23/01/2008

Lição a aprender

A Greve dos Argumentistas, que dura há mais de dois meses, continua. Todos os talk shows, séries e programas sofrem as suas consequências. Os Globos de Ouro viram o seu espectáculo glamoroso reduzido a uma conferência de imprensa. E, se nada mudar, pelo mesmo caminho vão os Óscares da Academia.

Os membros dos vários sindicatos portugueses têm muito a aprender com tudo isto. Talvez, se forem sérios, comecem a perceber a diferença entre greves e protestos inconsequentes e que acontecem por dá cá aquela palha, a manifestações poderosas e capazes de alterar o rumo das coisas. O Writer's Guild, porque não se preocupa em andar sempre a fazer oposição aos governos para promoção dos seus líderes, é uma organização poderosa e estruturada, capaz de contar com a solidariedade total dos seus membros e de ter força económica suficiente para ir aguentando uma situação difícil.

Aprendam. Não é assim tão difícil. Basta um pouco mais de seriedade, menos pontes, menos fins de semana prolongados de greve e menos preguiça para o trabalho.

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Só Deus gosta de sangue

Li com preocupação uma notícia no Diário de Notícias, onde se dava conta dos mais recentes ataques feitos pelos grupos de pressão ao "candidato a candidato" democrata Barrack Obama, nos Estados Unidos.


Um grupo acusava-o de ser muçulmano. Aqui, e apesar de ser censurável criticar alguém pela sua religião, consigo perceber o porquê da preocupação, já que o povo americano está ainda em estado de alerta depois do 11 de Setembro (ainda que eu, como maluquinho e conspiracionista que sou, até seja da opinião que foi tudo "inside job"). Agora, não consigo mesmo compreender o outro grupo de pressão, este judaico, que acusa Barrack Obama de ser um político que vai impor políticas cristãs.

Se essa imposição de políticas cristãs for verdade, então espero que haja depressa um político destes em cada País, pois muita coisa vai mudar e muita hipocrisia vai acabar.

É claro que a cúpula religiosa judaica, que é muito forte nos Estados Unidos, tem que defender os seus interesses de "domínio espiritual" (aspas reforçadas neste termo). Mas a forma como o faz é, no minimo, infeliz, pois, mais uma vez, apela à desunião religiosa, à falta de respeito pela liberdade dos outros, etc, etc.

E mais triste ainda é o facto de, em pleno 2008, num país que, em tantas coisas, tem a democracia mais avançada do mundo, as crenças religiosas de um homem poderem ser motivos para se votar ou não no seu projecto político e social. Crenças religiosas essas que deveriam servir para que, cada um, no seu íntimo, estabelecesse uma relação pessoal com a sua fé, não que se transformasse em imposição e discórdia. Mas, realmente, na maior parte dos casos, a religião, como é vista no mundo, é apenas um instrumento de guerra e desunião.

Já estou como escreveu José Saramago, no seu "Evangelho segundo Jesus Cristo", que cito de memória: "Só mesmo sendo Deus, se poderia gostar tanto de sangue derramado".

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20/01/2008

Um novo grupo de amigos

Não sei bem o que pensar da nova Lei do Tabaco. Por um lado, concordo, claro, com o princípio de que, quem não fuma, não tem obrigação de ingerir o fumo que há nos recintos públicos. Por outro, farto-me de rir com a incoerência da lei, com a forma como ela está mal estruturada, com as confusões que levanta nos vários estabelecimentos e com a forma como alguns tentam "contorná-la".

Mas, mais importante do que isso, o que mais me preocupa nesta nova lei é que, provavelmente, vou ter que arranjar um grupo de amigos novo. Eu explico: dantes, quando entrava num bar, 60 por cento das pessoas fumava e enchia o ambiente de fumo, mas havia 40 por cento de pessoas que não contribuiam para essa poluição ambiental e a coisa ficava controlada. Agora, pelo contrário, os meus amigos fumadores insistem em ir para locais onde se pode fumar. Ora, nestes locais há agora uma concentração de 90 por cento de fumadores mais 10 por cento de amigos não fumadores que são arrastados para lá.

Na prática, pelo que tenho experimentado, a lei do tabaco só tem feito com que eu, que não fumo, engula mais fumo do que dantes. A não ser que arranje um novo grupo de amigos, todos não fumadores, não sei como vou conseguir chegar aos 40 sem um cancro nos pulmões... por isso, não se admirem se, brevemente, abrir candidaturas para novos amigos. Com currículos e tudo, claro, porque ser não fumador não será nunca o único requisito.

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Um dia importante para o mundo

Terça-feira, dia 5 de Fevereiro, vai ser um dia importante para o mundo, mesmo que a maior parte das pessoas nem sequer ligue aos seus acontecimentos. No entanto acredito que a eleição para a presidência dos Estados Unidos, que já começou com as eleições para os candidatos dos dois maiores partidos, é um momento de viragem do mundo.



Já aqui deixei alguns posts a falar do que aconteceu na década de 60 nos Estados Unidos, altura de grande comoção e momentos decisivos, em que foram assassinados três homens que, ao contrário da esmagadora maioria dos políticos, lutavam de facto pela liberdade e pelos direitos humanos e civis, JF Kennedy, Marthin Luther King e Robert Kennedy. Mas, agora, quarenta anos depois, e após um desastroso período onde W Bush trouxe à tona tudo o que os Estados Unidos podem ter de mau, surge a esperança da mudança.

Sim, a mudança será certa. Os democratas irão, com toda a certeza, vencer, uma vez que o povo americano já não consegue suportar a arrogância e a burrice republicana. Mas, de entre os candidatos, há um que me enche de esperança. Falo, claro, de Barrack Obama, jovem senador, não comprometido, sem vícios políticos de maior, aparentemente lutando por causas. Hillary, pelo contrário, arrogante, fria e cheia de vícios de demasiados anos a lidar com o poder não me inspira.

Mas, de qualquer forma, e sem alongar o post, terça-feira, têm lugar as primárias em 24 estados norte-americanos. E, curiosamente, terá lugar poucos dias depois da data em que, se fosse vivo, Luther King faria 79 anos. Aquele que disse "Eu tenho um sonho...".

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17/01/2008

Voando sobre o fado

Já aqui falei algumas vezes da minha amiga Deolinda Bernardo, ou Deo, como a partir de agora vai ser conhecida dos amantes da música.

Depois de alguns projectos, entre os quais destaco a participação no disco "Fado virado a nascente", do Rão Kiao, a Deo está agora a lançar o seu primeiro CD a solo, chamado "Voando sobre o fado", com vários temas dos Madredeus interpretados por ela, em formato de fado.O próprio Pedro Ayres de Magalhães ouviu os temas e aprovou, o que demonstra já a qualidade do trabalho.



A este seu amigo, que humildemente assina este blogue, coube a honra de tirar as fotografias para a capa e para o interior do disco, bem como de escrever o texto de apresentação do mesmo. Para o próximo, que será o primeiro de originais, já combinámos que terei a difícil tarefa de lhe escrever um ou dois temas, desafio que é tão aliciante quanto difícil.

Mas, para já, aconselho que visitem o MySpace da Deo, porque vale bem a pena. Ouçam com atenção o tema "Coisas pequenas" e a versão do "Barco Negro", da inesquecível Amália. Não se vão arrepender.

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03/01/2008

Encontro de Escritores de Língua Portuguesa

Tive a honra de ser convidado pelo Instituto Politécnico de Leiria para participar no II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa que esta entidade vai organizar nos dias 24 e 25 de Janeiro, onde faço parte de um painel onde estão também alguns dos nomes grandes da literatura da nossa língua, de todos os países de expressão portuguesa.


Por isso, reproduzo aqui a notícia que está no site oficial do IPL.

"O Instituto Politécnico de Leiria está a organizar o II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, na sequência do primeiro que teve lugar em 2001 e que homenageou o escritor José Saramago.

O evento terá lugar nos dias 24 e 25 de Janeiro de 2008, no auditório da Escola Superior de Tecnologia e Gestão, em Leiria, e pretende reunir personalidades da Cultura Portuguesa e Lusófona.

Alargar o leque de ofertas culturais da instituição, criar um espaço de ampla reflexão e discussão sobre questões relacionadas com a formação para a cidadania dos indivíduos e evidenciar a importância do contributo que os Escritores e a Literatura hoje assumem nesse contexto, são os principais objectivos do II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa.

Subordinado ao tema “A escrita e a cidadania”, esta iniciativa pretende acolher autores de expressão portuguesa de várias nacionalidades e continentes, contando já com a presença confirmada de cerca de duas dezenas de prestigiados escritores, não só portugueses, mas também provenientes de países como o Brasil, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Angola.

Destacamos a participação de António Torrado, Ana Maria Magalhães, Carlos Pinto Coelho, José Jorge Letria, Rui Zink, Carlos André, Nuno Júdice, Joaquim Vieira, Dulce Cardoso, Manuela Gonzaga, Luís Costa Pires, Maria Antónia Palla, Marta Gautier, Paulo Kellerman e Pedro Barbosa. No panorama internacional, Corsino Fortes, Ana Maria Machado, Olinda Beja e Ruy Duarte de Carvalho são alguns dos carismáticos escritores que aceitaram o nosso convite."

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Ano novo

Pronto. Depois de uma gripe teimosa e dos habituais festejos de Natal e Ano Novo, está outra vez na altura de actualizar o blogue.

Desejo, como é óbvio, tudo de bom para os seus visitantes. Que em 2008 tenham coragem, força e lucidez. Porque, de facto, é apenas isso que é necessário. Com esses ingredientes, tudo o resto aparece.

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19/12/2007

Afinal vou ver "A Bússola Dourada"

Segundo notícia do semanário "Sol", o jornal do Vaticano criticou o filme "A Bússola Dourada", do norte-americano Chris Weisz, qualificando a saga de "gnóstica, anti-Natal e soixante-huitarde".

Bom. Como já estou um pouco cansado de filmes de aventuras fantásticas, tinha pensado em não ir ver este. Mas, se incomoda assim tanto o Vaticano, então só pode ser bom.

Este fim de semana não me escapa.

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"Call Girl", ontem

Ante-estreia do filme "Call Girl", de António Pedro Vasconcelos, produzido pela MGN Filmes, de Tino Navarro, no Teatro de São Jorge, em Lisboa. À chegada, uma sala bem recheada de figuras públicas cheias de curiosidade para ver o filme e uma Soraia Chaves deslumbrante num vestido púrpura que, juntamente com o restante elenco, davam entrevistas para todos os órgãos de comunicação social deste País.

É bom ver que o cinema português começa a chegar com mais força à comunicação social, pois só assim poderá começar a atrair público e a gerar uma indústria com qualidade.

E, apesar de não ser um filme perfeito, "Call Girl" é claramente uma boa tentativa de fazer as pazes com o público português e será, com toda a certeza, um sucesso de bilheteira. É um filme descontraído, sem pretensões, com alguma acção, com muitas cenas ousadas e muita linguagem corrente (aqui talvez haja um excesso no uso dos palavrões), onde, sem ter que pensar muito, o espectador diverte-se e fica entretido com aquelas personagens e as suas desventuras durante as quase duas horas do filme.

