Duarte Pio e Cavaco Silva mostraram ambos claramente, na sequência do falecimento do único Prémio Nobel da Literatura português, a razão pela qual Portugal é hoje um País triste, pobre de corpo e mente, sem moral e sem educação.
O Presidente da República faltou ao último adeus a Saramago. Aparentemente temos um presidente que não é grande sequer o suficiente para esquecer questões pessoais e homenagear um dos maiores baluartes da cultura portuguesa de todos os tempos. Excelente exemplo, “senhor” Presidente. Terá toda a moral do mundo para qualquer discurso que fizer de agora em diante.
Quanto ao pseudo-rei de Portugal, este teve, segundo o tvi24.pt, o desplante de, nesta hora, acusar Saramago de ser inimigo de Portugal. Ora, que eu saiba, fez mais por Portugal um só romance ou crónica de Saramago, traduzidos por todo o mundo, do que fez este senhor em toda a sua vida, sendo rei ou não. Aliás, o único bom contributo que Duarte Pior tem dado a este nosso pobre País é o de mostrar que, por muito maus que sejam os nossos governantes, estaríamos ainda pior se houvesse uma monarquia em Portugal.
E, mesmo não tendo sido um filme brilhante, até Hollywood se rendeu ao talento de Saramago, com “Blindness”, realizado por um dos maiores directores da actualidade. Como piada, consigo imaginar apenas o que na vida de Duarte Pio poderia inspirar um filme.
Talvez uma nova aventura de Mister Bean.
20/06/2010
Duarte Pio, Cavaco, Saramago e o Mister Bean
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Um obrigado a Saramago
Esperei dois dias para tentar encontrar algo realmente diferente que expressasse o que a leitura de Saramago significou para mim até agora. Mas volto sempre à primeira ideia que tive. Simplesmente colocar a última frase do "Memorial do Convento", uma dos mais extraordinários romances de sempre e, no caso, o desfecho perfeito do mais comovente e poderoso último capítulo que li até hoje.
Despeço-me assim de Saramago, com quem em tempos, partilhei uma alegria. Estávamos, se a memória não me atraiçoa, em 1998. Saramago ganhava o Nobel da Literatura. Eu tinha acabado de ganhar o prémio "Prosas de Estreia", com o meu primeiro romance, “A Rainha de Copas”. Dimensões completamente diferentes, claro.
Mas, numa sessão de autógrafos, estando eu na fila para que me autografasse o Memorial e o Ensaio, a conversa desenrolou-se, não me lembro bem como. Mas sei que terminou com o Nobel a dar-me os parabéns e a desejar-me sorte para o resto da minha carreira. Lembro-me de quão pequeno me senti no momento. Exactamente como me sinto agora, ao escrever estas linhas.
Mas, ainda assim, não me ocorre melhor final do que este, para dizer muito obrigado a Saramago, o escritor:
"Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltazar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda."
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23/05/2010
Um abraço para o Beto
O Beto partiu desta vida e deixou o País realmente mais pobre. Era humilde, simpático e tinha um talento incrível. Uma voz lindíssima. Ainda há duas semanas tinha estado a falar com ele, relembrando um seu concerto que tive a honra e oportunidade de produzir em Peniche na sequência de um dos seus CDs, no Festival Sabores do Mar, lá para 2004.
Parece impossível que a vida seja assim tão frágil. Mas é. É por isso que a temos que aproveitar como se cada dia fosse o último.
Um grande abraço para o Beto e as condolências para a sua família.
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10/05/2010
A Luz. Ao fundo dos túneis.
O Benfica é o justo campeão. É a melhor equipa de Portugal. É-o neste momento e foi no passado. Sim, porque se quisermos falar do passado, não vejo porque se há-de falar apenas nos dez anos anteriores. Passado é passado, todo ele, todo junto, é a história no seu todo, não apenas o período que dá jeito a alguns. E o presente é o agora. Onde é o campeão. Sim, também o tempo é benfiquista.
Mas, como campeões, pensa-se agora no futuro. Os vencedores nunca descansam nos louros. Querem sempre mais.
