eras.
Nunca fomos conquistadores nem guerreiros. Fomos sempre colonizadores e companheiros de cultura e vida, pelo que não temos inimigos nem vendettas. E essa universalidade está também patente na criatividade que nos acompanha, que choca muito com a eficiência e método que a vida por vezes exige, mas que é a maior de todas as qualidades, se for utilizada com confiança e sem complexos.
Seria tão bom que esta fase de optimismo, de alegria e de confiança na nossa genialidade enquanto povo não terminasse com o euro, com o seu sucesso desportivo e organizativo. Que se mantenha sempre.
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28/06/2004
Durão na Europa
Compreendo que os portugueses estejam indignados com a partida de Durão Barroso para a Europa, até porque a alternativa apresentada para primeiro-ministro português é Pedro Santana Lopes (que assim sobe mais um degrau na sua escada do poder).
No entanto, olhando para trás e para a governação feita até agora, Portugal só pode ganhar com a saída de Durão. Primeiro, ganhamos uma voz importante na União Europeia e mais poder dentro da organização, ainda que a reboque da administração Bush e dos favores que fez a todo esse eixo de poder. Segundo, sem Barroso, haverá uma remodelação grande no Governo, que nunca poderá mudar para pior.
A saída de Durão só representa uma coisa: Afinal o PPD-PSD não mentiu. A retoma está mesmo a começar.
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24/06/2004
A loucura de Portugal
Finalmente o que se espera dos portugueses. Uma atitude fantástica, uma luz enorme.
Não vou falar do jogo, que foi brilhante. Não vou falar do golo de Rui Costa, que vale um Europeu inteiro.
Falo apenas da loucura. Portugal ganhou o jogo porque se relembrou do poder da loucura. Postiga, em pressão insuportável, em vez de marcar um penalty de maneira normal, picou a bola para um golo de belo efeito, mas de grande risco, que poderia crucificá-lo, caso falhasse, que podia colocar um país inteiro em lágrimas. A seguir, Ricardo tirou as luvas para defender a bola, numa atitude de louca determinação. E conseguiu. Depois, quis ser ele a marcar e deu a vitória a Portugal.
A loucura é o caminho do Português, o divino improviso, a genialidade, a ligação com o que não pode ser explicado. Assim, Portugal não poderá perder nunca. Da mesma maneira que, no passado, não perdeu batalhas em que estava em grande inferioridade numérica. Da mesma maneira que, munido de alguns marinheiros e barcos, resolveu andar pelos perigosos mares e descobriu novos mundos. A genialidade da loucura é o trunfo de Portugal e é preciso assumi-lo.
É que não se pode perder nunca aquele que não sabe qual o caminho a seguir.
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21/06/2004
Considerações
Agora, com mais calma, penso na vitória portuguesa sobre a Espanha e chego a algumas conclusões.
- Temos que agradecer parte da vitória ao nosso agente infiltrado, Carlos Queirós. Fez um excelente trabalho em Madrid, ao destruir a equipa galática do Real, desmoralizando assim os seus atletas, que foram achincalhados e humilhados pela comunicação social espanhola e mundial. Curiosamente, o único jogador do Real que escapou às críticas foi Figo. De resto, bem se viu, por exemplo, a sombra que Raul, eventualmente o melhor avançado do mundo, foi de si próprio neste Europeu. Em compensação, José António Camacho, não percebendo o duelo ibérico, chegou a Portugal e devolveu a mística ao Benfica, ajudando a que, por exemplo, Nuno Gomes estivesse confiante e moralizado no momento em que desferiu o golpe mortal no peito espanhol.