De realçar a excelente interpretação de Nicolau Breyner, claramente o que melhor encarnou o personagem que lhe foi entregue, de político honesto, mas seduzido pela beleza da esplendorosa Soraia Chaves. De resto, Ivo Canelas teve momentos muito bons, embora não tenha conseguido manter esse nível elevado durante todo o filme, enquanto que Joaquim de Almeida e José Raposo estiveram à altura do que era exigido.

Soraia Chaves esteve bem, embora num papel ingrato. É difícil mostrar talento de interpretação numa personagem cuja maior parte das cenas são sexuais. Nesse campo esteve muito bem, muito à vontade com o seu corpo (e com razões para isso), nos gestos e nos olhares, mas, na altura de dar as deixas, parecia por vezes mais preocupada em parecer sensual do que em interpretar as palavras. Mas presumo que deve ser um papel complicado de se interpretar, pelo que tem que se considerar, obrigatoriamente, a sua prestação como positiva.

O final do filme tem alguma tensão e adrenalina, o que é sempre de saudar no cinema português, normalmente amorfo, embora, me pareça que o filme teria ganho se algumas personagens e cenas tivessem sido cortadas, tornando-o mais compacto e mais eficaz. Mas o filme cumpre perfeitamente o seu propósito de entretenimento e os fãs de Soraia Chaves não vão, com toda a certeza, ficar desiludidos com o filme.

Foi uma óptima noite, na companhia de muitos amigos que não via há muito tempo, e que, depois, terminou no Speak Easy, sempre excelentemente representado pelo inexcedível Gil do Carmo, onde uma noite musical se prolongou madrugada fora. Entre a oportunidade de reencontrar um outro grande amigo que não via há anos, o grande Luís Pinto, actual teclista dos Anjos, o prazer de beber um copo ao lado de Mariza, que estava no local e que, quase, quase, foi convencida pelos músicos a cantar uma música para os presentes.

Teria sido a cereja no topo do bolo. Mas mesmo sem essa cereja, o bolo foi saboroso.

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15/12/2007

Sermos o poeta que nascemos

Dizia o mestre Agostinho da Silva que, com toda a certeza, o homem não nasceu para este mundo difícil de obstáculos e de trabalho, mas sim para sonhar livremente, para que cada um de nós possa ser o poeta que nasceu.
Nunca percebi porque é que tanta gente tem medo de se perder nos sonhos. Sempre que alguém sonha com força suficiente, o mundo dá um salto evolutivo. E é verdade que um único homem, com um sonho grande o suficiente, pode mudar o mundo. A história está cheia de exemplos disso. E esse é o único verdadeiro caminho. Deixarmo-nos inundar pelos sonhos, pela vontade que sentimos e agir de acordo com ela. Assim, quem sabe, possamos transformar o que nos rodeia.
E sermos livres e agir perante o nosso livre arbítrio outra vez.

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13/12/2007

A greve dos argumentistas


A greve que os argumentistas estão a fazer nos Estados Unidos corre os noticiários do mundo, pois a mesma, que dura há mais de um mês, já afectou a rodagem de séries que são seguidas atentamente por milhões de pessoas pelo mundo fora. Ao contrário do que acontece cá, é hábito nos EUA reconhecer-se o talento e não a mediocridade. Por isso, os seus argumentistas são reconhecidos pelo público e bem pagos. Ou antes, são bem pagos em comparação com o resto do mundo, já que, ainda assim, os seus salários não chegam aos calcanhares dos valores milionários dos actores e realizadores. Basta lembrar que, por exemplo, Lindsay Lohan, uma jovem actriz de 20 anos, de talento mediano, recebe 7 milhões de dólares por cada filme que roda.



Normalmente não sou a favor de greves, que são, na maior parte do caso, meros exercícios políticos mascarados pelos sindicatos ou, então, justificações para dias sem trabalhar. Acredito que uma greve deve existir apenas quando se fundamenta na luta por direitos elementares. Acredito também que não há nada mais importante num filme ou numa série do que o seu argumento. A ideia que está por trás do enredo, os diálogos, a sequência dos acontecimentos, a riqueza das personagens, tudo isso é que cria a base para um bom filme. E como os argumentistas americanos apenas estão a lutar pelo direito óbvio de receber uma percentagem das vendas dos DVDs e dos downloads na internet das suas criações, parece-me justo.
E a prova de que é uma greve justa é que ela não termina até que os seus objectivos sejam alcançados. Nada parecido com a maioria das greves que normalmente se vêm por cá, que duram 2 ou 3 dias, apenas o tempo suficiente para um líder sindical mandar umas bocas ao governo.

É por isso que acho imensa piada ao risível apoio que os argumentistas portugueses resolveram dar aos americanos há coisa de 15 dias. O apoio consiste no apelo a que todos os argumentistas do nosso país deixem de escrever das 12 às 13 horas, já que, e segundo declarações do sindicato, “os direitos pelos quais os nossos colegas norte-americanos lutam neste momento, e muitos outros que eles já conquistaram no passado, são em Portugal ainda a matéria de que se fazem os sonhos”.

Ou seja, os nossos argumentistas vão apoiar a causa e lutar pelos seus direitos antecipando a hora do almoço. Parece-me bem. É para que esses produtores e canais de televisão aprendam que não se brinca com um argumentista português!

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Nobel da vergonha

Ramos Horta disse numa entrevista que propunha o nome de Durão Barroso para Nobel da Paz.

Bom... se por acaso isso algum dia acontecer, tenho a certeza de que não existirá outro dia em que me irei sentir tão envergonhado de ser português.

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Regresso

Novamente de regresso ao blog, após duas semanas de preocupação com o estado de saúde da minha mãe que, felizmente, já está bem.

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12/11/2007

Aviso

Os próximos três posts são extremamente longos e acabam todos por ter um fio condutor entre eles, começando no mais antigo.

Se não estiver com "paciência para testamentos" aconselho a ler os posts anteriores.

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Bobby

(III)

Ainda na continuação do tema anterior, vi recentemente o filme "Bobby", realizado por Emilio Estevez, filho mais velho de Martin Sheen. O filme é dedicado à figura de Robert Kennedy, irmão mais novo de JFK marcou muito todo o imaginário de Emilio Estevez.

Meteu por isso mãos à obra e terminou o argumento no início de Setembro de 2001. Mas, quando se preparava para iniciar contactos, deu-se o atentado ao World Trade Center. Então, resolveu guardar o filme para mais tarde, até porque seria demasiadamente sensível rodar naquela altura num filme sobre um homem que lutava pela igualdade racial, pelos direitos civís, pela paz entre os povos, pela liberdade, pelo combate à pobreza, e que, sendo candidato a presidente dos EUA, foi assassinado antes mesmo das eleições.

Mas o filme foi realizado e saiu há cerca de um ano. Como é óbvio, passou quase despercebido em Portugal. Primeiro porque não tem muitos tiros (só os que matam Robert Kennedy) e depois porque me parece que não existe a percepção de que aquele homem podia ter mudado radicalmente o mundo em que vivemos.

Quanto ao filme, creio que nunca vi tantas estrelas juntas num mesmo elenco, já que participaram grandes actores como Anthony Hopkins, Laurence Fishburn, Demi Moore, Martin Sheen, o próprio Emilio Estevez, Helen Hunt, Sharon Stone, Lindsay Lohan, Heather Graham, Ashton Kutcher, William Macy, Christian Slater e Elihaj Woods, no papel de pessoas reais que estiveram no Hotel Ambassador no dia em que aconteceu o assassinato. As cenas em que aparece Robert Kennedy são reais, já que é feita uma montagem muito inteligente dos seus discursos no meio dos personagens (pode ver o trailer aqui)

É um bom filme. Principalmente para quem tentar perceber o que significou aquela altura para o mundo:

- Com as suas manifestações pacíficas e discursos cheios de sentimento, Martin Luther King conseguia a igualdade de direitos entre as várias raças.

- A guerra do Vietname continuava e milhares de jovens americanos eram enviados para uma guerra sem sentido

- A guerra fria ia no seu auge e a guerra nuclear com a Crise de Cuba tinha sido evitada por um fio, muito graças também à participação de Robert Kennedy no processo de negociação, ainda enquanto Ministro da Justiça do seu irmão.

- A pobreza grassava fora das grandes cidades e as máfias controlavam os negócios, os sindicatos e os trabalhadores (quando Robert Kennedy foi Ministro da Justiça, as condenações a mafiosos subiram cerca de 800 por cento).

- As drogas invadiam a sociedade.

- Na Europa, o bloco de leste começava a dar sinais de fraqueza e começava a Primavera de Praga.

Era a altura de todas as esperanças que começaram a cair quando Luther King, após um discurso altamente profético, foi morto a tiro. Houve grande consternação nessa noite e quase todas as grandes cidades americanas sofreram grandes manifestações e revoltas. Menos Indianápolis, onde Robert Kennedy fez um discurso imperdível e emotivo a revelar a morte de Luther King e a apelar à calma, que vale a pena ouvir aqui.

Era esse o espírito que admiro. Era um homem que inspirava os outros, que juntava multidões de brancos, negros e mexicanos por todas as ruas onde passava, ansiosos simplesmente por vê-lo ou ouvi-lo, ou levá-lo literalmente às cavalitas pelas ruas, sempre sem segurança ou guarda-costas (mesmo depois do seu irmão JFK ter sido assassinado), porque acreditava que se tinha que dar às pessoas, às suas pessoas, como próprio dizia. Era um homem que falava de ideais e de justiça racial, que lutava publicamente contra as máfias e a pobreza, que desafiava o poder cara a cara, que era contra a Guerra do Vietname e a favor da paz entre as nações. Que até ajudou a acabar com o apartheid na África do Sul, com um discurso memorável numa das suas visitas. E, mesmo assim, ou antes, e por isso mesmo, foi assassinado antes de ser eleito presidente. O mundo seria completamente diferente hoje se isso não tivesse acontecido.

E volto por isso à questão anterior: será que hoje não há líderes a sério neste mundo? Será que já foram todos eliminados?

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A identidade nacional

(II)

Na RTP Memória vi um antigo episódio do "Hermanias", um dos primeiros programas de Herman José. Em cerca de 10 minutos, consegui contar mais de seis piadas com referências culturais que, presumo eu, hoje poucos conseguiriam perceber, mas que, se eram usadas no programa com maior popularidade, eram entendidas pela maior parte do público da altura. Piadas que metiam escritores, letristas, pintores, nomes como Natália Correia, Lídia Jorge, Fernando Pessoa, Cargaleiro, Mário Cláudio, entre outros.

Depois, novo programa da RTP Memória mostrava uma homenagem em teatro a João Vilarett. Pouco depois, ouço a "Desfolhada", de Simone de Oliveira, devidamente referenciados os seus autores, Nuno Nazareth Fernandes e José Carlos Ary dos Santos. Ou seja, há poucos anos, o público português conhecia autores nacionais, sabia quem compunha as músicas, quem escrevia os poemas, dava valor ao que era produzido aqui, conhecia os seus autores. Havia uma identidade portuguesa que ia além de cantar o hino antes dos jogos de futebol e colocar bandeiras à janela durante o Europeu.

O que nos aconteceu entretanto? Por que razão já não damos valor aos nossos autores, aqueles que transportam para a arte a realidade, o espírito e a forma de ser português? Será que o preço da liberdade é não termos identidade? Será que só a cultura que vem dos Estados Unidos, que como já referi no post anterior ( que aconselho ler para melhor entender este), também me agrada bastante, é boa?