O Braga surpreendeu-me esta época. Mostrou que já tem alguma estrutura e estofo de campeão. Pelo menos no que diz respeito aos adeptos, que já são iguais às claques do FC Porto, que tem sido uma equipa de sucesso nos últimos anos. Alguns deles já são maus perdedores e ordinários que vandalizam ruas e não aguentam a felicidade dos outros. Parabéns.
Falcão é bom jogador. Lutador, inteligente, boa técnica, excelente no jogo aéreo. Mas, sendo falcão, não podia ser águia. E Cardoso é. Águia, monarca dos céus.
Mas enfim, deixando de falar de futebóis, alguém me explica a razão de hoje o país estar mais sanguíneo, mais "vermelhamente" apaixonado? E de as pessoas andarem na rua um pouco menos "blue"?
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01/05/2010
Um punhado de cobardes
Em 1999, o húngaro István Szabó escreveu e realizou um filme notável chamado Sunshine. Neste filme, cujo papel principal é interpretado pelo brilhante Ralph Fiennes (A Lista de Schindler, O Paciente Inglês), ficamos a conhecer a história de uma família húngara, de apelido Sunshine, que, ao longo dos tempos do holocausto nazi, sobrevive através da venda de um elixir milagroso de cuja fórmula é a orgulhosa proprietária.
No entanto, pelo meio de toda a trama, cheia de desencontros familiares, amorosos e de conflitos religiosos e de honra, existe uma cena que me parece particularmente interessante. Em pleno campo de concentração nazi, um grupo de quatro ou cinco soldados alemães humilha uma multidão de judeus prisioneiros. No meio de toda a perplexidade e nojo gerados pela cena, sobressai um pensamento: não poderiam aquelas centenas de prisioneiros ter subjugado o punhado de soldados, mesmo que armados? Os soldados alemães apenas poderiam eliminar uns quantos prisioneiros antes de serem detidos. Então por qual razão é que os prisioneiros não se rebelaram?
É o medo de dar o primeiro passo que impede o real progresso da sociedade, o medo de atacar os poucos soldados que possuem uma arma, apesar de estarem em clara inferioridade. É preciso que alguém dê o primeiro passo, que dê o exemplo, caso contrário os déspotas e ditadores ficarão sempre no comando, não por real valor, mas por omissão dos opositores.
Mas este não é um mal exclusivo dos tempos de guerra ou dos regimes fascistas. Também em regimes democráticos, onde o povo tem o direito de votar e escolher os seus representantes e governantes, e temos alguns exemplos bem aqui perto, acontecem situações de ditadura, onde ninguém consegue dar o primeiro passo para mudar o rumo das coisas. Quando alguém detém o poder durante muito tempo, cria vícios, laços de comunicação e dependências que são difíceis de quebrar e que servirão para manter essa mesma soberania por muito tempo, nem sempre de forma justa. A verdade é que quem detém o poder pode usá-lo para o perpetuar, através do medo e da arrogância, das esmolas pontuais e cirúrgicas que fazem esquecer os maus momentos.
Encontram-se então pessoas que são heróis enquanto falam baixinho nos cafés, mas que mandam calar os outros quando se aproxima um estranho, que criticam opções e comportamentos dentro de quatro paredes, mas que dizem ámen fora delas. Que vendem o seu comportamento em troca de um subsidiozinho, como faz um animal quando tem fome e se roça nas pernas do dono para que este o alimente. Que nas casernas maldizem os inimigos, mas se perfilam em frente ao pelotão de fuzilamento como se não existisse escolha. Que não se lembram que podem lutar de facto, rebelando-se em busca de alternativas contra os soldados que detêm as armas mas que são muito poucos e frágeis e, se calhar, ainda mais medrosos e cobardes do que os próprios prisioneiros.
Somos assim, na maior parte dos casos. Não apenas em situações limite, mas em quase todos os momentos e escolhas do dia-a-dia. É preferível deixar os pequenos poucos decidirem por nós e aceitarmos tudo com um encolher de ombros e a famosa frase “é a vida”. É preferível contentarmo-nos com as migalhas do que há, do que buscar pelo que realmente queremos, só porque é difícil. É fácil escudarmo-nos em críticas à sociedade, aos outros, ao azar. É fácil não reparar que somos nós que desistimos, somos nós que não lutamos o suficiente, somos nós que nos rendemos.