- A eliminação da Espanha acaba por ser algo prejudicial em termos económicos, pois os milhares de turistas espanhóis irão, com certeza, para casa, e não deixarão, com toda a certeza, os seus euros por cá. No entanto, temos mesmo é que rezar para que não nos calhe a Inglaterra na próxima ronda. Porque, já se sabe, iríamos "marchar contra os canhões", dar uma coça nos ingleses e enviá-los para casa e, com isso, perderíamos os muitos milhares de euros que a Sra. Beckham gasta por cada dia que passa em Portugal. E, numa altura em que estamos tão necessitados de verbas que nos permitam aumentar o PIB nacional, não podemos perder a sua estadia no nosso País. É que Vitória Beckham, sozinha, vale por muitos espanhóis. Com ou sem dinheiro, obviamente.
-
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20/06/2004
Até que enfim
Agora sim, Portugal mostrou qualidade. Foi um bom jogo da equipa das quinas frente à Espanha. Ricardo Carvalho e Nuno Valente foram enormes e mostraram por que razão foram campões europeus pelo Futebol Clube do Porto. No meio campo, Deco, Figo e Cristiano Ronaldo jogaram a grande nível. Figo finalmente arrancou uma grande exibição neste europeu. Maniche surpreendeu-me pela intensidade com que encarou o jogo, pela disponibilidade.
No ataque, já se sabe. Nuno Gomes é melhor que Pauleta, joga mais para o colectivo e é mais inteligente. Tinha sido outra das grandes sugestões que eu fiz após o jogo com a Grécia. Assim temos uma equipa.
Tivemos alguma sorte, é verdade. Os espanhóis enviaram duas bolas ao poste. Mas Portugal também teve boas oportunidades para aumentar a vantagem, que poderiam ter aumentado ainda mais a vergonha espanhola.
Mas os falhanços, assim como os golos, são coisas do futebol. E agora só há uma coisa realmente importante para dizer: Viva Portugal!
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16/06/2004
Esperança de estar errado
Depois da derrota com a Grécia, escrevi um post impiedoso sobre a selecção. Porque fiquei magoado, porque vi erros, porque partilhei da dor de um País que esperava um pouco de alegria. E que a merecia.
Mas agora, a poucas horas do jogo com a Rússia, quase que me esqueci do que aconteceu naquele jogo. E só passaram 3 dias desde então.
Agora já não me lembro da Grécia, nem dos erros infantis da equipa portuguesa. Só espero que os jogadores nacionais me façam engolir tudo o que escrevi há três dias. Que o Paulo Ferreira mostre que é um jogador de grande classe e que o Pauleta marque dois golos.
Espero ter errado. Tenho esperanças de que venha a ter que pedir desculpas pelas minhas palavras.
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Eleições
Evitei fazer comentários aos resultados eleitorais do passado domingo. Há muitos especialistas a fazê-lo. No entanto, agora que já passaram alguns dias, posso congratular-me com o resultado. O PSD foi castigado sim. Não vale a pena falar dos dias de praia, do 10 de Junho ou do Euro. A abstenção pode ter sido grande, o que é pena e vergonhoso, mas os que votaram não deixam de saber o que estão a fazer. A coligação tem feito um mau trabalho à frente do País e os portugueses estão fartos.
Não foi apenas um resultado de europeias. De certeza que o actual governo será penalizado nas próximas legislativas.
E atenção ao Bloco de Esquerda. Não me admiro nada que, nas próximas eleições, atinja os seis ou sete por cento dos votos.
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12/06/2004
Vergonha
Não concordo quando ouço dizer que os jogadores portugueses tiveram uma excelente atitude no primeiro encontro do Europeu. O pressing final é perfeitamente natural. Mal seria se uma equipa, a perder, ainda por cima em casa e num Europeu, não tentasse dar a volta ao resultado que lhe é adverso. Para mim, a atitude não se vê nesses momentos. Vê-se na concentração, na coragem, na forma como os jogadores encaram o encontro desde o primeiro minuto.