Ou será que os portugueses são hoje menos sensíveis e inteligentes do que eram há anos atrás? O que se passa? E como resolver isto?

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A má educação de Chávez


(I)

Tenho dado acrescida atenção nos últimos dias à cena política internacional e à história de algumas grandes figuras da política no passado, os grandes líderes que, durante os tempos, conseguiram mudar o mundo.

E, no meio dessa investigação, pensava para com os meus botões que já não existem grandes líderes, que os políticos de hoje são homens medíocres, incapazes de lutar verdadeiramente por uma causa ou de revolucionar o mundo. Limitam-se a gerir a economia e a lutar por interesses, ainda que sigam uma plataforma e um ideal.

E então constantemente vejo também notícias sobre Hugo Chávez. O presidente venezuelano, que tem um passado revolucionário e duvidoso, que, apesar da fachada democrática não passará de um ditador, não é um bom exemplo de homem, acredito eu. É mal educado, é agressivo, desagradável e fundamentalista. E perigoso. Aliás, isso mesmo se viu pela forma como ofendeu o ex-primeiro ministro Aznar na conferência ibero-latina que se realizou nos últimos dias, ao ponto de provocar a ira (!) do sempre pacífico rei Juan Carlos I.

Mas por outro lado, leio num semanário que Chávez criou na Venezuela uma enorme estrutura de produção e criação de cinema e que o estado venezuelano se prepara para apoiar largamente a produção de longa-metragens naquele País. Tudo em nome da cultura. Uma vez que, segundo dados do governo venezuelano, mais de 90 por cento do cinema que se vê na América Latina, é proveniente dos Estados Unidos e que é preciso voltar a lembrar ao povo que existe uma cultura própria local.

Chávez tem razão. A cultura americana, de que eu sou particularmente fã, invade em demasia todo o mundo. E cada uma das culturas locais desfaz-se. E isso, independentemente de se gostar dos filmes, da literatura, da música, do lifestyle, não pode acontecer. Em Portugal, isso é evidente, como falarei no post seguinte.

Chego à conclusão: Chávez é uma besta. Mas, provavelmente, será dos poucos políticos mundiais capazes de fazer a diferença se tiver oportunidade. Ainda que seja fundamentalista e arrogante. Ainda que seja incómodo à Europa e aos EUA. Aquele homem luta pelos seus ideais e está disposto a morrer por eles.

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O meu silêncio

Tenho andado calado. Ou antes, não tenho escrito neste blogue na última semana, não por falta de coisas para dizer, como se pode ver agora pela quantidade de posts que coloco num só dia, mas porque vários projectos chegaram a uma altura em que exigem mais atenção. E dois deles, ligados à vertente literária, terminaram.

Nos últimos dias terminei uma nova peça de teatro, baseada num livro clássico de que muito gosto, "A Eneida", de Virgílio, e um conto que também vai beber um pouco à mitologia, embora de outra forma. Mas não quero falar desses projectos agora, mas sim quando eles derem origem a coisas mais palpáveis, como livros ou encenações.

Por isso, serve este post basicamente para explicar a todos aqueles que aqui vêm diariamente e que me enviam mensagens e comentários que não fui embora. E que adoro cada visita e cada comentário.

A propósito, o blogue já ultrapassou as 18000 visitas. Quem diria?

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11/11/2007

Adeus a Norman Mailer


Uma das correntes literárias mais curiosas que apareceram nos últimos cem anos é a "não ficção criativa", ou o "Novo Jornalismo".

Este género literário é oriundo dos Estados Unidos da América, onde autores como Norman Mailer e Truman Capote, entre outros, escreveram verdadeiras obra-primas da literatura partindo não de enredos ficionais, mas de factos reais. É o caso de "A Sangue Frio", de Truman Capote, que recentemente teve grande projecção mediática graças ao filme "Capote", que deu o óscar de melhor actor a Philip Seymour Hoffman. Neste livro, "A Sangue Frio", o autor usa a investigação intensa e as conversas que teve com um serial killer para criar uma obra perturbante que viria a mudar a face da literatura e impressionar largamente a opinião pública mundial.

Mas quero falar de Norman Mailer, que nos deixou hoje, vítima de doença renal. Raramente foi um autor pacífico, como convém a qualquer grande autor. Afinal, é a inquietude que um autor provoca no público que o consagra; autores que se limitam a contar os passos e dizer o óbvio não acrescentam nada ao mundo. No caso, infelizmente, Mailer não foi apenas um escritor provocador, mas também um homem violento no seu dia a dia, que, por diversas vezes, foi notícia pelo seu pavio curto.

Mas isso não tirará com certeza o mérito da sua obra, quer na criação do "Novo Jornalismo", com livros como "Exércitos da Noite" ou a polémica biografia que escreveu sobre Marylin Monroe, quer nos romances mais "tradicionais", de onde, pessoalmente, destaco "O Evangelho segundo o Filho", e o consagrado "Os nús e os mortos".

Quanto a mim, que gosto da sua escrita, deixo aqui esta singela homenagem, relembrando uma frase sua, inscrita precisamente no "Evangelho segundo o Filho", que usei como epígrafe para o meu terceiro romance "Mandrágora": "Pois o amor não é a vereda segura que nos conduzirá ao nosso fim, mas antes a recompensa que recebemos no termo da dura estrada que é a nossa vida e os dias da nossa vida".
Talvez seja verdade. Talvez. E se for, tê-lo-ás encontrado agora, Norman Mailer.

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02/11/2007

Corrupção

Não percebi. Na televisão, um anúncio avisa insistentemente que "Corrupção" vai estrear brevemente numa sala perto de si.

É impressão minha ou isso já estreou em Portugal há muitos anos? Estes homens das TVs deviam actualizar-se...

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Mais uma do Papa

Vejo na SIC Notícias uma reportagem sobre uma doença que até agora desconhecia, que é a Doença Celíaca, ou seja, uma incapacidade do organismo de tolerar o glúten, que, segundo percebi, está presente em quase todos os cereais.

Na reportagem, a doente entrevistada explicava os extremos cuidados que tinha que ter com a sua alimentação. Mas o que mais me chocou foi ouvir a mãe da doente a lembrar-se de alguns desafios que teve ao longo da educação da sua filha. E deu este exemplo inacreditável: quando quis que a filha fizesse a primeira comunhão, teve bastantes dificuldades já que a hóstia contem glúten e não havia forma de dar a volta à questão. É que o então cardeal Ratzinger (sim, esse mesmo que agora, infelizmente, é Papa)para evitar o enorme trabalho de se produzirem hóstias sem glúten, proibiu a comunhão para alcóolicos e indivíduos com doença celíaca.

A ser verdade, é, sem dúvida, uma atitude completamente de acordo com o que é a fé cristã. E será mais um grande exemplo da grande hipocrisia que existe em redor deste pseudo homem de Deus. E depois admiram-se que cada vez existam menos pessoas a ingressar na Igreja Católica. É caso para dizer, Perdoai-lhes que não sabem o que fazem...

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Guerra iminente

A administração de George W Bush garantiu que vai usar da diplomacia para resolver o problema que coloca Turquia e Iraque na iminência de confrontos militares.

Isso deixou-me verdadeiramente preocupado. Ou muito me engano ou vem aí outra guerra...

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01/11/2007

O escritor e o vizinho


Sou um homem com hábitos estranhos, muito diferentes do normal. Como sou freelancer na área da publicidade e comunicação e trabalho em casa, onde também passo bastante tempo à volta dos meus livros, tenho horários completamente trocados com os das outras pessoas.

Por isso, às vezes tenho a noção de que os meus vizinhos olham para mim um pouco de lado, até porque só estou no prédio onde moro agora há menos de um ano. Pergunto-me o que pensarão deste indivíduo que trabalha ou fica acordado a ver filmes até às tantas da madrugada, que sai à noite quando quer, seja durante a semana ou ao fim de semana, que muitos dias parece não fazer nada, que está sentado no café à hora que quer, que parece nunca andar a correr de um lado para o outro, que sai às vezes de casa às cinco da tarde acabado de tomar banho?

Hoje, curiosamente, um deles abordou-me no café do lado. Fala um português misturado com castelhano pois, apesar de estar em Portugal há muitos anos, nasceu na Andaluzia. "Desculpe incomodar-me, mas nós somos vizinhos. Disseram-me que é escritor. É verdade?"

Surpreendido, respondo que sim e sentamo-nos na mesma mesa a conversar. Delicio-me com as histórias que me conta, nitidamente amante da literatura. Falamos de Lorca, Ballester, Camilo José Cela e surpreendo-me por não conhecer o meu escritor espanhol preferido, António Muñoz Molina. "Já não estou em Espanha há muito tempo e os nossos países estão de costas voltadas em termos de cultura", lamenta.

Quando falamos de Fernando Pessoa, porque é incontornável, lembra-se que amigos seus lhe disseram que há uma grande febre sobre Pessoa na Espanha actual. Que é um dos escritores da moda. Ou seja, concluo eu, Portugal está de costas para Espanha e não vice-versa. E ganhávamos bastante se lessemos um pouco mais os autores que já referi neste post.

Era bom que Lorca, grande poeta e romancista, ficasse na moda em Portugal. Ou Ballester. Mas não. Cá só ficam na moda os grandes fenómenos do marketing, que são de mastigar e deitar fora, como os "Sei lá" ou os "Código DaVinci". Ou "O Perfume", o tal livro que é frequentemente citado como o preferido de toda a gente, embora quase ninguém o tenha realmente lido.

Mas lamentos à parte, fiquei contente com a conversa. Parece que, apesar de me acharem a pessoa mais estranha do mundo, os meus vizinhos comentam qualquer coisa de positivo a meu respeito. A não ser, claro, que, para eles, ser escritor seja ofensivo. O que, neste País, talvez não seja assim tão descabido.

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Uma língua para toda a Europa

Nas minhas pesquisas diárias pelo infinito universo da internet descubro a Interlíngua, que, segundo a Wikipedia, é uma "língua auxiliar internacional baseada na existência de um vasto vocabulário comum compartilhado por línguas de grande difusão mundial. Uma palavra é adotada em interlíngua desde que ela seja comum a pelo menos 3 das 4 línguas nacionais escolhidas como fonte: português/espanhol (tratados como um só), italiano, francês e inglês; alemão e russo podem vir a ser considerados."

Assim, esta linguagem artificial é entendida facilmente por qualquer falante dos referidos idiomas, o que me parece absolutamente espantoso. Obviamente que todos sabemos que as várias línguas têm, entre elas, raízes comuns, e influências mútuas, mas, ao olhar para esta invenção extraordinária, é incrível reparar como, na prática, as várias línguas, apesar das variações que foram sofrendo ao longo dos tempos, se tocam em tantos pontos.

Por exemplo, usando o exemplo na wikipedia, tente ler esta frase escrita em Interlingua: "Le 900 milliones de personas qui parla portugese, francese, espaniol, italiano, romaniano, etc. e mesmo le parlatores de anglese comprende un texto technic in interlingua sin studio previe. Illo tamben es relativemente intelligibile a eruditos parlatores de linguas germanic (germano, per exemplo) e slave (como le russo)."

Fácil, não é? Para mais informações sobre esta maravilha, visite este site. Apesar de estar escrito em interlingua, tenho a certeza de que perceberá tudo o que está lá.

