14/11/2003

Parábola da mulher de Loth

Cada vez que releio a obra de Agostinho da Silva, mais me espanto que seja tão esquecido nos dias que correm. Creio mesmo que o seu pensamento humanista e a tocar a verdadeira liberdade era demasiado avançado para a época em que viveu. Tanto, que ainda hoje o é. E compreendo que, para uma sociedade massificada e onde interessa que haja uma grande dose de alienação, onde interessa incutir modas e "trends", onde interessa entreter a massa crítica para que outras coisas vão acontecendo, compreendo que seja desaconselhável que se passem mensagens como a de Agostinho da Silva, onde se defende que cada um tem o direito de pensar e agir livremente.
E, por isso, não resisto a deixar aqui um excerto de um pequeno texto chamado "Parábola da Mulher de Loth". É o momento em que a mulher de Loth se recusa a fugir de Sodoma, depois de Deus ter avisado que iria destrui-la e alertado Loth para fugir, juntamente e apenas com a sua família, sem nunca olhar para trás, caso contrário morreria:

"Porque o Paraíso, Loth... Olha, eu sei que todo o mundo um dia se há-de transformar em liberdade e ser mais sereno, mais transparante e mais puro do que este céu de crepúsculo que nos envolve; cada um de nós, quando nasce, recebe uma parte da injustiça do mundo, e a alma dos que morrem depois de se terem despojado do que lhes coube de tirania, de egoísmo e de brutalidade, vai contribuir para formar esse céu, como cada gota contribui para a extensão e a profundidade dos mares; essa é a vida eterna, essa é a delícia dos que se elegeram; para os outros tudo será como se não tivessem vivido e uma vez mais passarão sobre a terra, numa experiência da sua vontade e da sua coragem. Eis o que será o teu destino. Porque o meu será o outro. Duvidada às vezes de ter feito tudo o que devia fazer pela liberdade; sei que muito me deixei arrastar pelo que nos prende ao tempo, que o meu Amor não foi sempre bem amplo, aberto a todos, que a minha alma não foi sempre bem forte, inflexível ao vento do desânimo; ainda bem que hoje posso adquirir a certeza de que não foi inútil a minha passagem pelo mundo; não estarei ao lado deles, não me queimará o mesmo fogo: mas o teu Senhor, como todos os tiranos, teme quem o olha de frente, não gosta de que contemplem a sua obra... É o bem que começa a triunfar; esse avança às claras, não se esconde, não se refugia no segredo e na ignorância. Vou unir-me a todos os que já se bateram por ele; tantos, tão grandes e tão belos! Como poderia hesitar? Chegou o momento, Loth. Não, nem mais uma palavra. Continua. Eu volto."

2 comentários:

mjblog disse...

Uma visão lúcida dos ideais de liberdade, amor e felicidade ... desse paraíso perdido, com que muitos sonham afinal...
Um texto magnífico, Luis. A inspiração genial do professor Agostinho da Silva. Adorei relê-lo.
Obrigada:))

Jacopo Valentino disse...

Obrigado por compartilhar este texto. Muito bonito. Muito necessário. Não conhecia o Agostinho da Silva. Me lembrou o conto Terra dos Cegos do HG Wells.