A equipa portuguesa jogou muito mal e a Grécia foi uma mais que justa vencedora, porque defendeu muito bem, correu mais, demonstrou mais força e mais concentração. No entanto, há que perceber que o descalabro colectivo, por vezes, nasce de erros individuais. E, neste caso, Paulo Ferreira foi o grande responsável pelo primeiro golo da Grécia e, consequentemente, por tudo o que se passou a seguir, pela desconcentração e nervosismo nacionais. Por muito que possa parecer cruel falar de erros individuais, a verdade é esta e não se pode admitir que um jogador campeão da europa, com a experiência do lateral direito português cometa um erro daqueles.
De resto, Pauleta só tem jogado bem em jogos particulares, onde marca golos a rodos. Figo só sabe fazer jogadas individuais. Maniche não demonstrou qualidade para alinhar de início contra equipas com um meio campo tão fechado, pois fechar o meio-campo não é a sua especialidade, mas sim a transição para o ataque. Petit teria sido a escolha óbvia para suster o meio campo e o contra-ataque da Grécia.
Enfim. Desta vez os portugueses não merecem isto. Apoiaram a equipa, encheram as casas e as ruas de bandeiras nacionais. Receberam os estrangeiros como deve ser. Construiram novos estádios em tempo recorde. No entanto, além de Cristiano Ronaldo, apenas Deco, que até é brasileiro, pareceram lutar com vontade pela selecção.
Agora, como sempre, lá estamos na corda bamba. Contra a Rússia é possível que Portugal consiga vencer. Contra a Espanha... contra a Espanha será preciso quase um milagre, porque é, claramente, a melhor equipa do grupo. É claro que ainda tudo é possível, mas as hipóteses são mínimas.
Somos sempre assim. Como diria Fernando Pessoa, que conhecia o espírito português como ninguém, “Quem te sagrou criou-te português / Do mar e nós em ti nos deu sinal. / Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. / Senhor, falta cumprir-se Portugal!”.
É sempre assim. Falta sempre cumprir-se Portugal.
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10/06/2004
Patriotismo
Há muita gente que fala mal do futebol, dos futebolistas, de quem gosta de ver os jogos, de quem lê jornais desportivos, etc. No entanto, sei que, agora, em cada rua por onde ando, vejo bandeiras portuguesas espalhadas por todo o lado.
Tal não acontece por mais nenhuma outra razão, senão pelo Europeu de Futebol e pelo apoio à selecção.
Também preferia que houvesse outra razão que o explicasse, que fizesse os portugueses orgulhosos de si próprios. Mas o que me importa mesmo é saber que os portugueses recomeçam a valorizar a sua nação, a sua bandeira. Que volta a existir um sentido de nacionalidade, de patriotismo.
Isso é muito mais importante do que qualquer crítica que se faça.
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08/06/2004
Votar
Um professor dedicado à filosofia, chamado Francisco Trindade envia-me, há já alguns meses, emails a anunciar novos textos no seu site pessoal, afirmando-se seguidor de Proudhon, um pensador francês do século XIX.
Obviamente que, quando o tema me interessa, costumo ler os seus textos. Mas, o último que me enviou deixou-me bastante preocupado. Nesse texto, Francisco Trindade defende a abstenção nas próximas eleições para o Parlamento Europeu, por considerar que votar "mesmo que em branco, implica acreditar no sistema vigente. Implica participar no sistema. Participando no sistema estamos a apoiá-lo. Ao votar estamos a apoiar os governos, a guerra, a miséria, a desigualdade social (...) Ao não votar nas eleições para o Parlamento Europeu Burguês, fazendo-o de forma consciente, estamos a desacreditar o sistema. Se ainda acredita na liberdade de cada um e no respeito de todos, não vote!"
Sinceramente, choca-me o que li. Não votar não é desacreditar o sistema, é fugir às responsabilidades, é dizer que não se interessa, é perder o direito moral de reclamar, uma vez que se recusa também o direito e o dever de escolher e cumprir parte do dever cívico. Quem não concorda com o "sistema democrático" vigente, tem bom remédio: lutar para que ele mude. E isso pode ser feito nesta época. Através da colaboração em projectos sociais, educacionais e cívicos, através de associações, cooperativas, sindicatos, grupos, através da escrita, da arte, do jornalismo. Através da solidariedade, da fraternidade, da cooperação. Não é necessário adoptar posturas marginais. As sociedades mudam-se por dentro, não por fora.