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30/10/2007

O assassino de Salazar


Viagem a Lisboa para um café com amigos e uma ida à Livraria Bertrand do Chiado para a apresentação do romance de Joel Neto, "O assassino de Salazar", a convite da editora Casa das Letras.

Infelizmente atrasei-me um pouco e não cheguei na altura que queria e, por isso, consegui ouvir a conversa toda que Joel Neto teve com os presentes, entre os quais se contavam Fernando Dacosta, que muito aprecio e que tive a honra de conhecer por altura do lançamento do meu primeiro romance "A Rainha de Copas", em 1998, já que foi ele que procedeu à sua apresentação pública, e Adelino Gomes, entre outros. Mas, do que ouvi, parece-me ser um romance muito interessante, com raízes históricas, embora não histórico, como o próprio autor insistiu em afirmar, que narra uma época ainda muito desconhecida dos portugueses, a época do final da ditadura de Salazar.

Já tenho o livro e assim que terminar de ler "Jerusalém", de Gonçalo M. Tavares (brilhante até ao momento), irei degustá-lo e comentar.

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26/10/2007

Cientistas fizeram progresso

Segundo notícia do semanário Sol, cientistas em França fizeram uma descoberta importante na luta contra o vírus da SIDA, conseguindo descobrir uma forma de impedir a multiplicação do vírus dentro do organismo do infectado.

Uma notícia importante e moralizadora que pode ser lida aqui.

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25/10/2007

O momento mais importante


Excerto de uma das cenas mais impressionantes do guião de "V for Vendetta", um dos filmes mais geniais que vi até hoje e que revejo de vez em quando. É a cena em que V fala com Evey, após a sua brutal tortura (Quem não viu o filme, veja antes o trailer e vá alugá-lo depressa...)

Evey Hammond: You got to me? You did this to me? You cut my hair? You tortured me? You tortured me! Why?
V: You said you wanted to live without fear. I wish there'd been an easier way, but there wasn't.
[Evey whispers, "Oh my God...?]
V: I know you may never forgive me... but nor will you understand how hard it was for me to do what I did. Every day I saw in myself everything you see in me now. Every day I wanted to end it, but each time you refused to give in, I knew I couldn't.
Evey Hammond: You're *sick*! You're *evil*!
V: *You* could've ended it, Evey, you could've given in. But you didn't. Why?
Evey Hammond: Leave me alone! I *hate* you!
V: That's it! See, at first I thought it was hate, too. Hate was all I knew, it built my world, it imprisoned me, taught me how to eat, how to drink, how to breathe. I thought I'd die with all my hate in my veins. But then something happened. It happened to me... just as it happened to you.
(...)
[Evey continues sobbing]
V: They took your parents from you. They took your brother from you.
[Evey groans]
V: They put you in a cell and took everything they could take except your life. And you believed that was all there was, didn't you? The only thing you had left was your life, but it wasn't, was it?
[Evey sobs, "Oh please...?]
V: You found something else. In that cell you found something that mattered more to you than life. It was when they threatened to kill you unless you gave them what they wanted... you told them you'd rather die. You faced your death, Evey. You were calm. You were still.

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Steiner e os génios


George Steiner, em conferência na Fundação Calouste Gulbenkian, teceu considerações sobre a Europa nos dias de hoje. Falou da incapacidade de gerarmos nos dias que correm génios como Bach, Mozzart ou Platão e afirmou que a Europa está a morrer, passando o papel intelectual para os outros países em vias de crescimento.

Obviamente que concordando com parte das suas teorias e não pondo em causa a genialidade deste afamado investigador, tão premiado e conceituado em todo o mundo, parece-me que a afirmação em causa é, no mínimo, infeliz. Primeiro, que eu saiba, Mozzart ou Bach não foram grandes génios da humanidade porque tenham sido ensinados a sê-lo. Não se ensina a genialidade, ensina-se apenas a técnica. E, quanto a isso, até tenho a certeza de que existem hoje métodos de ensino artísticos muito mais avançados do que na altura em que estes génios apareceram.

E, na verdade, também não me parece que exista uma real ausência desses génios artísticos nos dias que correm, até porque é impossível comparar épocas, quando hoje existem tantas novas formas artísticas que não existem há séculos atrás. Ou não se podem considerar génios personalidades como Andrew Lloyd Webber, Tim rice, Ennio Morricone, Bjork, Dulce Pontes, Luciano Pavarotti, Monserrat Caballet, Bono Vox, Ben Kingsley, Pedro Almodovar, Roberto Benigni, Milos Forman, Wim Wenders, John Cleese, Milan Kundera, Harold Bloom, José Saramago, Harold Pinter, Dario Fo, Italo Calvino, Camilo José Cela, Agostinho da Silva, Lyotard, Derrida, entre muitos outros?

Quando aparece um génio com a lucidez e a criatividade de um Bach, ele atinge esse patamar por mérito próprio e não por influência externa. Achar que é a influência cultural exterior que faz aparecer os inovadores e pioneiros, aqueles que rompem com o que já existe, é um contrasenso.

E obviamente que hoje é mais difícil criar teorias e harmonias completamente originais. Já muito foi criado e muitos são aqueles que tentam todos os dias fazê-lo. No tempo de Mozzart ou Bach, não era assim. Apesar da sua genialidade, eles eram privilegiados que, no meio de um povo doente e inculto, tinham a possibilidade de explanar as suas criações para gáudio de todos os poucos que se dispunham a ouvi-los.

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23/10/2007

Mandei-lhe uma carta...

A Teresa Salgueiro acaba de lançar um novo disco. Pelo que percebi do pouco que ouvi na televisão, trata-se de um trabalho interessantíssimo, onde pega em vários temas de autores da MPB, música ligeira portuguesa e outros estilos musicais, e interpreta-os à sua maneira.

Já gosto do trabalho e ainda só ouvi um pouquinho, como pano de fundo na reportagem: era a versão, muito bonita, do "Namoro", tema que conheço na voz de Sérgio Godinho, interpretando um maravilhoso poema de Viriato da Cruz...

"Mandei-lhe uma carta em papel perfumado,
e com letra bonita, eu disse
Ela tinha um sorriso luminoso, tão triste e gaiato,
Como um sol de Novembro, brincando de artista,
Nas acácias floridas, na fimbria do mar... la ra la ra..."

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21/10/2007

Comprar tempo


Gonçalo M. Tavares ganhou, no Brasil, perante a concorrência de outros grandes autores, entre os quais o meu muito estimado Mia Couto, o prémio literário da Portugal Telecom que, além do prestígio lhe dá também um bom conforto económico. O prémio é merecido pois, apesar da sua juventude enquanto escritor - só publica há seis anos e já tem cerca de vinte livros nas bancas -, é realmente notável e tem um estilo único. Confesso-me um admirador das suas crónicas, que no seu estilo rápido e certeiro são extremamente provocadoras, e consegue sempre surpreender nos seus livros, quer na colecção "O Bairro", quer nos livros negros. Confesso que ainda não li "Jerusalém", a sua obra mais famosa e que lhe tem dado acesso aos maiores prémios que já ganhou, como este no Brasil, o Prémio José Saramago ou o Prémio Ler/Millenium, mas está na lista das próximas aquisições.

Mas este post tem outra função além de dar os parabéns a Gonçalo M. Tavares. Numa entrevista dada ao Correio da Manhã, na reacção à vitória nesse galardão por terras brasileiras, o autor afirma que o prémio monetário de cerca de 37 mil euros é importante não por questões de luxo ou riqueza material, mas porque lhe "compra tempo" para poder recusar outros trabalhos e concentrar-se na escrita.

Percebo perfeitamente o que quer dizer. Sempre que há uma folga no orçamento também penso isso: que bom, posso agora ficar um pouco mais concentrado naquilo que mais gosto e menos nos trabalhos que se fazem apenas para poder pagar a renda e comprar o almoço.

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Frases bonitas

Num dos canais da TV por cabo vejo mais um anúncio que me deixa preocupado. O senhor do anúncio pergunta se, muitas vezes, não tenho vontade de dizer algo romântico, mas não sei como. Então propõe-me que envie uma sms para determinado número, que, por um pequeno custo, receberei a seguir uma frase romântica. E então, terei apenas que usar a minha imaginação e conquistar a minha amada.

Se calhar sou eu que sou antiquado e estou a ver mal as coisas, mas quando uma pessoa quer dizer algo romântico é porque tem, por princípio, um alvo em mente, a não ser que goste de dizer frases de "amor" para o ar. Então, não há melhor inspiração do que a pessoa em causa e, acredito eu que sou romântico, mesmo uma frase simples mas honesta em relação ao que se sente é muito mais significativa do que uma frase feita qualquer que nem sequer tem nada a ver com a pessoa em questão.

E... depois de receber a frase é só usar a imaginação? Porque não se usa antes? O que se passa afinal? Será que andamos tão mortos por dentro, tão cegos que até já precisamos de ajuda para dizer algo a quem gostamos? E, ainda por cima, frases feitas e horríveis, iguais para todas as pessoas?

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17/10/2007

A prosa de Hemingway


Apesar da tourada não ser uma temática que me interesse minimamente, leio "Fiesta", o segundo romance de Ernest Hemingway, autor de quem, além dos obrigatórios "Por quem os sinos dobram" e "O velho e o mar", ainda não tinha lido outro romance.

Gosto imenso da sua escrita, da extrema facilidade com as que os diálogos surgem, da fluidez das descrições, da não complicação do discurso. As personagens ganham vida porque se comportam como pessoas, porque aparecem no livro sem qualquer aparência plástica, mas sim como indivíduos com vícios, hábitos, tiques, características que os diferenciam uns dos outros, mas sem serem demasiado óbvias ou empurradas.

Admito que, às vezes, quando se escreve um romance, é difícil resistir à tentação de tentar criar personagens absolutamente únicas, com características tão diferentes das pessoas que nos rodeiam que se constituirá como uma personagem inesquecível. Mas, fora casos de enredos mais fantásticos ou mesmo com um cunho mitológico ou de extremo mistério, a verdade é que as personagens mais fantásticas são as que conseguem, sendo iguais a qualquer outro homem, têm a sua individualidade e a sua maneira única de ser. As outras, que têm características exageradas nessa ânsia de serem únicas, correm mesmo o risco de se tornarem ridículas.

Para mim, ler Hemingway não é apenas um prazer. É uma lição de como escrever, sem complicações, um bom livro e criar boas personagens.

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Com ou sem mãos

No meu zapping diário, vejo parte da Praça da Alegria, no Canal Um. Jorge Gabriel e Sónia Araújo entrevistam Paulo, um jovem que nasceu sem mãos nem pés, mas que é completamente independente, está a tirar um curso de treinador de futebol, sonha ser actor, tem uma namorada muito bonita e estudou em Coimbra (creio que não estou a dizer mentira nenhuma, pois escrevo de memória, mas o seu percurso é, com certeza, parecido com o que estou a contar).

Obviamente que qualquer pessoa se emocionará com este testemunho de coragem e força de vontade. Ninguém ficará indiferente a este exemplo e admirará o jovem, com uma lágrimazita no canto do olho, afinal, coitado, consegue ter uma vida normal apesar de tantas dificuldades. Eu, claro, não fugi à regra.

