Isto tudo fez-me lembrar uma anedota brilhante que ouvi quando o alemão foi escolhido para o papel de Papa. A razão da sua escolha é óbvia: numa altura em que a Igreja vê tantas ovelhas tresmalhadas, o Vaticano foi buscar um pastor alemão para as manter mais juntas.
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Os ferraris do Papa
Já se notam mudanças no Vaticano. Após a morte do saudoso João Paulo II, que tanto pregou pela paz e pela luta contra a pobreza, a tal ponto que mereceu a total comoção do mundo inteiro, de católicos e não católicos, o novo Papa, Bento XVI, começou já a criar os seus próprios hábitos. Para começar, na habitual missa do Ângelus, na imponente e tradicional Praça de São Pedro, o novo Papa abençoou vinte veículos da marca Ferrari, que estavam estacionados no meio do local, perante um forte esquema de segurança e algum aparato, não estivessem ali presentes objectos de valor elevado que necessitavam de ser protegidos.
Acho que é bonito, de facto, ver a preocupação que o novo Papa tem para com estes veículos de luxo. Aliás, provavelmente, estes automóveis não possuem qualquer segurança na estrada (senão seriam bastante caros, não seriam tão baratos como são, algumas dezenas de milhares de contos) e os seus proprietários devem ser pessoas de grande infelicidade e necessidade de bênção, pois devem estar altamente necessitados e a passar grandes dificuldades. Pobres Bill Gates, Ted Turners e afins! É muito mais importante abençoar os milionários do que se preocupar com os milhões que morrem de fome ou que são ainda espoliados de guerra, com os que estão doentes ou necessitados.
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30/05/2005
Aos que se importam
“Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros usam a virtude / Para comprar o que não tem perdão. / Porque os outros têm medo mas tu não. / Porque os outros são os túmulos caiados / Onde germina calada a podridão. / Porque os outros se calam mas tu não. (…)”
Sophia de Mello Breyner Andresen
É pena que as novas gerações, principalmente fora das grandes cidades, raramente se interessem pelas coisas relacionadas com a política, os problemas sociais e eventos culturais. Parece-me importante que se perceba que todos temos uma voz e a possibilidade de falar e expor as nossas ideias, esse direito tão importante ganho graças ao 25 de Abril que há bem pouco festejámos. É fundamental tentar perceber o que se passa, pensar e, se possível, arranjar soluções para os problemas. Nem que seja para conviver num plano um pouco diferente da mera cortesia, da mera conversa de circunstância e do tempo que vai fazer amanhã, do odioso reality show ou do filme que passou no dia anterior. Parece-me importante não seguir cegamente as modas e as trends. É fundamental ter-se a capacidade e a coragem de decidir rumos e enfrentar obstáculos, de ter sonhos e assumi-los como objectivos, de nunca preferir a fuga, mesmo que a derrota seja uma possibilidade.
Está visto que era importante para o mundo existirem mais pessoas que se preocupam. Que percebem que o mundo não é apenas o seu umbigo e que a única forma de melhorar a sua própria vida é também melhorando o que os rodeia; porque não vivemos sozinhos, porque não existimos num vácuo, porque cada acção tem um efeito. Porque a nossa felicidade depende também da dos outros.
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27/05/2005
A falta de sensibilidade
No meu trabalho de jornalista tive, recentemente, para a revista que dirijo, de desenvolver um artigo sobre a falta de acessibilidades nas cidades portuguesas. E confesso que, apesar de me considerar bem informado sobre a maior parte dos assuntos, aliás a minha profissão obriga a isso, fiquei desagradavelmente surpreendido com este caso concreto.
Realmente, existe um grande sentimento de egoísmo generalizado nas pessoas. Uma incapacidade de olhar para o lado e pensar nas necessidades alheias. Existe também a incapacidade de perceber as dificuldades que não possuímos. É como, infelizmente, diz o ditado, "com o mal dos outros posso eu bem". Pois, mas a verdade é que não devíamos poder bem com essa situação.
A vida de um deficiente motor em Portugal, a vida de alguém que ande numa cadeira de rodas, já por si uma pessoa com um problema grande o suficiente (não se trata aqui de os tratar como coitadinhos, mas reconhecer de facto os seus problemas), é uma vida difícil. Por exemplo, encontrei muitos casos de edifícios públicos, que deveriam estar preparados para o caso, que não possuem rampa para acesso a cadeira de rodas. Noutros casos, eles foram integrados posteriormente no edifício, muitas vezes em materiais diferentes do original da construção, o que torna a estética horrível, e, ainda por cima, apesar de lá existirem, não há forma de uma cadeira de rodas conseguir subir o passeio antes de lá chegar. É o caso, por exemplo, do edifício do Tribunal das Caldas da Rainha.
Como dizia um dos entrevistados, até passarem pelas coisas, as pessoas não fazem ideia de como pode ser difícil encontrar um passeio mais alto. Ou, simplesmente, um automóvel estacionado no passeio, que permite a passagem de um homem a pé, mas não de cadeira de rodas. E tal é frequente em Portugal. Já para não falar dos espertinhos que estacionam em lugares para deficientes.
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30/11/2004
Até que enfim, sr. Presidente
Após mês e meio sem escrever neste blogue, por motivos de excesso de trabalho e desânimo perante o nosso País, volto a deixar aqui algumas palavras, na esperança de que, agora, com mais ânimo, o ritmo volte a ser o normal.