Se pouca gente participa de facto na vida da sociedade não é porque não existam meios para o fazer. É porque as pessoas são preguiçosas e egoístas, porque preferem falar mal do estado das coisas no café e, depois, ir para casa ver os "Malucos do Riso", ou, então, citar teorias, filósofos e ideais, sem colocar nada realmente em prática.
A sociedade não se muda com teorias. Muda-se com actos. Votar é apenas um deles, se calhar o menos importante deles. Mas é o único que, ainda assim, faz sentido À maior parte das pessoas que vivem adormecidas. Se também esse acto ficar desacreditado, então caminhamos definitivamente para o abismo.
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01/06/2004
Sistema
Dias da Cunha, presidente da SAD do Sporting, em mais uma brilhante entrevista, afirma que o sistema está disposto a derrubá-lo.
Não sabia que a comunidade médica tinha arranjado agora outra denominação para a esquizofrenia.
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28/05/2004
Não sou deste mundo
No programa da RTP sobre o Euro 2004, o apresentador dispara esta frase fantástica: "E agora vamos falar da dúvida que todos têm. Como vai ser a vida sexual dos jogadores da selecção portugal durante o euro?"
Não sei se disse a verdade e este é um assunto que interessa a toda a gente, mas, a mim, juro que não. Se calhar não sou deste mundo, ou então não sou tão liberal e amante dos prazeres do sexo como pensava que era.
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26/05/2004
Campeões
O Futebol Clube do Porto venceu a Liga dos Campeões.
Sou benfiquista e sei que isto foi apenas futebol, algo que não é realmente importante para a humanidade, sei que os jogadores ganham rios de dinheiro, enquanto milhões de pessoas passam fome.
Então, por que razão é que, desde que o Porto se sagrou campeão europeu, eu não consigo tirar este sorriso da cara, nem impedir que esta lágrima teimosa de alegria me caia pelo rosto?
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25/05/2004
Portugal no seu melhor
Num laivo de ingenuidade, fazendo zapping, vi que estava a ser transmitida na SIC a entrega dos Globos de Ouro, a pirosa e imitação barata portuguesa dos Óscares. Estupefacto com o mau gosto dos vestidos das apresentadoras e com as piadas sem piada que diziam, deixei-me ver quem ganharia o prémio para melhor série de ficção e comédia.
Quando a apresentadora anunciou o nome do vencedor, "Os malucos do riso", voltei à realidade. Mudei de canal imediatamente.
É o País que temos. É o País que merecemos.
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24/05/2004
Somos todos campeões de xadrez
Estava com um amigo a jogar uma partida amigável de xadrez num bar da minha cidade e apercebi-me do seguinte:
- 75 por cento das pessoas que passam, quando vislumbram um jogo de xadrez a decorrer, não conseguem evitar um comentário, sendo que, dessas pessoas:
90 por cento afirma não jogar uma partida há muito tempo ("Epá, xadrez! Já não jogo isso há tanto tempo!").
85 por cento afirma que faltam apenas duas jogadas para ser feito o cheque mate (mesmo que o jogador que move a peça a seguir esteja reduzido ao rei)
80 por cento pergunta qual dos jogadores é o Kasparov (uma percentagem mais reduzida pergunta também pelo Karpov)
Confesso que não fazia ideia de que o xadrez era dantes (há muito tempo) um desporto tão popular. Mas, afinal, que raio terá feito com que agora tão pouca gente jogue, se, há muito tempo, 90 por cento das pessoas eram campeã da modalidade?
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23/05/2004
Tróia e os eternos críticos
Já se sabe que há sempre que dizer mal das coisas. No entanto, confesso que não compreendo muito bem como é que existem certas críticas tão negativas ao filme. O argumento usado para a maior parte delas prende-se com as diferenças entre o filme e "A Ilíada", de Homero.