No entanto, o mais importante que se pode retirar deste caso é o que foi dito por uma das participantes no programa, de cujo nome não me lembro, mas que dizia que, apesar de não parecer, o Paulo acaba, no fundo, por ser um privilegiado. Porque apesar das óbvias deficiências a nível físico, tem uma característica rara nos dias que correm, que é um cérebro perfeito. Ou seja, uma mente forte, um cérebro que não se deixa abater, que raciocina com lógica e vigor, e essa é a maior arma que o ser humano pode ter.

Concordo perfeitamente com este testemunho e atrevo-me mesmo a dizer que, se o Paulo tem uma deficiência motora, a maior parte dos outros Homens tem uma deficiência a nível de coragem. Ao nível da moral, da confiança, da força de vontade e da lucidez. E essa é realmente a mais importante. De que vale ter mãos e pernas se não temos nada que fazer com elas, se nos fechamos em nós, se não sonhamos, se não tentamos fazer algo que faça diferença? Se nos limitamos a seguir o dia a dia e a ser inundados pelas modas e trends?

A verdade é essa e é inabalável: uma mente em boas condições, saudável, corajosa e com uma visão ampla do mundo permite que tudo o resto seja possível. Com ou sem mãos.

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15/10/2007

Mais uma vez...

Francisco Louçã, o eternamente revoltado líder do Bloco, disse, para variar e para surpresa geral, que tudo está mal. Falando em concreto no Orçamento de Estado para 2008, afirmou que era mais um desastre do Governo Socialista.

Agora a sério, e sem conversas para boi dormir: será que todos os Governos que estiveram até agora no poder tomaram apenas decisões erradas? Será que nunca houve uma única decisão certa?

Quando é que vai finalmente aparecer uma nova forma de fazer política onde deixe de existir tanta hipocrisia, tanto negativismo, tanta crítica só por ser crítica e comece a haver alguma coisa de construtiva? Quando é que este País vai produzir políticos a sério e não demagogos?

Será que não há ninguém farto de tudo isto?

Será que as novas gerações, no meio dos Morangos com Açúcar e do Wrestling vão ser capazes disso? O pior é que tenho medo que não...

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14/10/2007

A reportagem sobre os segredos da Maçonaria


Vi na TVI parte de uma grande reportagem sobre os "segredos da Maçonaria", feita com a conivência das diversas ordens maçónicas e com a visualização de imagens dos templos, dos trajes e dos rituais, tudo a bem da "proximidade da Maçonaria ao grande público".

Por um lado compreendo a vontade de que a grande maioria das pessoas, que mesmo ignorante sobre determinado assunto exprime a sua opinião, perceba que a Maçonaria não é nenhum papão, nem nenhum clube de homens maus. Que se trata sim, apesar de como qualquer outro grupo também ter elementos menos positivos, de um grupo privado de homens, que, em sessões rituais, convivem entre si e discutem assuntos do foro intelectual, cultural e espiritual, com o objectivo de tornar cada um dos seus membros um melhor ser humano e contribuir assim para um mundo melhor, com mais liberdade, igualdade e fraternidade.

Mas, por outro lado, não deixo de ficar extremamente preocupado com a reportagem e com o "abrir de portas" que é feito actualmente. Abrir as portas ao "segredo", escancarar o ritual e a tradição para qualquer um ver é, definitivamente, tirar valor ao ritual. Afinal de contas, qualquer ritual que é secreto, é-o não porque os elementos que o conhecem são especiais, mas porque o segredo (ou sagrado) deve ser buscado, deve ser conquistado, e não dado.

Mas compreendo que no mundo de hoje, onde todos achamos que temos direito simplesmente a ter, independentemente de lutar pelas coisas ou não, em que já ninguém busca por nada a não ser a imagem e o gozo fácil, seja complicado perceber o que é isso de "buscar um segredo". Abrir as portas tem duas consequências: o ganho de prestígio junto do grande público mas, ironicamente, a perca de valor do simbolismo. E não é esse simbolismo afinal o grande propósito da Maçonaria? É preciso cuidado para os excessos.

Se uma filosofia existe, ela vale por si, não pelo que os outros dizem. Quem quiser encontrar o segredo, que o busque. Quem quiser apenas falar só por falar, que fale das revistas cor de rosa e da Floribela.

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Não caso!


Com a apresentação do Orçamento de Estado de 2008 foram também apresentadas as alterações tributivas para o próximo ano. E foi com grande mágoa minha que vi que o Sr. Sócrates (de quem eu até gostava e defendia até agora) e os seus pares decidiram aumentar o IRS para os solteiros, continuando assim a beneficiar aqueles que constituem família em vez dos que preferem manter uma vida independente, quer seja porque ainda não tiveram a sorte de encontrar a cara metade, quer seja porque não sentem vontade de entrar para esse grande clube que é o das famílias portuguesas, com créditos imensos a pagar, dois filhos, almoços com sogros, passeios dos tristes ao domingo e cão para passear. Tudo a bem da ideia de que o País precisa de mais casais e que o Governo é que vai agora decidir o que é melhor para a vida privada de cada um.

Mas, como não sou pessoa de me calar e, por acaso, até me enquadro na segunda categoria referida antes, tenho apenas uma mensagem a deixar ao Sr. Sócrates, no caso de algum dos elementos do Governo ou do SIS andarem por aqui a bisbilhotar blogues que falem do seu nome:

Faça o que quiser, Sr. Sócrates, até me pode multar, mandar prender ou obrigar-me a fazer parte do Governo! Mas eu não me caso!

Tenho dito.

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11/10/2007

Jantar com fado

Jantar na “Adega do Avô”, no Cartaxo, com os amigos Florbela Silva, Ricardo Carriço, Maria Helena Torrado e Miguel Torrado. Entradas deliciosas e fartas, tantas que os secretos de porco preto quase ficaram para segundo plano.

Depois do repasto e de uma deliciosa conversa, a surpresa da noite, preparada pela Florbela. Para surpresa dos restantes (eu já fora avisado de antemão), entrou a Deolinda Bernardo, fadista que já gravou um CD com o Rão Kiao e que vai dar muito que falar nos próximos tempos e, acompanhada à viola pelo grande Zé Pires, deu origem a um espectáculo intimista e esplendoroso. Fados, mas não só. Também música de intervenção portuguesa, poemas de Ary dos Santos (grande amigo da Maria Helena Torrado), alguma MPB e, até, um inacreditável “Sunrise” que aqueceu todos os presentes, até os empregados e cozinheiras que, entretanto, já se haviam sentado connosco a ver o espectáculo, devidamente acompanhado com as luzes apagadas e velas acesas.

A voz da Deolinda Bernardo, ou Deo como assina o disco que irá sair daqui a poucas semanas, é um portento e ela própria é um furacão, um animal de palco como existem poucos, sempre a sentir a música, a interpretá-la não apenas com a voz potente, mas também com os gestos e as expressões. Atrevo-me mesmo a dizer que é uma das melhores intérpretes que já ouvi na minha vida. E a ver pelo ar emocionado dos restantes espectadores, não fui o único a achar isso.

Uma noite deliciosa que já tem data marcada para ser repetida.

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10/10/2007

Maddie

Isto tudo da Maddie já começa a irritar. Principalmente saber que, mesmo que se prove que os pais são os culpados, ainda vai tudo demorar muito tempo até ter um fim. Olho para o dossier Casa Pia e arrepio-me. Será que, caso aqueles pais sejam os monstros que parecem ser, ainda vão passar anos até pagarem a atrocidade do que fizeram?

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08/10/2007

Eterno Woody


Acabei de ver "Scoop", um dos últimos filmes de Woody Allen, desta vez rodado em Londres, e que conta com a minha adorada Scarlett Johanson e o Hugh Jackman, de quem também gosto muito. Não sendo uma obra prima, é um filme divertido que conta a história de uma estudante de jornalismo que recebe a informação de um jornalista famoso recém falecido sobre uma notícia que seria capa de qualquer jornal. Bem ao jeito das comédias do mestre, a estudante vai então, com a ajuda do seu recém amigo e inenarrável "mágico de circo" Splendinni (Woody Allen) tentar investigar o dito caso.

Não sei, digam o que disserem os críticos, que o Woody Allen já não é a mesma coisa, que está longe da forma de "Manhattan" ou de "Hanna e suas Irmãs", que está acabado, não quero saber. Hei-de sempre achar piada ao seu jeito atrapalhado, à forma como enrola as situações, ao humor cortante e subtil que está contido nas frases que derrama nos momentos de atrapalhação. Quase que diria que, quando vejo um filme dele, é por esses momentos que eu espero. O resto, o enredo logo se vê.

Um exemplo é outro filme dele, "A Maldição do Escorpião de Jade" que, não tendo a profundidade dos mais antigos, delicia-me completamente com o seu sentido de humor despretencioso e improvável.

No caso, em "Scoop", também gostei de ver a Scarlett… bom, mas isso não é novidade. Já agora, alguém tem o número de telemóvel dela?

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06/10/2007

De menina Cascais a Cascais Menino

Nova ida ao Casino, mas desta vez ao Estoril, para assistir à estreia da peça “De menina Cascais a Cascais Menino”, da autoria da Maria Helena Torrado e encenação do Ricardo Carriço. Muita gente conhecida no Casino e muitos amigos presentes, curiosamente amigos que são recentes mas com quem existe uma natural empatia.

Confesso que ia completamente a zero, sem expectativas, já que o Ricardo Carriço se tinha fartado de avisar que o Grupo de Teatro de Cascais, de que é encenador, é completamente amador e, conhecedor da realidade dos grupos amadores como sou (já tive alguns textos encenados dessa forma), sei que nem sempre é fácil, com as limitações existentes e mesmo apesar da dedicação dos intervenientes, conseguir um espectáculo à altura dos acontecimentos.

Por isso, a surpresa foi total. A peça, um retrato histórico de Cascais, baseada no livro de Pedro Falcão, “Cascais Menino”, conta a sua evolução desde a sua fundação até aos dias de hoje, falando dos momentos mais memoráveis, das personalidades da terra e das tradições que, infelizmente, se vão esquecendo, ajudando Cascais a tornar-se em algo bem diferente do que era. É uma obra bem conseguida, com mudanças de ritmo, interpretações notáveis (um aplauso especial para o João Quiais, para o Fábio Neves e para a Sara Inês), um guarda-roupas impressionante e coreografias e efeitos especiais que me surpreenderam e emocionaram. Um excelente trabalho que vale a pena ver, até ao final de Outubro, às sextas e sábados, no Casino do Estoril.

Depois da peça, o habitual jantar, num restaurante ali perto que, pelos vistos, fica aberto até às seis da manhã. Para mim, que nos dias normais vivo numa cidade onde quase tudo morre às oito da noite, tudo me pareceu um outro mundo. Ainda por cima rodeado de tanta gente simpática e boa conversadora.

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29/09/2007

Olhos perdidos no vazio


Sim, sim… joguei no Casino. Cinco euros, claro, que não sou maluco de perder fortunas. E essa pequenina perdi-a em dois minutos. Mesmo assim, comparativamente, acho que fui dos que se saiu melhor. Muito melhor do que aqueles indivíduos que vi junto da roleta e da mesa de Black Jack, os olhares perdidos no vazio, as mão nervosas a levarem o cigarro à boca. Os gestos secos de desânimo a cada número dito em voz alta. E as fichas, pilhas delas, centenas de euros a desaparecerem a cada minuto.

