12/03/2010

A partilha da angústia (texto longo)

Aconteceu-me isto: de noite, já avançada, caminhava lado a lado com um amigo. Dirigia-me para um bar, onde planeava conviver e passar uma noite animada. Andava um pouco desanimado porque havia já algum tempo que não conseguia alcançar aquele estado de inspiração que me leva a escrever a um ritmo alucinante. Por isso, precisava urgentemente de me divertir e distrair.

À entrada do referido bar, fomos abordados por um homem. Era de média estatura e lembro-me que usava um casaco azul. O seu casaco, a barba por fazer e a garrafa na mão são as únicas lembranças físicas que retenho dele. Estava nitidamente embriagado. Cambaleava e falava com a voz entaramelada. O hálito era insuportável, numa mistura de vinho e cerveja. O meu amigo, pouco paciente para estas situações, continuou a avançar em direcção ao bar, sem pausar para ver o que ele desejava. Eu, pelo contrário, ouvi o que me queria dizer. Não me recordo do que me contou de início. Mas sei que, de repente, perguntou-me se fazia ideia da razão pela qual estava embriagado daquela maneira. Respondi-lhe que não.

“Estou a comemorar o décimo aniversário do meu filho”, disse.

Obviamente que o olhei com um ar de reprovação. “Não era melhor estar em casa com ele, em vez de estar aqui na rua, com pessoas que não conhece?”, perguntei eu, cheio de moralidade.

“Talvez", respondeu, "Mas é que, ao mesmo tempo que festejo o aniversário dele, estou também a fazer um luto”.

“O quê?”, perguntei, verdadeiramente curioso, enquanto o meu amigo, furioso, me fazia sinais para largar o homem.

“O parto do meu filho foi difícil. Foi uma cesariana de muitas horas, mas o médico não desistiu e conseguiu salvar o meu filho e a minha mulher. Porém, nesse mesmo dia, enquanto salvava a vida da minha criança, o filho dele morria num acidente de automóvel”, explicou.

Era essa a causa da sua embriaguez: a partilha do sofrimento do homem que tornara possível que tivesse um motivo de alegria. O homem continuou a falar, mas não me consigo lembrar do que disse. Eu já não estava em condições de continuar a conversar. Algo se tinha acendido dentro de mim. Despedi-me dele, entrei no bar e informei o meu amigo que ia para casa. A inspiração voltara; precisava de escrever.

Desde então nunca mais vi esse homem do qual, lamentavelmente, nem o nome conheço. Ou então, provavelmente, passa por mim todos os dias, mas usa agora um casaco diferente e anda com a barba mais cuidada e sem o passo cheio de vinho. Não sei onde o posso encontrar e há poucas coisas na vida que lamente mais que isso, do que não ter sido capaz de esperar mais um pouco quando se reacendeu aquela chama de inspiração dentro de mim, e de o ter ouvido mais um pouco.

Afinal de contas, gostava de lhe poder explicar que, mesmo sabendo que isso em nada minimizaria a sua dor, naquela noite em que ele festejava e lamentava em simultâneo o nascimento do seu filho, ele tinha ajudado a que renascesse um escritor.

Escrevi depois isto:

O homem de casaco azul e barba por fazer chega a casa já muito depois da madrugada nascer. Cambaleante, dirige-se para o quarto do filho. Abre a porta devagar e aproxima-se da cama. Como está embriagado, tropeça num brinquedo e faz barulho. O jovem acorda assustado.

“Não te assustes”, diz o pai, “Sou eu. Vinha dar-te as boas noites”.

O jovem olha-o no escuro e reconhece a silhueta. “Porque não estiveste comigo hoje?”, pergunta, sentido, no seu jeito de criança, sobrancelha franzida, mãos nervosamente a enrolarem-se uma na outra.

“Estive contigo sempre”, responde o pai, serenamente embriagado.

“Não te vi”.

“Há coisas que não se vêem: sentem-se”

O pai senta-se na borda da cama e afaga o cabelo do filho. Este faz uma careta, igual à que faz quando não gosta da sopa que lhe dão, e diz: “Tens a boca a cheirar mal!”.

“Pois tenho... sinto-a amarga.”, responde, sem conter um sorriso. Abraça depois o filho com força e começa a chorar.

O filho, sem saber porquê, limita-se a falar:

“Gostava que tivesses estado aqui. Mas estou contente por agora estares”.

“Estou e vou estar sempre contigo”.

Abraçam-se ainda com mais força porque são pai e filho e nem o vinho vai separar estes dois. A criança, a quem não consigo inventar um nome, desculpa-o pela ausência, percebendo que tem uma vida de ensinamentos e brincadeiras pela frente. Ao mesmo tempo, o amargo da boca do pai começa a desaparecer; afinal não era vinho, era desgosto, e aquele abraço ajudou-o a dilui-lo.


Não sei se foi isto que aconteceu depois de ter deixado o homem entregue ao seu misto de alegria e angústia. Mas, na ausência de encontrar outra vez o meu amigo dessa noite, gosto de pensar que foi assim que tudo se passou.

Às vezes, imaginar que o que escrevo se tornou realidade faz de mim um homem muito mais feliz.

2 comentários:

jotaluis disse...

O sonho, ou a imaginação, não é a grande arma dos poetas e escritores?Não é assim que ajudam a um mundo melhor?

Desidéria disse...

Gostava que o homem do casaco azul tiveste lido este texto.

Escrita sentida, vibrante, emocionante.

Aqueles que fazem diferença na nossa vida permanecem sempre dentro de nós, seja através de uma garrafa de vinho ou um carinho a um filho :)