25/10/2009

Saramago, Caim e os pecados de Deus

Ainda não li o novo romance de Saramago e confesso que não planeio lê-lo. Mas por nenhuma razão em especial, nada tenho contra o tema e jamais iria intrometer-me na liberdade criativa de um autor. Não o lerei apenas porque o tema não me interessa no momento e já conheço o que queria sobre a história de Abel e Caim.

É precisamente por conhecer o referido episódio, bem como muitos outros contidos nos primeiros livros do Antigo Testamento da Bíblia, que eu não compreendo onde está toda a polémica com o romance. E, baseando-me não no romance, mas nas declarações públicas do autor, só realmente quem não tiver lido, por exemplo, o Génesis, é que poderá não perceber o que Saramago quer dizer quando defende que o Deus representado no Antigo Testamento não é de fiar, é cruel e malicioso. Concordo perfeitamente. Aliás, por diversas vezes já discuti isso com amigos e já foquei o assunto em algumas crónicas no passado, como por exemplo num pequeno texto sobre o sacríficio de Isaac, neste mesmo blogue.

Com ou sem polémica em redor, provavelmente criada propositadamente para efeitos de marketing, pois a verdade é que as vendas desse livro e da Bíblia dispararam (assim como irá acontecer com muitos outros que irão surgir nos próximos dias sobre o tema), “Caim” é apenas um romance. E sendo escrito por Saramago, é provavelmente um grande romance. Mas, se o interesse do leitor agora, depois desta polémica toda, for perceber melhor a história destes dois filhos de Adão e conhecer a figura do Deus retratado no Antigo Testamento, não leia Saramago. Vá antes ler a Bíblia. E aí, sem a polémica à volta da falta de fé e sem as declarações algo excessivas de Saramago, certamente que até chegará às mesmas conclusões que ele chegou.

O problema é que a religião é vista como uma vaca sagrada, onde não se pode tocar nem da qual se pode falar. E, se alguém tem uma opinião diferente da instituída, independentemente de ser verdadeira ou não, é um blasfemo. Interessará às instituições religiosas, certamente, que os fiéis não questionem nem investiguem por si próprios as fundações das mesmas. Pois aí, certamente, muita coisa ruiria. As Igrejas terão muita coisa para explicar quando os fiéis começarem a perceber como apenas algumas coisas no Livro Sagrado são seguidas, como muitas são ignoradas, como muitas são aberrantes, e como são interessantes algumas interpretações das suas palavras.

Na verdade, até ao início do Novo Testamento, onde aparece o redentor Jesus Cristo, que vem mudar todo o sentido da Bíblia, humanizando o Criador, trazendo a imagem de fraternidade, justiça, caridade, compaixão e misericórdia, que todos conhecemos, Deus é realmente mostrado como um ser caprichoso, cruel e ardiloso. Claro que os tempos eram outros e é necessário contextualizar a própria escrita dos vários livros bíblicos. Isso é evidente.

Mas ainda assim, o que dizer de um Deus que ordena a Abraão que sacrifice e mate o seu próprio filho (como está escrito no Génesis 22:1-18)? Que recompensa o mesmo Abraão por prostituir a sua mulher Sarah ao Faraó em troca de riquezas e terras (Gn 12:10-20)? Que considera justo e salva de Sodoma o cínico Loth, que, só para não ser chamado de mau hospitaleiro, oferece a virgindade das suas duas filhas para que um grupo de homens faça delas o que quiser (Gn 19:4-8)? O mesmo Loth que, em momentos de aberrante incesto, embriagado, permitirá que as filhas se deitem com ele e as engravidará (Gn 19:30-36)? Ou do seu familiar Jaco, que dará origem a uma inteira geração de servos de Deus, que só aceita alimentar o seu irmão, morto de fome, se este lhe conceder os direitos de filho mais velho (Gn 25:29-34)?

Ou o que dizer de um Deus que propositadamente provoca o desentendimento entre os homens, só para que não consigam construir a Torre de Babel, com medo do que o Homem pode realizar se se unir? E diz isto, textualmente: "Eis que os homens são um só povo e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de forma a que já não se compreendam um ao outro." (Gn 11:6-7)

Isto e muito mais está no Génesis, que é o primeiro livro do Antigo Testamento. Já para não falar das duríssimas leis de Moisés que aparecerão noutros livros, do desprezo pelas mulheres, das injustiças, das guerras, do incentivo à vingança com o famoso “olho por olho, dente por dente”. Ou da pavorosa história de Job, descrito pelo próprio Senhor como o mais “justo e bom homem à face da terra”, que vê a sua vida destruída pelo Criador, perdendo mulher, filhos, colheitas, animais e saúde, só para satisfação de uma aposta entre Deus e o Diabo.

Por tudo isto, repito que só uma muito baixa tolerância à diferença de opinião, a ignorância sobre o assunto e o fanatismo religioso podem levar a que se censure um romance como este de Saramago. É verdade que ele tem uma postura arrogante e algo intratável no que toca à religião, e que se excedeu em algumas afirmações e expressões. Mas a livre expressão é um direito alcançado por um País que, está visto, não o sabe honrar. Só um ignorante pode querer calar a voz de um escritor, seja ele quem for, por questões de cegueira religiosa ou política. E muito menos quando esse escritor é dos poucos motivos de orgulho que este País cada vez mais cego, fútil e decadente teve nas últimas décadas.

Quanto ao eurodeputado do PSD que sugeriu a Saramago que renunciasse a ser português, só espero que fique lá por Bruxelas por muito tempo. E, de preferência, não como eurodeputado porque me envergonha profundamente que represente Portugal de qualquer forma que seja.

É que todas estas reacções são o regressar ao mau antigamente. À tentativa de censura da liberdade contra a qual tantas pessoas lutaram durante anos. Deviamos antes ser mais evoluídos e tentar seguir o exemplo de Voltaire quando disse: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de dizê-lo”.

4 comentários:

Goncalo disse...

Gostei do texto....
Mas.. acho que já ouvi isto em primeira mão :P
eheheh
Um Abraço

Francisco Maia disse...

O Caim basicamente é uma maneira "desesperada" de chamar á atenção e ás headlines, que saramago já não tem desde o nobel, dai finge-se polémico, entre outras coisas :) Embora tenha gostado da expressão dele, em que a biblia é "o Manual de maus costumes" ;), e acabo com outra expressão, BEEN THERE DONE THAT. Grande abraço Luigi

100botox disse...

De facto, mais um livro que vem agitar mentalidades. Vindo de quem vem, não me surpreende toda a polémica. Penso que se contextualizarmos a Bíblia na época, na cultura e na tradição, é um livro que faz referência ao mal mas também ao bem...
E não continua tão presente, embora expressa de forma diferente essa força - Mal- Bem?!
Quanto a mim, o que conta é o alinhamento mental, vulgo consciência humana.

Beijinho grd.

alma de poeta disse...

Não concordo Maia. O Saramago só diz o que lhe apetece e por mim pode continuar a fazê-lo que faz muito bem. Não é a primeira vez que ele critica a religião.
Para mim já foi importante ele ter acendido outra discusão filosófico/religiosa neste tempo de crise de valores em que nos pomos em dúvida conosco próprios todos os dias. Gostei especialemnte quando ele disse: "Deus não é de se fiar."

Cristiana Silva.