Mas, ainda hoje, depois de experimentar tantos falhanços, porque também os há, depois de tantos objectivos falhados ou incompletos, ainda assim, ainda hoje continuo a acreditar que, com uma atitude determinada, cheia de humildade corajosa, de perseguição tenaz dos objectivos independentemente das dificuldades, mas sempre com o sentido de comunidade, é possível conseguir-se alcançar os sonhos pessoais. E, consequentemente, é possível trazer mais coragem e solidariedade para a população em geral.
Enquanto tal não acontecer, enquanto não houver esse sentido de lutar pelo que acreditamos até morrer, independentemente das consequências, estaremos sempre predestinados a ser humilhados por um punhado de cobardes que têm nas suas mãos uma meia dúzia de armas.
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08/04/2010
Porque duvidaste, Jesus de pouca fé? (crónica de um benfiquista desiludido)
Jorge Jesus tem feito um grande trabalho à frente do Benfica. Isso não está minimamente em causa e, neste momento, se mandasse algo no clube, não o trocaria por nenhum outro treinador.
Posto isto, acredito no entanto que, hoje, Jorge Jesus foi pequeno demais para o Benfica. Aliás, provou, de uma vez por todas, que, graças ao seu conhecimento táctico, à sua capacidade de melhorar aspectos técnicos nos jogadores, etc, podia ser um dos melhores do mundo, mas que, para isso, precisa ainda de largar a mentalidade de medo e pequenez que tantas vezes acompanha o povo português, do qual ele é um tão típico representante.
Mas, infelizmente, ao contrário de Mourinho, que aceita ser um vencedor, afirma-o perante tudo e todos, e é por isso o melhor, Jorge Jesus não tem esse espírito de vitória. Está habituado a clubes pequenos, que lutam para não descer ou para ir à Liga Europa, está habituado a que qualquer bom resultado seja já uma vitória grande para o clube. Mas no Benfica isso não chega. E há momentos em que perceber de algo, seja no futebol ou em qualquer outra matéria, não é tudo. É preciso mais do que isso, é preciso ter alma e coragem. Sim, porque o futebol, às vezes, não é apenas futebol. Às vezes é também uma metáfora da vida. E hoje ficou provado isso. Raramente aquele que se previne, aquele que faz as suas escolhas contando com o falhanço ou com a derrota, aquele que joga pelo seguro, raramente esse triunfa. Esse, quanto muito, na melhor das hipóteses, não perde. Mas quem ganha realmente algo, e isto é uma lei da vida, não do futebol, é quem tem coragem e aceita criar o seu caminho.
Jorge Jesus quis perder o jogo de hoje. Andou a semana toda a apregoar o casaço que os seus jogadores sentiam por ter sido adiado o jogo com a Naval. Mas foi decisão sua. Andou a época toda a dizer que só queria o campeonato, retirando a grandeza europeia a um Benfica que tem história suficiente para a exigir e que, inclusive, já tinha mostrado estar à altura. Mais uma vez avisou dos perigos do cansaço de um onze que não tem sido rodado, também, digo eu, por medo, já que em alguns jogos durante o campeonato, em casa contra equipas francamente mais fracas, alguns jogadores podiam ter sido poupados, dando hipóteses a outros jogadores de ganhar ritmo competitivo e não sobrecarregando os titulares habituais.
Depois, a sua parte táctica, normalmente impecável, foi incompreensível hoje. Jorge Jesus apostou no inenarrável guarda-redes Júlio César em toda a competição europeia. Teve sorte nos primeiros jogos pois a equipa respondeu bem à sua insegurança, mas a verdade haveria de vir ao de cima mais cedo ou mais tarde. E hoje veio quatro vezes ao de cima. Sim, quatro, porque o golo sofrido por Moreira já é uma consequência de tudo o resto feito anteriormente. O brasileiro poderá um dia vir a ser um bom guarda-redes, mas ainda não o é. E muito menos para uma prova como esta.
