01/11/2007

O escritor e o vizinho


Sou um homem com hábitos estranhos, muito diferentes do normal. Como sou freelancer na área da publicidade e comunicação e trabalho em casa, onde também passo bastante tempo à volta dos meus livros, tenho horários completamente trocados com os das outras pessoas.

Por isso, às vezes tenho a noção de que os meus vizinhos olham para mim um pouco de lado, até porque só estou no prédio onde moro agora há menos de um ano. Pergunto-me o que pensarão deste indivíduo que trabalha ou fica acordado a ver filmes até às tantas da madrugada, que sai à noite quando quer, seja durante a semana ou ao fim de semana, que muitos dias parece não fazer nada, que está sentado no café à hora que quer, que parece nunca andar a correr de um lado para o outro, que sai às vezes de casa às cinco da tarde acabado de tomar banho?

Hoje, curiosamente, um deles abordou-me no café do lado. Fala um português misturado com castelhano pois, apesar de estar em Portugal há muitos anos, nasceu na Andaluzia. "Desculpe incomodar-me, mas nós somos vizinhos. Disseram-me que é escritor. É verdade?"

Surpreendido, respondo que sim e sentamo-nos na mesma mesa a conversar. Delicio-me com as histórias que me conta, nitidamente amante da literatura. Falamos de Lorca, Ballester, Camilo José Cela e surpreendo-me por não conhecer o meu escritor espanhol preferido, António Muñoz Molina. "Já não estou em Espanha há muito tempo e os nossos países estão de costas voltadas em termos de cultura", lamenta.

Quando falamos de Fernando Pessoa, porque é incontornável, lembra-se que amigos seus lhe disseram que há uma grande febre sobre Pessoa na Espanha actual. Que é um dos escritores da moda. Ou seja, concluo eu, Portugal está de costas para Espanha e não vice-versa. E ganhávamos bastante se lessemos um pouco mais os autores que já referi neste post.

Era bom que Lorca, grande poeta e romancista, ficasse na moda em Portugal. Ou Ballester. Mas não. Cá só ficam na moda os grandes fenómenos do marketing, que são de mastigar e deitar fora, como os "Sei lá" ou os "Código DaVinci". Ou "O Perfume", o tal livro que é frequentemente citado como o preferido de toda a gente, embora quase ninguém o tenha realmente lido.

Mas lamentos à parte, fiquei contente com a conversa. Parece que, apesar de me acharem a pessoa mais estranha do mundo, os meus vizinhos comentam qualquer coisa de positivo a meu respeito. A não ser, claro, que, para eles, ser escritor seja ofensivo. O que, neste País, talvez não seja assim tão descabido.

2 comentários:

Homem do Leme disse...

Olá Luís, cá estou eu outra vez a fazer uma coisa que ultimamente me dá muito prazer - ler o teu blog.

Essa tua vida a que chamas de esquisita, eu chamaria de livre...

E quanto não aprenderiamos se nos voltassemos de frente e olhassemos para Espanha...

Quanto ao "Perfume", como já sabes está entre os meus preferidos, mas eu li mesmo o livro todo - e ando com vontade de o reler.
E também tenho os teus na minha lista de aquisições. Vamos ver se o Pai Natal a lê.

kiduchinha disse...

Ora... mais um comentário e este é mesmo irresistível... ;)
Não és o único nessa vida, que achas diferente, e livre, como diz a Homem do Leme. Eu tb faço parte desse clube neste momento. Sou trabalhadora independente, essa bela categoria, e trabalho mtas vezes em casa, saindo às vezes para umas reuniões ou algumas idas a escolas pois sou psicóloga de formação. E não faço ideia o que é que os vizinhos pensam de me verem por aqui em horas diferentes. Devem pensar q estou desempregada.. :) tb não quero saber, estou quase a mudar-me... :)
Beijocas e viva a liberdade! :)