Parece-me que é urgente que algumas pessoas percebam que um autor tem todo o direito de criar uma versão de uma história já contada antes. As diferenças seriam graves, sim, se o filme fosse assumido como a transposição da obra de Homero para o cinema. Não, não se trata disso, até porque muitos episódios que aparecem no filme correspondem a outros livros, que não a "Ilíada", como, por exemplo, a famosa cena do Cavalo que pertence a outra obra de Homero, "A Odisseia". Este é um filme, independente, chamado "Tróia", que se baseia em episódios narrados na literatura grega, retirando os que não interessam aos seus autores, para criar um novo enredo.
E o que eu acho mais engraçado nas críticas feitas por maior parte dos "fanáticos" da Ilíada é que se esquecem de que a própria mitologia grega tem várias versões para as mesmas histórias. Por exemplo, existe uma versão que diz que Aquiles foi criado no meio das mulheres da corte de Licomedes, uma vez que a sua mãe Tétis tinha medo que se cumprisse a profecia de que teria uma vida de glória, mas curta. Nessa versão, foi Ulisses que, com a sua inteligência, conseguiu descobri-lo no meio das mulheres e o convenceu a ir para Tróia.
Era só o que faltava, um autor não poder pegar numa obra já existente e criar novas estórias e enredos (Saramago não poderia, por exemplo, ter escrito "O ano da morte de Ricardo Reis", nem Kundera poderia ter escrito "Jaques e o seu Amo", nem Marion Zimmer Bradley poderia ter escrito "As Brumas de Avalon" ou "Presságio de Fogo").
A minha opinião sobre o filme é a que já dei no outro dia: é um bom filme, com boas interpretações, bons efeitos visuais, alguma emoção e ritmo. Isto, claro, se percebermos que as omissões e as diferenças em relação à versão que é mais conhecida, são intencionais e destinam-se a criar uma nova história, um novo filme.
Como já escrevi num post anterior, eu também gostaria de ter visto Cassandra, Hécuba, Eneias com maior destaque, e muitas cenas que são memoráveis, também gostava que Aquiles tivesse morrido antes do Cavalo de Tróia e com uma só flecha no seu calcanhar (até porque é a morte de Aquiles que faz com que os troianos acreditem na desmoralização e fuga dos gregos), etc, etc. Mas, para isso, lerei os clássicos.
Quando entrei no cinema, sabia de uma coisa. Não ia ver "A Ilíada", de Homero. Ia ver "Tróia", de Peterson.
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22/05/2004
Esperteza saloia
Um exemplo prático da incompetência do actual governo português: A Bombardier vai fechar as suas portas, deixando no desemprego cerca de 400 trabalhadores em Portugal. Ao mesmo tempo, o Metro do Porto encomenda-lhe comboios, num negócio milionário.
Não haveria forma de, através das encomendas, negociar a manutenção da fábrica em Portugal? Ou então, não se deveria demonstrar à empresa o erro de sair do País e realizar a encomenda a outra empresa?
Não sei, como é óbvio, não estive nas negociações. Mas soa tanto a azelhice...
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21/05/2004
Tróia
"Tróia" é um bom filme. Bem realizado, com uma fotografia excelente, com algumas boas interpretações, com efeitos visuais memoráveis.
No entanto, só poderá ser considerado um bom filme, se nos esquecermos da Íliada, a obra em que se baseou. Percebo que uma adaptação pode conter alterações à história inicial, e, neste caso, até se percebe que fosse difícil contar todo o enredo em apenas um filme, pelo que as alterações seriam obrigatórias. No entanto, não creio que tenham sido felizes.