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Figueira

Adoro a Figueira da Foz. Além de ter um amplo espaço onde se pode passear em paz, é inundada de um ar sereno e juventude. Acho que, de todas as cidades junto do mar onde costumo ir, é a única que eu conheço onde não sinto um certo peso, talvez das lendas, das dores, dos presságios.

Apenas manias minhas, provavelmente.

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Um animador na Figueira

Casino da Figueira para assistir a um espectáculo de Guilherme Silva, cantor moçambicano, de onde também sou oriundo, que está no Brasil há alguns anos, a morar na zona de Fortaleza, com uma agenda de espectáculos impressionante. Conta-me que já chegou a fazer três espectáculos no mesmo dia e que, cada vez, tem mais solicitações.

Apesar de já o conhecer há alguns meses, ainda não tinha tido a oportunidade de o ver cantar. Mas hoje vejo-o, one man show, a surpreender o Casino. De início, o bar está relativamente vazio, de qualquer forma é cedo, o Porto acabou de vencer o Boavista, altura de se começar a sair de casa.

Com a sua voz rouca e polivalente, com a sua manha própria de descobrir exactamente qual a música indicada para cantar a seguir, começa a animar os presentes que, pouco a pouco, vão sendo cada vez mais. Para minha surpresa, de repente, o bar do Casino está cheio, com vários casais a aventurarem-se até a dançar.

Percebo nessa altura a razão do sucesso do Guilherme. Grandes vozes, como a dele, há muitas por aí. Felizmente que existem muitas pessoas abençoadas com esse dom. Mas o que ele tem é um carisma muito próprio, é um artista no verdadeiro sentido da palavra, um animador. Aliás, por alguma razão é que, chegando ao Brasil vindo de um país pobre e com poucas referências culturais como é Moçambique, conquistou estatuto rapidamente no norte brasileiro e gravou mesmo há pouco tempo um CD com letras de um magistrado de Brasilia e com a participação de alguns cantores de topo brasileiros, entre as quais a Elba Ramalho.

Brevemente vêm mais novidades. Inclusive um disco por cá com a participação de alguns nomes bem sonantes da nossa praça musical e literária… mas não posso revelar mais nada por agora, pois ainda está tudo no segredo dos deuses. Mas tenho a certeza de que vai arrasar.

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13/09/2007

Escritores policiais

Durante uma das minhas actividades preferidas, o Zapping, vejo que no programa da Júlia Pinheiro está António Albuquerque, mais conhecido por Dick Haskins, o maior escritor português de policiais, com quem já passei grandes momentos em cafés a conversar sobre a arte de escrever policiais.

Divertido, ouço as teorias que ele e outros dois autores, António Navarro e o outro que, confesso, agora não me lembro o nome, desbobinam sobre o caso "Maddie" e como escreveriam um livro sobre o caso, se tudo não passasse de ficção.

Realmente, é bom ver a mente criativa a funcionar, mesmo falando de um caso tão triste. E, realmente, lembro-me também de que há muito tempo que não estou um pouco com o Dick Haskins a ouvi-lo contar as suas histórias delirantes.

Nota mental: telefonar para ele e marcar um café.

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10/11/2006

Uma pequena provocação

Quando eu era novo, o meu tio dizia-me sempre que eu devia, quando fosse grande, tentar entrar para a Função Pública. Porque era seguro, porque tinha muitas regalias, e mais um infindável manancial de qualidades de que agora não me lembro.

Sei que agora, esse pensamento continua a ser realidade em Portugal. Então, se a Função Pública é um local assim tão bom para se trabalhar, será que a quebra de alguns benefícios justificam tantos protestos?

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A (não) utilidade das greves (post muito longo)

Nunca vi um professor fazer greve para reclamar devido ao desemprego dos metalúrgicos, nem um pescador reclamar por falta de condições num Hospital (a não ser que necessite dos seus serviços), ou um professor pedir mais subsídios para a agricultura. Cada um só reclama quando o problema atinge o seu próprio bolso. Não existe consciência de nação, que a economia é um fenómeno global e que a situação só poderá melhorar quando todos correrem na mesma direcção.

Sou a favor de manifestações, claro, mas quando se justificam e quando têm o objectivo de lutar contra um problema extremamente grave ou uma opressão. Acredito que o povo não deve temer o seu Governo, mas sim que o Governo deve temer o seu povo. Mas as greves não devem ser banalizadas, até sob pena de perderem significado, o que já aconteceu depois de tantos anos cheios de manifestações por tudo e por nada.

Devem ser sim um recurso de último grau, já que o ideal é que a própria sociedade civil, indignada com o rumo da nação, produza naturalmente novos líderes, organizações e comportamentos que mudem esse mesmo rumo. Mas já se sabe que é mais fácil reclamar que está tudo mal, mas não fazer nada, não participar da vida activa da sociedade, em associações, em projectos de solidariedade, na participação da discussão pública dos problemas, na procura de soluções. Faz o que eu digo, não faças o que eu faço.

Percebo que os funcionários públicos se sintam afectados pelas recentes medidas do Governo. Mas também percebo que em Portugal cada um olha só para o seu próprio umbigo. Todo o País está a sofrer cortes, é necessário recuperar uma situação económica danificada e que, se não for estancada, levará a uma situação ainda mais grave do que a actual. Aliás, isto é de tal forma verdade que o Governo de José Sócrates, numa medida de grande coragem, está agora até a "atacar" os abusivos privilégios do sector bancário, coisa que nenhum governante antes teve ousadia de fazer.

Então, por que razão não terá também a Função Pública de assumir a sua parte nos cortes, principalmente quando se sabe que se trata de um sector pesado, lento, ineficiente e, ainda por cima, com muitas mais regalias do que outros sectores? É muito pouco provável que dois dias de greve, onde os pais faltam ao trabalho porque, com as escolas encerradas, têm que ficar com os filhos, em que a burocracia se atrasa ainda mais porque os serviços estão fechados, contribua para que a situação global melhore. Pelo contrário, piora ainda mais o estado do País e cria situações de grande dificuldade para outros cidadãos.

O problema de fundo é este: hoje em dia, as greves interessam, sobretudo, aos sindicatos, que têm à sua frente pessoas ligadas a partidos políticos da oposição e outras entidades influentes. Não nos enganemos: as greves são, no seu maior caso, organizadas por interesses políticos e económicos que pouco têm a ver com os problemas dos trabalhadores.

A verdade é que a única maneira de ultrapassar a crise é pela responsabilidade. É pelo aumento da produtividade e da receita, pois é de senso comum que é impossível distribuir riqueza que não existe. E isso não se faz com greves, nem com pontes, nem com habilidades para se trabalhar menos. Faz-se com responsabilidade, espírito de sacrifício e solidariedade, mais frontalidade e um sistema de distribuição mais justo. Herdámos a liberdade, mas não sabemos o que fazer com ela. Não vivemos hoje num regime que justifique tantas greves, mas sim mais responsabilidade, porque ser livre é ser responsável e lutar. E isso faz-se no dia a dia, em partilha, na sociedade.

Porque o irónico é que, se houvesse um inquérito, mais de 90 por cento dos portugueses responderia que concorda que o Estado gasta de mais e que é necessário cortar na despesa. Mas, se o corte representar uma diminuição no bolso da própria pessoa, então a resposta muda radicalmente.

Ou seja, com o mal dos outros posso eu bem. Mas em mim, ninguém toque.

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A queda de Bush

Finalmente, uma boa notícia vinda dos Estados Unidos da América. A queda de George Bush já começou. Daqui a dois, três anos, o mundo estará livre de um dos maiores responsáveis pela crise mundial e pelo terrorismo.

Só espero que, até lá, ele não consiga fazer ainda mais estragos do que já fez. Para já, parece que vai ser difícil. É que, agora, Bush já não tem a maioria para decidir o que quiser.

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09/11/2006

O Perfume

Muito brevemente, o filme "O Perfume", baseado no romance homónimo de Patrick Suskind, vai, aposto, tornar-se num grande sucesso de bilheteira por todo o mundo e, particularmente, em Portugal. É fácil fazer esta previsão já que, apesar de ser um livro pesado e de literatura "não light", este foi o romance mais vezes citado nos inquéritos de todas as pessoas (famosas e não só, recolhendo unanimidade entre todas as classes sociais e todas as áreas de trabalho) como o seu "livro preferido", logo seguido de qualquer um do Paulo Coelho ou da Margarida Rebelo Pinto. Alcançou também níveis de vendas inesperados para as livrarias portuguesas.

Sempre me fez confusão como é que um País que não lê e, na melhor das hipóteses, lê literatura mais leve (os nossos grandes autores fazem sucesso principalmente no estrangeiro e só depois aqui) deu tanta importância a um livro com uma atmosfera tão densa como "O Perfume".

Mas pronto, com a chegada do filme, fica agora desfeita uma dúvida que eu tinha. Finalmente, daqui a três ou quatro meses, a maior parte das pessoas que, nos inquéritos, refere "O Perfume" como o seu livro preferido já terá, finalmente, noção e conhecimento sobre o que fala realmente o livro.

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02/11/2006

Inteligência artificial

Revi o filme "Simone", com Al Pacino, Winona Rider e a top model canadiana Rachel Roberts. A película conta a história de um realizador de cinema que vê a sua carreira acabada devido à sua incapacidade de ver a sétima arte como um negócio. No entanto, o realizador acaba por ser presenteado com um programa informático que lhe permite criar a actriz perfeita, embora virtual, Simone (SIMulator ONE), que irá levá-lo ao estrelato.

Obviamente que não vou falar mais do filme para não estragar a surpresa a quem ainda não o viu. No entanto, refiro que, apesar de não ser um filme brilhante, tem aliás algumas cenas demasiado inverosímeis, é um filme divertido e que fornece uma crítica bastante feroz ao excessivo aspecto comercial da arte nos dias que correm, ao endeusamento das personalidades públicas, à imprensa cor-de-rosa, etc.

E, mais interessante, levanta uma reflexão sobre a possibilidade de ser criada vida virtual através da tecnologia. Curiosamente, após rever o filme, pesquisei na net sobre o assunto e encontrei alguns projectos muito avançados realizados por génios informáticos que trabalham para criar cérebros, ou programas, como lhes queiram chamar, com inteligência virtual que aprendem, memorizam e respondem de forma improvisada e única, consoante o feedback do utilizador, criando conversas únicas, lógicas e irrepetíveis. Estes programas são, sem dúvida, os embriões dos futuros cérebros informáticos, provavelmente num futuro não muito distante onde os sonhos de muitos autores da "sci-fi" se tornarão realidade.

Obviamente, não sou um especialista na matéria para explicar como tudo se processa. Mas, se quiser dar uma vista de olhos na matéria e instalar no computador uma "pessoa virtual" que já capaz de conversar consigo, visite a página http://www.kurzweilai.net/ e dê uma volta pelas suas muitas opções e interessantes artigos.

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01/11/2006

Cahora-Bassa

Boas notícias para Moçambique e para Portugal. Os dois governos chegaram finalmente a acordo sobre a barragem de Cahora-Bassa. Com este entendimento, que já devia ter acontecido há muitos anos, Moçambique pode agora beneficiar economicamente da grande barragem e distribuir em condições vantajosas electricidade pelo continente africano.

Mas não é só a questão económica que alegra o povo moçambicano, que festejou este acordo como se da conquista da independência se tratasse. Trata-se também da sensação do seu povo de que caiu o último símbolo do colonialismo, que agora não existem mais "obrigações" para com a Velha Europa. E, como disse o presidente de Moçambique, agora as relações institucionais entre Moçambique e Portugal podem melhorar, num clima de amizade e fraternidade, depois de um processo que se arrastou durante anos.

