04/02/2008

Balanço do Encontro de Escritores - A polémica

O post já vem atrasado, mas mais vale tarde do que nunca. Como tinha anunciado há algumas semanas atrás, fui convidado para participar no II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, organizado pelo Instituto Politécnico de Leiria, que teve lugar na semana passada, e onde Manuel Alegre recebeu uma justa homenagem.

Foram dois dias muito interessantes, com vários paineis com bons elementos e discussões de ideias, onde participaram autores que muito admiro, entre os quais Nuno Júdice, José Jorge Letria, Vasco Graça Moura, Ruy Duarte de Carvalho, Ana Maria Magalhães, Olinda Beja, Carlos Pinto Coelho, António Torrado, entre outros. A mim, coube a tarefa de participar no debate "Na vanguarda da escrita: a Ciberliteratura", onde tive a companhia do moderador Pedro Barbosa e dos escritores Paulo Kellerman e Marta Gautier.

O tema não era fácil por vários motivos, até porque, apesar dos mundos da informática e da literatura se cruzarem em muitos pontos (como os blogues), a ideia principal era mesmo discutir essa nova área que é a ciberliteratura, uma área ainda muito pouco conhecida da esmagadora maioria das pessoas. Já conhecia alguns trabalhos realizados nesse âmbito, até porque sempre tive alguma curiosidade pela área da criação artística feita por computadores, mas não era de todo uma área fácil para mim, até porque, ao meu lado, estava o Pedro Barbosa, simplesmente a maior sumidade da matéria em Portugal. Por isso, quando o debate começou e se centrou principalmente na área da ciberliteratura, quase que preferia ouvi-lo falar do que intervir também.

Mas, obviamente que, quando chegou a minha vez de falar, não fiquei calado. Como já disse, a ciberliteratura é uma área interessante. Afinal de contas, só se pode admirar o excelente trabalho que é, através de logarítmos e variáveis, colocar um computador a processar palavras de forma quase lógica, como se o computador percebesse o significado das palavras para criar poemas. No entanto, não posso obviamente concordar com algumas das coisas que defendem os "ciberautores", ou outro nome que lhes queiram chamar.

Uma coisa é o extremo interesse que há em desenvolver esta área, que poderá trazer utilizações interessantes em processos pedagógicos ou mesmo na criação de um cérebro artificial... não sei, não é de facto a minha especialidade. Mas outra coisa completamente diferente é assumir-se esta forma de "criar textos" como literatura.

Não posso de forma alguma concordar com afirmações ditas pelo Pedro Barbosa, insistindo por exemplo que estes programas permitem a um autor escrever um texto "sem ter o trabalho de o escrever". Ora, eu, que gosto muito de escrever, acredito que o maior prazer que se tem nesta "arte" é precisamente o colocar no papel (ou no monitor) as palavras, ligar as ideias, criar os enredos, ligar as pontas soltas. Afinal de contas, o trabalho de um autor não é apenas o de criar um conceito e com ele lançar palavras para uma máquina misturadora que, depois, irá sorteá-las como se fosse o Euromilhões!

Obviamente que a minha intervenção causou imensa polémica, até porque havia alguns apoiantes afoitos da ciberliteratura nas bancadas, mas não está no meu feitio ser simplesmente politicamente correcto. Chamei a atenção para que, nos dias que correm, cada vez há mais preguiça nas pessoas. Cada vez achamos mais que devemos ter tudo à mão, ter tudo facilitado, que devemos ter apenas que carregar num simples botão para ter tudo acessível. E é essa preguiça, essa falta de busca e de luta pelas coisas que está a transformar a sociedade numa coisa amorfa, sem ideais, sem objectivos, completamente influenciável pelas modas e pelos media.

Entretanto, a Marta Gautier, após uma intervenção sem sal, saiu a meio do debate, o que causou alguma surpresa junto de todos. Já o meu colega Paulo Kellerman, autor residente em Leiria, foi pelo mesmo caminho que eu, embora de uma forma mais diplomata.

A discussão estava lançada no painel (foi considerado o debate mais polémico de todo o Encontro, o que acaba por me agradar) e até o Rui Zink, que estava na bancada, resolveu participar, lançando algumas achas para a fogueira. No final, lá tive que explicar que não, não se tratava de ser conservador, se bem que não ficarei nunca ofendido se me chamarem de conservador por defender os valores fundamentais da humanidade. Afinal, há coisas que não mudam. Ou não devem mudar. Mas não se tratava disso, até porque sou um homem da informática (como o mostra este blogue) e adoro conhecer todas as possibilidades das novas tecnologias. Há é limites. E perder a humanidade (criar, pensar, sentir) em troca de comodidade, não é uma barreira que eu esteja disposto a ultrapassar.

Não me importa se um livro é apresentado num livro, num papiro, num grafiti numa parede, numa cassete. Isso não me interessa nada, tudo isso pode ser literatura, pois o que conta são as palavras e o que elas dizem. Agora o que não posso suportar é que a literatura seja escrita por máquinas em vez de homens.

Para saberem mais sobre o encontro, proponho que visitem o site do Região de Leiria, de onde tirei a foto que ilustra este post.


1 comentário:

MFaísca disse...

Olá Luis

Concordo plenamente contigo, quando escrevo, estou na praia, estou no café, estou no jardim... simplesmente sinto e quero passar isso para o papel... preciso de apontar as minhas ideias. É-me impensável que uma máquina escreva o que sinto, o que quero exprimir.
Vou mais longe ainda, para mim um livro NÃO pode ser substituído por um computador.
Compreendo que em alguns empregos dê menos nas vistas lêr um "ciberlivro" do que um Livro fisico, mas não é o computador que eu quero nas minhas estantes, na minha mesa-de-cabeceira, no meu saco da praia, ou mesmo na minha mala quando vou beber um chá.