São várias as diferenças que, para mim, não fazem sentido:
- A mais grave é a ausência da personagem Cassandra, uma das mais fascinantes da história da literatura. A irmã gémea de Páris, a maior profetiza de todos os tempos, mas amaldiçoada por Apolo com o facto de nunca ninguém acreditar nas suas profecias. Teria sido fascinante ver o seu desespero a avisar os troianos para não deixarem o cavalo entrar nas muralhas. As ausências de Hécuba, rainha de Tróia, e Laocoonte, sacerdote.
- Onde estão as amazonas? Teria sido visualmente fascinante ver as amazonas a cavalgar e a lutar do lado de Tróia, bem como o combate entre Aquiles e Pentasileia, a mais pdoerosa das amazonas.
- As mortes de Menelau e Aggamemnon, principalmente deste último, que é visto no filme apenas como um vilão, quando se tratava de um rei justo e honrado.
- A fugaz aparição de Eneias, herói do épico "Eneida", que era príncipe de Tróia e que no filme aparece como um qualquer fugitivo, a quem Páris entrega a Espada de Tróia.
- Páris não fugiu com Helena e os outros troianos. Páris morreu em Tróia, através das flechas de Filocletes, e Helena regressou a Menelau. É uma alteração demasiado grande, que muda completamente o sentido da epopeia.
- A relação entre Aquiles e Pátrocolo. Eles não eram primos, eram amigos e amantes. Mas é claro que seria difícil para um filme destes colocar Brad Pitt no papel de um bisexual. As fãs não iriam gostar.
- Briseide era uma escrava anónima, não era membro da família real troiana. E Aquiles morreu através das flechas de Páris, sim, mas antes do Cavalo de Tróia entrar na cidade, durante uma batalha. E não foi com cinco ou seis flechas. Foi com apenas uma, envenada, no calcanhar, que era o seu único ponto fraco, após ter sido banhado, em criança, pela sua mãe nas águas de um rio, seguro pelo calcanhar que, assim, não entrou em contacto com a água.
- A ausência dos deuses que, afinal de contas, motivaram toda a guerra. Páris foi abandonado pelo pai e criado por pastores devido aos presságios de que traria a destruição da cidade. Pastoreava os rebanhos naquele monte, quando lhe apareceram três deusas, que disputavam o prêmio da beleza. Deram-lhe a maçã da discórdia para que a entregasse à mais bela e, por recompensa de ter escolhido Afrodite, foi-lhe prometido o amor da mais bela das mulheres. Mais tarde, reconciliado com o pai, Páris foi enviado à Grécia para negociar a paz. Foi então que se apaixonou por Helena e foi correspondido, como havia prometido a deusa. Essa foi a razão da guerra, uma contenda dos deuses. A ausência deste pormenor também altera completamente todo o sentido do filme.
Havia muitas mais diferenças a salientar, mas, como escrevi inicialmente, é preciso olhar para Tróia como uma versão da vida de Aquiles e Heitor, não como a passagem da Íliada a cinema. Como nova versão, é um bom filme. Como adaptação do livro, é péssimo.
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Luís Costa Pires
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19/05/2004
A Flor da Esperança
Uma breve nota de imprensa para dar conhecimento de mais um evento cultural e para explicar uma das razões pelas quais não tenho tido tempo para escrever tanto quanto gostaria neste blogue... mas isto passa... ou não...
"A Hugin Editores e a Livraria Judícibus convidam para a apresentação do livro A FLOR DA ESPERANÇA, de Delmar Domingos de Carvalho, que aborda 32 temas da actualidade, desde a educação, artes, ciências, às religiões, segurança, sexualidade.
A obra será apresentada pelo escritor Luís Costa Pires.
O evento realiza-se no próximo dia 29 de Maio (Sábado), pelas 16h00, na histórica Quinta das Cerejeiras, no Bombarral.
Judícibus, Livraria e Papelaria, Lda.
Rua do Comércio, n.º 45
2540-076 Bombarral
Tel./fax: 262605181
judicibus@netvisao.pt"
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16/05/2004
Ninja
Já depois do jogo ter acabado, Derlei continuava a tentar bater em alguém.