Para Portugal, significa um encaixe de 750 milhões de euros que não estavam previstos no Orçamento de Estado. Ou seja, inteligente foi o Governo em, por precaução, não incluir esta receita na previsão orçamental. Assim, em vez de, como em outros Governos, correr o risco de pecar por defeito, os economistas têm agora uma boa surpresa e uma redução do défice um pouco maior do que se esperava.

Também é por estas coisas que se vê a seriedade de um Governo.

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Ainda "Os Grandes Portugueses"

Ao contrário do que alguns críticos dizem, o resultado deste programa jamais será representativo do que a população portuguesa sente sobre a sua história, até porque a própria população não tem realmente noção da sua História. Como disse muito bem Eduardo Lourenço, este programa vai demonstrar sim a “ignorância” que existe em relação a quem somos, às grandes figuras que lutaram pela nação, pela liberdade, pelo progresso, não apenas português, mas mundial, pois fomos uma nação que descobriu mundos e que forneceu muitos ideais e ciências a toda a humanidade.

Também, os primeiros gráficos projectados pela RTP sobre as votações mostram que há claras diferenças de participação nas votações por parte das várias faixas etárias, o que impede o resultado de ser representativo.

Mas, independentemente do resultado final, o “Grandes Portugueses” servirá pelo menos para trazer à boca dos portugueses a história do nosso País, bem como alguns nomes menos falados habitualmente, para contar algumas histórias do nosso passado, para reviver grandes momentos e, espero, para elevar um pouco a nossa auto-estima e sentimento de patriotismo, numa altura em que nos esquecemos realmente de quem fomos e, consequentemente, de quem somos.

Mas, mesmo falando apenas dos grandes vultos nacionais, é injusto comparar personalidades de áreas completamente diferentes. Eu, como escritor, valorizo, por exemplo, Saramago acima de José Malhoa e Fernando Pessoa acima do Marechal Spinola. Mas serão comparações possíveis de se fazer, uma vez que cada um desempenhou papéis tão diferentes?

Mas, já agora, por curiosidade, num exercício meramente lúdico, pois os critérios de escolha são demasiado díspares e a história portuguesa e os vários contextos de cada época são demasiado ricos para serem reduzidas a uma votação, aqui ficam os onze portugueses (não consigo reduzir a lista a dez) que eu eventualmente escolheria, não necessariamente pela ordem apresentada: “D. Dinis, Infante D. Henrique, D. Sebastião, Luiz Vaz de Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Agostinho da Silva, Humberto Delgado, Amália Rodrigues, Zeca Afonso e Belmiro de Azevedo”.

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31/10/2006

Finalmente, o ambiente

Após anos de luta e de avisos, os ambientalistas começam finalmente a ver as suas palavras ganharem importância. Parece que finalmente os economistas e os políticos estão a tomar consciência da degradação do meio ambiente e dos perigos que esta traz ao planeta.

Mas, ironicamente, foi necessário que um economista inglês viesse a público explicar que as alterações climáticas provocadas pelo excesso de CO2 no ar vão provocar uma quebra de cerca de 20 por cento no PIB mundial para que se começasse a levar a sério este flagelo.

Agora sim, os Governos mundiais vão agir. E para tal, é necessário canalizar para a prevenção ambiental "apenas" 1 por cento do PIB de cada País.

Obviamente que tal não vai ser fácil, ainda mais numa altura em que tanto se fala na Europa de convergência financeira e do pacto de estabilidade económica, que obriga a uma contenção económica grande. Mas espero apenas que os economistas e os governantes percebam da importância desta medida.

Até porque, além da quebra prevista do PIB mundial, não me parece que os pulmões do homem estejam a preparar-se para receber dióxido de carbono em vez de oxigénio.

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Festival do Chocolate de Óbidos

Daqui a dois dias começa, em Óbidos, mais um Festival do Chocolate. O evento que a autarquia obidense começou a realizar há três anos, se não me falha a memória, é um fenómeno nacional e internacional, atraindo para a pequena vila dezenas de milhares de visitantes. Lembro-me mesmo de que, há dois anos, a GNR teve que encerrar os acessos da autoestrada A8 para impedir que mais pessoas entrassem nas imediações da vila.
Foi uma ideia brilhante, mais uma, do autarca de Óbidos, Telmo Faria, que tenho o prazer de conhecer de há muitos anos, muito antes de ser eleito presidente da Câmara. A verdade é que, em apenas 5 anos à frente da autarquia, elevou a vila de Óbidos e o seu castelo a um dos mais importantes pontos turísticos da região, ultrapassando todas as outras cidades em redor. E o Festival do Chocolate não é o único exemplo: o que dizer da fantástica Feira Medieval ou do Festival de Ópera? Ideias originais que elevaram e muito a vila.

Mas, considerações à parte, lá estarei outra vez este como jornalista a visitar os vários stands da feira, a deliciar-me com as maçãs cobertas de chocolate, o licor de chocolate, as mousses, os bolos, as esculturas extraordinárias feitas de chocolate, chocolate, chocolate.

Quem já foi a este evento em outras ocasiões sabe do que estou a falar. E quem nunca foi, que vá, com o alerta de que terá que fazer uma pesada dieta nos dias seguintes, pois é impossível resistir a provar muitas daquelas iguarias.

E deixem-me que vos diga que ser jornalista não é fácil. Para uma reportagem ficar bem feita, é preciso saber do que se fala. Então, é preciso provar, provar, provar...

Por isso, já sabem, quando regressar a este blogue, voltarei com uns quilos a mais. Mas também com um sorriso muito maior.

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26/10/2006

Ainda os "nobeis"

Por outro lado, fiquei mais uma vez desiludido com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Não por falta de valor do laureado. Mas porque já era altura de reconhecerem de uma vez por todas o valor deste homem. Mas, infelizmente, com uma idade avançada, Milan Kundera parece estar destinado a ser mais um dos grandes autores mundiais que nunca viu a academica sueca a reconhecer a grandiosidade da sua obra, os seus ideais de liberdade e a profunda melancolia e sensibilidade com que foca a história contemporânea, a poesia e o universo íntimo das suas extraordinárias personagens.

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O Nobel dos Pobres

A notícia já é velha, mas, na altura em que surgiu, eu ainda não tinha regressado a este blogue, e, pela sua importância, não quero perder a oportunidade de falar nela.
Deixou-me muito feliz a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Muhammad Yunus, conhecido como o "banqueiro dos pobres", pela sua criação do microcrédito que permite a tantos milhões de pessoas normalmente sem acesso aos meios de financiamente, e em países do terceiro mundo, tentarem começar a sua vida com coragem e com empreendorismo. A atribuição do crédito a estes individuos baseia-se não na sua capacidade financeira para cumprir a devolução do crédito, mas sim na dignidade humana que fará com que, agradecidos pelo incentivo e pela generosidade, lutem para ganhar condições.
Porque a verdadeira caridade não é aquela que consistem em pena e em esmola, mas sim a quem permite que o outro se levante e se auto-sustente, sem medo de concorrência ou de perder o seu lugar de destaque e poder na sociedade mundial.
E para atestar da grandeza deste homem que merece inteiramente o Prémio Nobel, já que combatendo a pobreza se contribui para a paz (a pobreza e a riqueza, ao contrário do que liricamente acontece na Íliada, são sempre as causadoras das guerras), deixo aqui uma pequena transcrição de uma excelente entrevista publicado num especial do Público:

"Tem defendido que o microcrédito é uma arma de combate ao extremismo, ao fanatismo. O 11 de Setembro tornou essa arma mais forte?

Com o 11 de Setembro, os grandes países tomaram um caminho diferente. Se estivessem à procura de uma solução pacífica para o mundo, estariam a olhar para o microcrédito, mas não, tomaram a estrada errada. A guerra não é a solução para acabar com o terrorismo. Matar terroristas não resolve o problema. É através da compreensão das causas que se resolve o terrorismo. Uma das principais é a injustiça. Pode ser injustiça política, social, étnica. Por exemplo, a guerra pelos direitos civis nos EUA no início da década de 60 foi violenta. Foi-se então à procura de solução: fez-se discriminação positiva, deu-se emprego, crédito, poder económico e político à população negra. Deram-se oportunidades às pessoas. A negritude já não é uma expressão de raiva, pode ser de insatisfação ou desapontamento de alguns, mas já não é de raiva. Por quê? Porque se abriram as portas aos negros. Esquecemo-nos, entretanto, das diferenças étnicas. Com paliativos o problema não desapareceria. Isso apenas acontece quando eu me esqueço da minha diferença étnica em relação ao outro. É o único caminho.

O que pensa sobre a “saúde” da sociedade norte-americana, quando os seus valores são exportados para o mundo e tem, ao mesmo tempo, mais de 31 milhões de pobres e uma criança pobre por cada seis?

O problema da sociedade americana é que o tema do dinheiro absorve-a. Se se tem dinheiro, pode fazer-se tudo o que se quiser. Outras coisas, como os valores da comunidade, estruturadores de uma sociedade, ocupam um lugar muito secundário nas suas preocupações. O dinheiro desempenha um papel central nas suas cabeças e é-se culpado por não se ter sucesso. Não se criam expectativas aos pobres, criam-se programas de segurança social e manda-se lá passar todos os meses para levantar o cheque de 200 dólares. Não é nada, mas permite-lhes dizer que estão a cuidar dos pobres, dão-lhes também alimentos, mas não os estão a retirar da pobreza de uma forma activa.
"

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Uma pequena honra

Numa altura em que se discute muito sobre quem terá sido o "grande português", tive, num encontro completamente casual e feliz, a oportunidade de conversar durante algum tempo com um dos homens que lutou contra a ditadura ao lado do General Humberto Delgado, de ouvir algumas das histórias de coragem que se passaram então, de luta por um ideal de condição humana que vai muito além da vida mesquinha que levamos hoje cada um em busca apenas da satisfação dos seus próprios prazeres e necessidades.
Serviu-me para chegar à conclusão de que o grande português, a existir, só poderá ter sido de outro tempo. Porque hoje não somos grandes, pois não damos o devido valor à liberdade que agora temos e preferimos viver debaixo de uma manta de pessimismo, cegueira e queixume.

PS - fica para muito breve um post mais elaborado sobre esse programa televisivo que promete algum polémica

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20/10/2006

Para amantes do cinema

Outra mensagem recebida que me parece importante divulgar:

"Ver, sentir, escutar, pensar e discutir o cinema, é o propósito ao qual o Núcleo de Programação Cinematográfica se propõe alcançar, ao avançar para um projecto de programação contínua em colaboração com a Mediateca da F.C.S.H. Após quatro anos de funcionamento activo, nos quais, em colaboração com o realizador João Mário Grilo, seus discentes, e variados colaboradores como Alberto Seixas Santos, Pedro Costa, Paulo Filipe Monteiro, José Manuel Costa, Margarida Gil, entre outros, foram realizados quatro grandes ciclos. Três ciclos de autor (Buster Keaton, Yasujiro Ozu e Westerns de John Ford), e um ciclo temático (Sonhos e Visões), assim como variadas mostras e outros ciclos.

