22/10/2009

Uma poça de água

Com a chuva, aparecem no chão as primeiras poças de água do ano. Ontem, ao deparar-me com uma particularmente grande, pensei, aborrecido, que não tinha outra forma de passar a rua senão molhando os pés. Fi-lo contrariado, maldizendo a minha sorte.

E foi então que percebi como a idade nos transforma, nem sempre da melhor maneira.

Há vinte e poucos anos atrás, se me deparasse com uma poça daquele tamanho, não ficaria aborrecido nem incomodado. Em vez disso, olharia para ela, veria nas suas águas paradas o reflexo das casas, das árvores e do céu escuro, e ela deixaria de ser apenas uma poça para se transformar num violento oceano ou num lago tenebroso cheio de mistérios por desvendar. E eu já não seria apenas um menino a tentar passar para o outro lado da rua; seria antes um valente aventureiro que se prepara para enfrentar todo aquele mar. E, quando finalmente passasse para o outro lado, não estaria incomodado com as meias e os sapatos molhados.

Sentiria sim um orgulho enorme, uma sensação de dever cumprido. Provavelmente parecido com o que sentiu Gil Eanes ao dobrar o Bojador. Ou Cabral quando descobriu o Brasil.

Mas, agora, com tanto aborrecimento por algo tão simples e pensamentos tão adultos e responsáveis, já não sou nenhum intrépido navegador.

Agora sou apenas um velho do Restelo.

2 comentários:

Francisco Maia disse...

Como de intrépido navegador para velho do Restelo, muitas quantificações mudam, tal como quantidade para qualidade, o valor de um momento de puro sossego, enfim pequenas coisas que como intrépido navegador não nos passaria pela cabeça. Parabens no texto caro Luigi :P Keep up the good work!

Xantipa disse...

:)
Beijinhos!
Salta muitas pocinhas!