Alguém faz o favor de lhe explicar que aquilo de ele ser chamado de "Ninja" é uma alcunha?
E, já agora, viva o Benfica!
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Luís Costa Pires
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Mais outra
Nuno Valente, com um golpe digno de Chuck Norris, agrediu o jogador do Benfica Geovanni.
Levou cartão amarelo.
Depois, mais uma agressão. De Maniche, com os pitons, nas costas de Fernando Aguiar. Em bom rigor, deveria ser mais um vermelho. Mas, neste caso, percebo que o árbitro não tenha visto a falta. É que dar um pontapé em Fernando Aguiar é o mesmo que dar um pontapé numa parede de pedra.
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Afinal enganei-me
Perdi a aposta que fiz comigo próprio. Afinal Derlei também pode levar cartões amarelos. Não é nada mau. Um amarelo aos 70 minutos, após duas agressões e umas quantas faltas.
Afinal, Mourinho tinha razão. Lucílio Batista não é homem para apitar uma final.
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Luís Costa Pires
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15/05/2004
Bruno Baião
Não sei bem o que se pode dizer, mais um jovem atleta de grande futuro e qualidade que desaparece. E, mais uma vez, um atleta do Benfica, que, este ano, viveu diversas tragédias, o que só valoriza os resultados que, ainda assim, foram conseguidos.
Segundo o que dizem os colegas, Bruno Baião caiu inanimado depois de ter recebido a excelente notícia de que iria assinar contrato profissional com o Benfica. Terão sido a alegria e a comoção os responsáveis pelo sucedido.
Como comecei o post, não há muito a dizer sobre o assunto. Apenas que é triste, muito triste.
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Luís Costa Pires
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Já está
Pronto. O nervosismo e o sono mal dormido deram bom resultado. Estreou a peça "Acorda-me", no Teatro de São Francisco em Lisboa, baseado na minha obra "A Desconstrução da Alma".
Na estreia, mais de 150 pessoas aplaudiram de pé os intervenientes. Eu também o fiz. Gostei muito das interpretações, gostei muito da encenação. O Cláudio Hochman, o Jorge, o Sérgio e a Rita estão de parabéns.
Fica-me mal falar mais da peça, porque sou suspeito. Mas é bom quando vemos as nossas palavras dignificadas num palco por pessoas de grande talento.
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Luís Costa Pires
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07/05/2004
Do que as mulheres são capazes...
É nestas alturas que se vê as coisas de que uma mulher é capaz de fazer... A minha amiga Sónia escreveu uma coisa tão bonita acerca deste meu blogue e do meu trabalho, que me colocou numa posição complicada. Agora, como é que eu vou conseguir implicar com ela como fazia dantes? Não há direito!
Agora a sério, obrigado. Foi muito importante ler o que tu escreveste. Deu-me mais vontade de continuar.
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06/05/2004
"Acorda-me" no Teatro de São Francisco, em Lisboa
Numa altura em que dei por concluído o meu novo romance (brevemente falarei um pouco mais sobre ele), aproveito agora para fazer um pouco de "auto-publicidade" aos meus trabalhos.
O Teatro de São Francisco, em Lisboa, vai ser, no próximo dia 14 de Maio, o palco da estreia da peça “Acorda-me”, baseado no meu livro “A Desconstrução da Alma”.
A encenação está a cargo de Claudio Hochman, encenador de "O Navio dos Rebeldes" e "Proof" e vai ser posta em cena pela Companhia da Esquina. Será a segunda peça levada a cena por esta jovem companhia de teatro, que foi criada em Novembro de 2003, por decisão de um grupo de actores profissionais, com o objectivo de pesquisar e difundir a cultura ao nível do teatro, da dança e da música, sempre que possível tomando como base a produção de originais. A primeira peça que representaram foi “Rosmaninho & Alecrim”, uma peça musical infantil, com encenação de Guilherme Filipe e texto original de Jorge Gomes Ribeiro. O Teatro de S. Francisco, no Largo da Luz, em Carnide, tem uma sala climatizada com 230 lugares e rampas e lugares acessíveis a deficientes e a Companhia da Esquina conta com o apoio do Centro Cultural Franciscano e da Junta de Freguesia de Carnide.