O núcleo vai agora apostar na criação de uma proposta de programação alternativa contínua, querendo assim dar visibilidade a uma cinematografia excluída do circuito comercial vigente.

(...)

Vimos então por este meio solicitar a todos os amantes da sétima arte que se juntem a nós neste projecto, que passa pela tentativa de expôr não só cinema, mas outros cinemas, documentários, vídeo-arte, e cinema experimental, apostando sempre numa programação cuidada e criteriosa. Solicitamos então a todos os interessados que enviem o seu contacto para npci@fcsh.unl.pt para efeitos de agendamento de uma reunião."

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19/10/2006

O novo referendo sobre o aborto

Nova discussão no parlamento sobre o aborto. O PS quer avançar para novo referendo, após a recusa dos portugueses há oito anos atrás. O debate não terá nada de novo, as razões de cada uma das partes está mais do que explicada e, tratando-se de uma questão de consciência, nada irá mudar:

- Existem os que defendem a liberdade de escolha de cada mulher e casal nas primeiras dez semanas de vida do feto. Isto levará ao aparecimento de clínicas seguras onde se possa praticar o acto, permitindo assim melhores condições de saúde e segurança para a execução da interrupção da gravidez, responsabilizando os cidadãos sobre os seus actos e, claro, à necessidade de melhor informação e educação sobre a sexualidade.

- Existem os que defendem que o aborto é crime em qualquer altura, pois o feto é um ser vivo desde o momento da fecundação. Alguns falam ainda da vontade divina. Isto sem ligar ao facto de que os abortos continuam a existir mesmo sendo ilegais e que assim são feitos sem quaisquer condições, com risco de saúde para as mães. Já para não falar dos problemas psicológicos que pode trazer para as mulheres que, já pelo próprio acto, vão ver-se confrontadas pelo sentimento de culpa, e que podem trazer problemas relacionais e de integração na sociedade. Existe ainda a questão da invasão da privacidade de cada uma das mulheres.

- Existem ainda os hipócritas e os cobardes, como disse o Primeiro Ministro José Sócrates, e muito bem, que acham que a lei não deve ser mudada, que o aborto deve continuar a ser um crime, mas que não se deve depois aplicar a lei na prática.

Quanto a mim, a questão é simples. No que depender de mim, nenhum aborto acontecerá e jamais incentivarei a sua prática. Mas não tenho o direito de decidir pelos outros. Por isso, defendo a despenalização do aborto até as dez semanas, porque acredito na liberdade de cada um decidir. Só isso, é uma questão de liberdade. E quem estiver contra isto, está, obviamente também, contra a liberdade de cada um.

Mas levanta-se aqui outra questão. Há oito anos atrás, os portugueses escolheram o não. Independentemente do que cada um acredite, é preciso respeitar essa decisão, caso contrário os referendos não fazem sentido. Mas, desde então, têm existido sucessivas tentativas de promover novo referendo. Será que vamos ter referendos até que os portugueses digam sim? E depois, se o aborto for despenalizado? Vamos ter novos referendos de x em x tempo porque os defensores da penalização não concordam com o resultado?

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O novo Vietnam

Bush admitiu em entrevista a um programa televisivo que a ocupação americana do Iraque se parece cada vez mais com a guerra do Vietnam, mas que, mesmo assim, não planeia retirar as tropas americanas enquanto o Iraque não for um país com uma democracia estável (leia-se controlada pelos amerianos e pelos seus interesses).
É mais uma prova de que burro velho não aprende línguas ou de que as lições da história não servem para nada, pelo menos quando os interesses económicos existem.

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Um conselho

Um mail que recebi e que me parece pertinente, apesar de não ter nada a ver com os temas normalmente abordados no blogue:

"O que fazer com o óleo usado? Você sabe onde deitar o óleo das frituras em casa? Mesmo que não façamos muitas frituras, quando o fazemos, jogamos o óleo na pia ou noutro ralo. Este é um dos maiores erros que podemos cometer. Fazemos isto por desconhecimento. Sendo assim, o melhor que tem a fazer é colocar os óleos utilizados numa daquelas garrafas de plástico, fechá-las e colocá-las no lixo normal, ou seja, no orgânico. Um litro de óleo contamina mais de um milhão de litros de água, o equivalente ao consumo de uma pessoa normal durante 14 anos."

Às vezes esquecemo-nos destas pequenas atenções (por mim falo), mas é preciso começar a não o fazer.

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18/10/2006

Quando eu chego em casa...

Há um CD que me marcou desde a primeira vez que o ouvi e me toca profundamente sempre que o ouço. Não sei se é o facto de se tratar da junção de dois dos maiores artistas de sempre, se é a sonoridade (as batidas são hipnotizantes), se a voz melodiosa de um em contraste com a voz algo seca do outro, se os poemas magníficos,não sei. Mas a verdade é que o concerto que Chico Buarque e Caetano Veloso deram ao vivo na década de 70 e que imortalizaram em disco, é, para mim, uma das maiores obra-primas da música.

E nem sei o que dizer daquela fusão que eles fazem, fantástica em termos de significado e de ironia, dos temas "Você não entende nada" e "Quotidiano".

E para quem não conheça, aqui fica o poema da primeira música...

"Você não entende nada" (Caetano Veloso)

Quando eu chego em casa nada me consola, você está sempre aflita
Lágrimas nos olhos de cortar cebola, você é tão bonita
Você traz a coca-cola, eu tomo
Você bota a mesa, eu como, eu como, eu como, eu como, eu como
Você
não tá entendendo quase nada do que eu digo
Eu quero é ir-me embora, eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo
Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não agüento, você está tão curtida
Eu quero é tocar fogo neste apartamento, você não acredita
Traz meu café com suita, eu tomo
Bota a sobremesa, eu como, eu como, eu como, eu como, eu como
Você
tem que saber que eu quero é correr mundo, correr perigo
Eu quero é ir-me embora, eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo

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Agora sim, o regresso

Após alguns meses de regressos e partidas, de projectos, alguns bem sucedidos, outros perdidos, regresso a este espaço, com a felicidade de ver já quase 14 mil visitas diferentes registadas. Mesmo apesar de não escrever nenhum post há quase um ano, as pessoas continuaram a vir aqui e a ler os comentários e os textos que escrevi durante algum tempo.
Então, agora que me dedico outra vez mais a sério à escrita, aos livros e às crónicas, é altura de regressar.
Obrigado pelas visitas e até já.

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21/06/2005

Ainda o Papa

Isto tudo fez-me lembrar uma anedota brilhante que ouvi quando o alemão foi escolhido para o papel de Papa. A razão da sua escolha é óbvia: numa altura em que a Igreja vê tantas ovelhas tresmalhadas, o Vaticano foi buscar um pastor alemão para as manter mais juntas.

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Os ferraris do Papa

Já se notam mudanças no Vaticano. Após a morte do saudoso João Paulo II, que tanto pregou pela paz e pela luta contra a pobreza, a tal ponto que mereceu a total comoção do mundo inteiro, de católicos e não católicos, o novo Papa, Bento XVI, começou já a criar os seus próprios hábitos. Para começar, na habitual missa do Ângelus, na imponente e tradicional Praça de São Pedro, o novo Papa abençoou vinte veículos da marca Ferrari, que estavam estacionados no meio do local, perante um forte esquema de segurança e algum aparato, não estivessem ali presentes objectos de valor elevado que necessitavam de ser protegidos.
Acho que é bonito, de facto, ver a preocupação que o novo Papa tem para com estes veículos de luxo. Aliás, provavelmente, estes automóveis não possuem qualquer segurança na estrada (senão seriam bastante caros, não seriam tão baratos como são, algumas dezenas de milhares de contos) e os seus proprietários devem ser pessoas de grande infelicidade e necessidade de bênção, pois devem estar altamente necessitados e a passar grandes dificuldades. Pobres Bill Gates, Ted Turners e afins! É muito mais importante abençoar os milionários do que se preocupar com os milhões que morrem de fome ou que são ainda espoliados de guerra, com os que estão doentes ou necessitados.

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30/05/2005

Aos que se importam

“Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros usam a virtude / Para comprar o que não tem perdão. / Porque os outros têm medo mas tu não. / Porque os outros são os túmulos caiados / Onde germina calada a podridão. / Porque os outros se calam mas tu não. (…)”

Sophia de Mello Breyner Andresen


É pena que as novas gerações, principalmente fora das grandes cidades, raramente se interessem pelas coisas relacionadas com a política, os problemas sociais e eventos culturais. Parece-me importante que se perceba que todos temos uma voz e a possibilidade de falar e expor as nossas ideias, esse direito tão importante ganho graças ao 25 de Abril que há bem pouco festejámos. É fundamental tentar perceber o que se passa, pensar e, se possível, arranjar soluções para os problemas. Nem que seja para conviver num plano um pouco diferente da mera cortesia, da mera conversa de circunstância e do tempo que vai fazer amanhã, do odioso reality show ou do filme que passou no dia anterior. Parece-me importante não seguir cegamente as modas e as trends. É fundamental ter-se a capacidade e a coragem de decidir rumos e enfrentar obstáculos, de ter sonhos e assumi-los como objectivos, de nunca preferir a fuga, mesmo que a derrota seja uma possibilidade.
Está visto que era importante para o mundo existirem mais pessoas que se preocupam. Que percebem que o mundo não é apenas o seu umbigo e que a única forma de melhorar a sua própria vida é também melhorando o que os rodeia; porque não vivemos sozinhos, porque não existimos num vácuo, porque cada acção tem um efeito. Porque a nossa felicidade depende também da dos outros.

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27/05/2005

A falta de sensibilidade

No meu trabalho de jornalista tive, recentemente, para a revista que dirijo, de desenvolver um artigo sobre a falta de acessibilidades nas cidades portuguesas. E confesso que, apesar de me considerar bem informado sobre a maior parte dos assuntos, aliás a minha profissão obriga a isso, fiquei desagradavelmente surpreendido com este caso concreto.
Realmente, existe um grande sentimento de egoísmo generalizado nas pessoas. Uma incapacidade de olhar para o lado e pensar nas necessidades alheias. Existe também a incapacidade de perceber as dificuldades que não possuímos. É como, infelizmente, diz o ditado, "com o mal dos outros posso eu bem". Pois, mas a verdade é que não devíamos poder bem com essa situação.
A vida de um deficiente motor em Portugal, a vida de alguém que ande numa cadeira de rodas, já por si uma pessoa com um problema grande o suficiente (não se trata aqui de os tratar como coitadinhos, mas reconhecer de facto os seus problemas), é uma vida difícil. Por exemplo, encontrei muitos casos de edifícios públicos, que deveriam estar preparados para o caso, que não possuem rampa para acesso a cadeira de rodas. Noutros casos, eles foram integrados posteriormente no edifício, muitas vezes em materiais diferentes do original da construção, o que torna a estética horrível, e, ainda por cima, apesar de lá existirem, não há forma de uma cadeira de rodas conseguir subir o passeio antes de lá chegar. É o caso, por exemplo, do edifício do Tribunal das Caldas da Rainha.
Como dizia um dos entrevistados, até passarem pelas coisas, as pessoas não fazem ideia de como pode ser difícil encontrar um passeio mais alto. Ou, simplesmente, um automóvel estacionado no passeio, que permite a passagem de um homem a pé, mas não de cadeira de rodas. E tal é frequente em Portugal. Já para não falar dos espertinhos que estacionam em lugares para deficientes.

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