Depois, como se não bastasse tudo isto, Jorge Jesus fez experiências na defesa num jogo desta importância. Como é possível que tenha tirado Maxi Pereira do onze inicial, logo ele, o mais batalhador de todos os jogadores do Benfica, ainda por cima quando ele está suspenso contra o Sporting e não era necessário poupá-lo? E Coentrão também não merecia uma hipótese de mostrar a sua raça? E não seria interessante ter esses dois laterais em campo, tão ofensivos, para meter em sentido as alas do Liverpool e evitar os cruzamentos para Torres?
E qual a razão para Jorge Jesus desfazer a melhor dupla de centrais dos últimos anos do Benfica, colocando David Luiz na esquerda e lançando um jogador que tem potencial mas que não joga e não tem ritmo, no centro da defesa, mesmo ali na área de intervenção de um dos melhores avançados do mundo, Fernando Torres?
O Liverpool não é melhor do que o Benfica. Exceptuando Torres, Gerrard e o Kuyt, nenhum jogador do Liverpool conseguiria ter de caras lugar como titular neste Benfica. E, como o Liverpool não é melhor do que o Benfica, não foi o Liverpool que ganhou o jogo. Foi o Benfica que o perdeu.
Claro que alguns benfiquistas vão falar do árbitro. E sim, o árbitro erra, parece-me, no lance do primeiro golo. Mas, além de ser um lance discutível, já na primeira mão o Benfica beneficiou de dois penalties e teve algumas felicidade na expulsão do jogador do Liverpool, pelo que não se pode usar a arbitragem como razão para a eliminação.
A derrota esteve na atitude. É caso para dizer que o espírito de ser coitadinho, o complexo de não ser capaz, o mais valer contentar-me com pouco do que arriscar tudo, esse mesmo espírito mesquinho que acompanha o nosso País, abateu-se sobre o Benfica, afinal de contas, seu representante além-fronteiras.
Obviamente que, mesmo que agora os jogadores se desmoralizem, o Benfica vai ganhar o campeonato. Tem uma vantagem confortável demais a cinco jornadas do final e o Braga, que é o único que racionalmente ainda pode chegar ao título, não tem estaleca para vencer os jogos todos, como por exemplo a deslocação ao Funchal para defrontar o Nacional. Mas, depois da forma como se deu esta derrota, mesmo vencendo Campeonato e Taça da Liga, fica um sabor amargo a pouco. Não porque o Benfica tenha obrigação de ganhar provas europeias. Mas porque o podia ter feito, se tivesse tido vontade para tal.
Seria interessante e irónico ver agora uma inversão da história bíblica e, perante o afogar do Benfica, ver-se, no banco, Rui Costa, vestido de São Pedro, ele tão habituado a ser vencedor, a ganhar troféus, a ter atitude de campeão, virar-se para Jesus e perguntar “Porque duvidaste, homem de pouca fé?”.
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01/04/2010
A Desconstrução da Alma
Tenho um jogo que quero jogar contigo. E se eu desconstruísse a tua personalidade? Se me limitasse a repetir mentiras ao teu ouvido de tal forma que elas se tornassem a tua verdade? Tens consciência de que há verdades diferentes para cada um de nós, não tens, que cada ser tem o seu próprio universo e individualismo, que o azul que eu vejo é diferente do que tu vês e que o sabor de canela é distinto para cada um de nós?
Mas imagina: e se eu te repetisse mentiras de forma constante, de forma séria e abnegada, até que acreditasses serem essas palavras a mais pura das verdades? Ficarias impávido e sereno à espera que tudo voltasse ao normal e que a mentira se desvanecesse no éter, ou adoptarias um novo estilo de vida e tentarias adaptar-te à nova realidade, mesmo sendo discordante dela?
E se eu te enchesse de ideias preconcebidas sobre Deus e o Diabo, sobre o paraíso e sobre a salvação, sobre o inferno e o purgatório, sobre as regras da sociedade, se eu te obrigasse a viver debaixo do seu jugo e declarasse que eram as únicas regras possíveis, mesmo que castradoras, mesmo que fossem contra a tua natureza? Se eu te dissesse para não saltares, para não cantares? Que a tua voz não é bem vinda para o que te rodeia, que não poderás nunca ser o que sonhas, que tens que seguir protocolos e ritos, adaptar-te a tudo, esquecer-te da natureza, do instinto que te liga ao universo?