A peça "Acorda-me" tem a sua dramaturgia baseada no meu primeiro livro de teatro, chamado “A Desconstrução da Alma”, publicado por uma associação social e cultural, o "Atelier Arte e Expressão". Esse foi o meu quarto livro, depois depois de ter já publicado os meus três romances pela Editorial Notícias, “A Rainha de Copas” (prémio Prosas de Estreia 1998), “Depois da Noite” e “Mandrágora”.
Na peça, num mesmo ambiente cénico, coabitam sentimentos opostos, numa história convergente num único sujeito, um paciente encerrado numa cama de hospital. As personagens são misteriosas: Carolina é uma mulher apaixonada. Miguel, um viajante sem passado. Rui é o próprio passado. Num mesmo espaço, o diálogo flutua por códigos éticos e morais, que diferem, por vezes, em intensidade e significado, criando desequilíbrios, ansiedades e angústias em relações proteladas pelo ciclo do eterno recomeçar e pelo desejo de que nada adormeça.
A peça será estreada no dia 14 de Maio, sendo levada a cena todas as quintas, sextas e sábados, pelas 21:30 horas, até ao final de Junho, interpretada por Jorge Gomes Ribeiro, Rita Cruz e Sérgio Moura Afonso. Os bilhetes estão à venda nas FNACs, Ticketline e PLATEIA.IOL e no local, uma hora antes do espectáculo.
Não tenho jeito para fazer esta "auto-publicidade", mas, de qualquer forma, se vos interessar, seria simpático ver-vos lá.
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O meu sonho II
Outra loja chamada "O meu sonho". À semelhança da loja de que já falei uma vez neste blogue, também esta tem um letreiro no vidro. Mas este, bem diferente do outro, diz: "O meu sonho. Contacto 91 xxxxxx".
Que generosos são os proprietários desta loja. Se eu tivesse o contacto telefónico do meu sonho, não o partilhava com mais ninguém e passaria a vida a telefonar para ele.
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14:58
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02/05/2004
Azar merecido
O Sporting atacou mais, mas o Benfica demonstrou garra a defender. Apesar dos seus jogadores terem mais jogos nas pernas do que os do Sporting, terminou o encontro com mais força física. Só isso, demonstra um trabalho sério e justifica a vitória, apesar de achar que o empate teria sido mais justo.
O Sporting teve algum azar. Mas Dias da Cunha, que, até neste jogo, impecável em termos de arbitragem, consegue arranjar algo para criticar, merece ter azares assim.
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Luís Costa Pires
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22:15
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Grita, sente
Ouço o tema "Grita, sente", de Diana Basto, que colaborou com Abrunhosa num dos seus discos e pergunto-me: o que é feito dela? Nunca mais lançou nenhum álbum depois da sua estreia? Porquê, se tem uma voz fantástica e interpreta as músicas com uma garra fenomenal? Será por não andar de mini-saia, ser loura planitada ou ter letras escritas pelos que inventam os brilhantes temas de Emanuel e Ágata?
Dá-se choruda recompensa a quem souber responder a esta pergunta e acrescentar algo sobre a sua carreira.
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Luís Costa Pires
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01/05/2004
Prevenção rodoviária
Ao ver o novo anúncio da OK Teleseguro percebi por que razão é que os condutores portugueses são tão maus. Proponho que o Governo legisle, a bem da prevenção rodoviária, que as escolas de condução deste País comecem a acrescentar ao "programa curricular" um pequeno módulo que ajude os futuros condutores a saberem o que é um volante, um pneu e as outras partes que compõe um automóvel, para, mais tarde, os mesmos condutores não terem surpresas durante a condução.
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Luís Costa Pires
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