21/05/2004

Tróia

"Tróia" é um bom filme. Bem realizado, com uma fotografia excelente, com algumas boas interpretações, com efeitos visuais memoráveis.
No entanto, só poderá ser considerado um bom filme, se nos esquecermos da Íliada, a obra em que se baseou. Percebo que uma adaptação pode conter alterações à história inicial, e, neste caso, até se percebe que fosse difícil contar todo o enredo em apenas um filme, pelo que as alterações seriam obrigatórias. No entanto, não creio que tenham sido felizes.
São várias as diferenças que, para mim, não fazem sentido:

- A mais grave é a ausência da personagem Cassandra, uma das mais fascinantes da história da literatura. A irmã gémea de Páris, a maior profetiza de todos os tempos, mas amaldiçoada por Apolo com o facto de nunca ninguém acreditar nas suas profecias. Teria sido fascinante ver o seu desespero a avisar os troianos para não deixarem o cavalo entrar nas muralhas. As ausências de Hécuba, rainha de Tróia, e Laocoonte, sacerdote.
- Onde estão as amazonas? Teria sido visualmente fascinante ver as amazonas a cavalgar e a lutar do lado de Tróia, bem como o combate entre Aquiles e Pentasileia, a mais pdoerosa das amazonas.
- As mortes de Menelau e Aggamemnon, principalmente deste último, que é visto no filme apenas como um vilão, quando se tratava de um rei justo e honrado.
- A fugaz aparição de Eneias, herói do épico "Eneida", que era príncipe de Tróia e que no filme aparece como um qualquer fugitivo, a quem Páris entrega a Espada de Tróia.
- Páris não fugiu com Helena e os outros troianos. Páris morreu em Tróia, através das flechas de Filocletes, e Helena regressou a Menelau. É uma alteração demasiado grande, que muda completamente o sentido da epopeia.
- A relação entre Aquiles e Pátrocolo. Eles não eram primos, eram amigos e amantes. Mas é claro que seria difícil para um filme destes colocar Brad Pitt no papel de um bisexual. As fãs não iriam gostar.
- Briseide era uma escrava anónima, não era membro da família real troiana. E Aquiles morreu através das flechas de Páris, sim, mas antes do Cavalo de Tróia entrar na cidade, durante uma batalha. E não foi com cinco ou seis flechas. Foi com apenas uma, envenada, no calcanhar, que era o seu único ponto fraco, após ter sido banhado, em criança, pela sua mãe nas águas de um rio, seguro pelo calcanhar que, assim, não entrou em contacto com a água.
- A ausência dos deuses que, afinal de contas, motivaram toda a guerra. Páris foi abandonado pelo pai e criado por pastores devido aos presságios de que traria a destruição da cidade. Pastoreava os rebanhos naquele monte, quando lhe apareceram três deusas, que disputavam o prêmio da beleza. Deram-lhe a maçã da discórdia para que a entregasse à mais bela e, por recompensa de ter escolhido Afrodite, foi-lhe prometido o amor da mais bela das mulheres. Mais tarde, reconciliado com o pai, Páris foi enviado à Grécia para negociar a paz. Foi então que se apaixonou por Helena e foi correspondido, como havia prometido a deusa. Essa foi a razão da guerra, uma contenda dos deuses. A ausência deste pormenor também altera completamente todo o sentido do filme.

Havia muitas mais diferenças a salientar, mas, como escrevi inicialmente, é preciso olhar para Tróia como uma versão da vida de Aquiles e Heitor, não como a passagem da Íliada a cinema. Como nova versão, é um bom filme. Como adaptação do livro, é péssimo.