Se eu te ordenasse que sejas o que detestas, que sejas o que não és, que saboreies o que não gostas? Se eu te agredir e obrigar a esquecer as coisas que desejas e te contentes com ilusões e o que todos os outros têm, com a rotina e o tempo? Se eu te obrigar a esquecer as pessoas que amas e os sonhos que te invadem de noite, se eu te condenar a que sejas no dia uma sombra do que podias ser, frágil e trémulo, ansioso pelo sono, pela liberdade do sonho? E, depois, com uma gargalhada, se até o sonho te roubar? Se te proibir de dormir, te obrigar a ficar acordado a olhar o vazio, sem poderes pensar em nada?
Terias medo? Pavor, talvez? Vontade de gritar? E se eu te tirasse a voz? Se quisesses gritar e não conseguisses, se abrisses a boca, mas não saísse qualquer som, se te quisesses mover, mas fosses uma estátua de pedra?
E se eu te colocasse uma arma na mão e gritasse? Se eu bradasse para que te escondesses na conformidade e defendesses o que vês daquilo que não vês, mas que ainda assim é real, que enche o ar apesar de apenas o sentires mas não ser visível? Talvez te dissesse que o ódio é o alimento do futuro, o único capaz de crescer, de ficar cada vez maior, intenso, apaixonante, até que tudo o resto seja consumido e apenas tu existas, com a arma na mão, a gritar para o infinito, nesse vórtice de ódio e loucura.
Se eu te apontasse um holofote para os olhos e jurasse que o amor não existe? E se jurasse tantas vezes que o amor não existe que isso mesmo se tornasse uma verdade para ti, se a luz te encadeasse de tal forma que pensasses ser um axioma inviolável? Ainda escreverias cartas como escreves? Ainda chorarias ao ver filmes românticos ou a pensar naquela pessoa que perdeste? Ainda lutarias como um louco pela felicidade e rezarias a pedir ajuda a Deus mesmo sem O conhecer ou sem acreditar na Sua existência?
E se, depois de te desconstruir a alma, depois de te desprogramar, como se faz aos computadores, eu te largasse no meio do mundo? Como reagirias? Ficarias assustado? Lutarias com unhas e dentes para regressar à antiga realidade? Ou irias para casa e ficarias fechado no teu quarto, encolhido sobre ti mesmo, sem querer ver o que te rodeia, sem querer sentir outra vez aqueles cheiros antigos e perfumados, que te trazem recordações que anseias serem outra vez realidade, o cheiro da liberdade de acção e de escolha, a capacidade de criar a tua vida a cada momento, sem medo, sem constrangimentos, sem regras, aqueles cheiros que te trazem outra vez à memória as paisagens, as paisagens flutuantes que te pairam na memória e te uivam na alma? Serias um autómato consciente das limitações do ser, consciente de que és apenas parte do que podias ser, de que és castrado, infeliz, miserável, apesar de todas as aparências e de todas as recompensas falsas?
E se esperneasses, se te revoltasses? Se, apesar do medo e do abismo, corresses para fora do casulo que construí em teu redor? E se descobrisses então que o amor existe e está em todo o lado, que o amor é criação pura, liberdade e coragem e é afinal a única redenção? E se uma simples carícia fosse capaz de reprogramar-te outra vez e de devolver a tua personalidade? E se uma só palavra fosse capaz de te fazer abandonar o mal? E se um beijo te fizesse esquecer de que tens medo do escuro e te permitisse sentir as coisas com verdade?
E se os anjos de asas brilhantes e os demónios de cornos e cauda não passassem de mentiras e apenas existissem pessoas, pessoas, com coisas boas e más, defeitos e virtudes, mas com luz, com individualidade, com liberdade, com verdade, com capacidade de criar e de amar, de sonhar e de caminhar?
E se tu fosses apenas uma delas, apesar o negares?
