29/03/2010

Descobrir a poesia da vida

Provavelmente, lido assim de repente, o nome Beatriz Russo (leia-se Beatrice, com o devido e magnifico sotaque italiano) não lembrará nada aos leitores deste texto. No entanto, alguns lembrar-se-ão de quem se trata, se referir que foi a musa inspiradora de Mário Ruopollo, o carteiro-poeta que levava cartas ao exilado Pablo Neruda no belíssimo filme de 1994, realizado por Michael Radford, “O Carteiro de Pablo Neruda”.

Nesta obra, que prova mais uma vez a sensibilidade e o mundo de afectos do cinema italiano (vide também “A Vida é Bela”, “Cinema Paraíso”, “Malena” ou “La Strada”), encontramos, além de momentos de grande beleza, um grande tratado sobre a vida. É por trás das coisas, neste caso das imagens e das palavras, como ensina Neruda ao jovem aprendiz de poeta Mário, que se encontra a magia e a poesia.

E é por isso que, celebrando o recente Dia da Poesia, escrevi esta crónica para um jornal da região onde vivo, o Área Oeste. Porque o próprio filme é uma celebração da poesia, de Pablo Neruda, mas, mais do que isso, do próprio acto da criação poética.
“O Carteiro de Pablo Neruda” coloca-nos perante duas poesias diferentes, a que existe nas palavras, inventadas para que o ser humano possa recriar, compreender e comunicar o que o rodeia, e o próprio mundo em todas as suas vertentes, com toda a sua beleza e crueldade naturais. Em todas as coisas existe poesia. Este é um pensamento aparentemente lírico e comum, mas que é partilhado até pela raiz da própria palavra, que no original grego poiesis significa “acção de fazer alguma coisa”, o que pode ser extrapolado para “acção de criar alguma coisa” ou “acção criadora”. Então, se a acção criadora é poesia, todo o universo, enquanto criação, é o grande, o maior poema que existe. É isso que Pablo Neruda ensina ao jovem Mário e que o leva a conseguir apaixonar-se de uma forma intensa e metaforicamente afectuosa pela inesquecível Beatriz Russo (a incrivelmente bela Maria Gracia Cuccinotta na foto ilustrativa deste post).

Penso, por isso, nessa poesia eterna e constante que se respira em tudo o que existe, não apenas nas paisagens inspiradoras ou no sentimento amoroso, mas também nas coisas tristes e melancólicas, até na morte, desencadeadora de emoções, memórias e medos afectos.

Essa poesia, ou antes, essa “acção de fazer alguma coisa”, tem andado arredada do espírito do Homem, que se deixa ofuscar pelos sentimentos negativos e pela incapacidade de reagir perante um mundo perfeito e cheio de caminhos para escolher. Sem perceber essa dança divina, esse sopro constante que nos percorre em todos os momentos. No filme, foi depois de falar com Neruda e de partilhar o olhar e o sorriso de Beatriz Russo, que Mário resolveu alterar radicalmente a sua vida, sem rumo e sentido, e tornar-se poeta, descobrir e cantar as coisas belas da vida e até conquistar o seu amor, aparentemente impossível.

É a capacidade de perceber que existem diferentes realidades e universos dentro de uma mesma vida e saber que se pode alcançar cada um deles, desafiando o que existe. Não criar, não inovar, seguir sempre os mesmos caminhos e ficar escondido dentro do ninho quente, é desrespeitar a capacidade criadora que nos foi dada.

É preciso então descobrir a poesia da vida. Ou deixá-la descobrir-nos. Ou, como escreveu Pablo Neruda, “E foi naquela época... / A poesia chegou e procurou-me. / Eu não sei, não sei de onde veio, / se de um inverno ou de um rio. / Eu não sei como nem quando. / Não, não eram vozes, / não eram palavras, nem silêncio; / mas de uma rua eu fui chamado abruptamente / dos ramos da noite, dos outros, / no meio de um tiroteio violento, / e num retorno solitário lá estava eu / sem um rosto... e ela tocou-me”.

1 comentário:

Desidéria disse...

Gostei do texto. É, de facto, urgente descobrir a poesia que existe em cada um de nós, encontrar o combustível da vida e também o nosso próprio combustível.

Conseguir apreciar a natureza no seu auge,sentir as coisas pequenas da vida. Sentir, por exemplo, o vento a agitar os cabelos nervosos no ar, o vento a acariciar-nos o rosto e o olhar ou o tempo a passar enquanto permanecemos deitados na relva verde a sentir a vida a invadir-nos...lentamente.

Quando encontramos a nossa própria poesia, a vida simplesmente flui, juntamente com os nossos instintos e desejos...

Beijinho*