(excerto da peça de teatro homónima que publiquei no ano de 2003)
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29/03/2010
Descobrir a poesia da vida
Provavelmente, lido assim de repente, o nome Beatriz Russo (leia-se Beatrice, com o devido e magnifico sotaque italiano) não lembrará nada aos leitores deste texto. No entanto, alguns lembrar-se-ão de quem se trata, se referir que foi a musa inspiradora de Mário Ruopollo, o carteiro-poeta que levava cartas ao exilado Pablo Neruda no belíssimo filme de 1994, realizado por Michael Radford, “O Carteiro de Pablo Neruda”.
Nesta obra, que prova mais uma vez a sensibilidade e o mundo de afectos do cinema italiano (vide também “A Vida é Bela”, “Cinema Paraíso”, “Malena” ou “La Strada”), encontramos, além de momentos de grande beleza, um grande tratado sobre a vida. É por trás das coisas, neste caso das imagens e das palavras, como ensina Neruda ao jovem aprendiz de poeta Mário, que se encontra a magia e a poesia.
E é por isso que, celebrando o recente Dia da Poesia, escrevi esta crónica para um jornal da região onde vivo, o Área Oeste. Porque o próprio filme é uma celebração da poesia, de Pablo Neruda, mas, mais do que isso, do próprio acto da criação poética.
“O Carteiro de Pablo Neruda” coloca-nos perante duas poesias diferentes, a que existe nas palavras, inventadas para que o ser humano possa recriar, compreender e comunicar o que o rodeia, e o próprio mundo em todas as suas vertentes, com toda a sua beleza e crueldade naturais. Em todas as coisas existe poesia. Este é um pensamento aparentemente lírico e comum, mas que é partilhado até pela raiz da própria palavra, que no original grego poiesis significa “acção de fazer alguma coisa”, o que pode ser extrapolado para “acção de criar alguma coisa” ou “acção criadora”. Então, se a acção criadora é poesia, todo o universo, enquanto criação, é o grande, o maior poema que existe. É isso que Pablo Neruda ensina ao jovem Mário e que o leva a conseguir apaixonar-se de uma forma intensa e metaforicamente afectuosa pela inesquecível Beatriz Russo (a incrivelmente bela Maria Gracia Cuccinotta na foto ilustrativa deste post).
Penso, por isso, nessa poesia eterna e constante que se respira em tudo o que existe, não apenas nas paisagens inspiradoras ou no sentimento amoroso, mas também nas coisas tristes e melancólicas, até na morte, desencadeadora de emoções, memórias e medos afectos.
Essa poesia, ou antes, essa “acção de fazer alguma coisa”, tem andado arredada do espírito do Homem, que se deixa ofuscar pelos sentimentos negativos e pela incapacidade de reagir perante um mundo perfeito e cheio de caminhos para escolher. Sem perceber essa dança divina, esse sopro constante que nos percorre em todos os momentos. No filme, foi depois de falar com Neruda e de partilhar o olhar e o sorriso de Beatriz Russo, que Mário resolveu alterar radicalmente a sua vida, sem rumo e sentido, e tornar-se poeta, descobrir e cantar as coisas belas da vida e até conquistar o seu amor, aparentemente impossível.
É a capacidade de perceber que existem diferentes realidades e universos dentro de uma mesma vida e saber que se pode alcançar cada um deles, desafiando o que existe. Não criar, não inovar, seguir sempre os mesmos caminhos e ficar escondido dentro do ninho quente, é desrespeitar a capacidade criadora que nos foi dada.
É preciso então descobrir a poesia da vida. Ou deixá-la descobrir-nos. Ou, como escreveu Pablo Neruda, “E foi naquela época... / A poesia chegou e procurou-me. / Eu não sei, não sei de onde veio, / se de um inverno ou de um rio. / Eu não sei como nem quando. / Não, não eram vozes, / não eram palavras, nem silêncio; / mas de uma rua eu fui chamado abruptamente / dos ramos da noite, dos outros, / no meio de um tiroteio violento, / e num retorno solitário lá estava eu / sem um rosto... e ela tocou-me”.
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