E as palavras são estas:
"Até que enfim, Sr. Presidente da República".
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12/10/2004
Toy no Iraque
Recebi um mail a informar-me que o cantor pimba Toy vai partir para o Iraque. A notícia continua referindo que a presença do músico português irá moralizar as tropas da Guarda Nacional Republicana, que estão colocadas no território em missão de paz.
No entanto, tenho uma dúvida. Qual é a real intenção desta viagem? Será realmente moralizar as tropas? Ou Santana Lopes quer dar graxa a George Bush e provar que Portugal também sabe ser cruel e torturar os iraquianos?
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03/10/2004
Diego
Não sei como é que o FC Porto consegue. Qualquer brasileiro que vá para os azuis e brancos prova o seu valor e encanta. Nos outros grandes portugueses, as grandes estrelas brasileiras são quase sempre fiascos.
Diego é uma maravilha. Tenho a certeza de que vai fazer rapidamente a genialidade de Deco pertencer a um passado distante. O passe para o último golo de McCarthy é qualquer coisa de inesquecível.
Não sei como é que o FC Porto consegue. Sinceramente, não sei.
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26/09/2004
Mystic River
Não tive oportunidade de o ver em cinema. Vi-o ontem em DVD. E arrependi-me de não ter conseguido vê-lo no grande écrã.
"Mystic River" é um filme excepcional. A prova de que um thriller pode ser contado de uma forma profundamente subtil e onde os pormenores e a intimidade das personagens ultrapassa até o interesse do "quem matou quem". Cada uma das personagens tem dilemas internos profundos, segredos por contar, traumas a ultrapassar durante o desenrolar do enredo. É uma história de amor e de medo, de traição e de ironia.
Sean Penn foi brilhante, mas todo o elenco é excepcional. A fotografia é de uma beleza extrema, com um ambiente eternamente sombrio e cinzento. Os diálogos brilhantes, com alguns momentos a merecerem ser recordados.
Vou evitar falar mais de "Mystic River" para não contar pormenores que estragem a sua visualização a quem não o tiver visto. Mas deixo um conselho a quem o fizer: não entre no filme com o objectivo de descobrir quem é o criminoso. Porque, mesmo que, por alguma razão estranha o consiga, nunca vai conseguir descobrir o enredo por trás do acontecimento, de tão irónico e envolvente com todas as outras personagens. Até porque, mesmo o desfecho que é sugerido como o mais evidente, ainda encerra muitas dúvidas de ter sido a realidade.
Encoste-se e aceite o que está perante si. É um daqueles filmes em que vale a pena ser um simples espectador que apenas ouve e vê o que lhe estão a contar, em vez de se armar em detective.
Imperdível. Dentro do género, com "Memento", "Seven", "Os Suspeitos do Costume" e "Clube de Combate", um dos melhores filmes de sempre. Só não ganhou mais do que dois óscares da Academia (melhor actor para Sean Penn e melhor actor secundário para Tim Robins (Os Condenados de Sawshank")) porque a academia tinha, nesse ano, que premiar a triologia de "O Senhor dos Anéis".
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21/09/2004
Entrevista em Cascais
Tarde excelente passada em Cascais, na belíssima Casa da Guia, na companhia da simpática Paula Pinto, promotora musical, e do artista brasileiro Maurício Mattar. Entrevista excelente, que comprova o que já pensava dele. É muito mais do que uma cara bonita que fazia de galã nas telenovelas e faz suspirar as adolescentes. É um homem com um pensamento profundo e objectivos concretos. Sabe o que quer e como quer, e tem até, pasme-se, uma forte ligação esotérica. É budista e não tem problemas em falar do assunto.
E é um grande autor da Música Popular Brasileira. Djavan, Caetano Veloso, Toquinho e Carlinhos Brown já o afirmaram. Eu, que não sou nada ao pé desses monstros da música, afirmo o mesmo.
Sem dúvidas. Espero agora que a entrevista que lhe fiz fique à altura do que merece.
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20/09/2004
Surpreendido
Já tinha ficado surpreendido com os dois avançados que Trapattoni colocou a jogar contra os eslovacos na primeira mão da eliminatória da Taça UEFA. Hoje, o técnico italino voltou a mostrar arrojo, ao colocar fazer entrar dois pontas de lança na equipa na segunda parte, para combater o empate a zero que se verificava então. Em ambas as ocasiões, a coragem foi recompensada e o Benfica, após o desastre na Liga dos Campeões, promete outros feitos.
A continuar assim, terei que retirar completamente o que disse anteriomente sobre a inadequação de Trapattoni à realidade do Benfica.
Aliás, espero bem ter que o fazer.
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19/09/2004
Visita mais do que obrigatória
Mais do que obrigatória a visita ao blogue http://doportugalprofundo.blogspot.com/, onde o seu autor fala em pormenor do processo Casa Pia, com excertos de declarações dos envolvidos no processo, com considerações e pormenores de grande importância. Excelente trabalho para quem quer tentar perceber um pouco melhor a porcaria que se passa neste País e que ainda está muito longe de ser totalmente revelada.
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31/08/2004
Frutos de Sombra
Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade
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30/08/2004
Barco do aborto
O "Barco do Aborto" foi impedido pela marinha portuguesa de entrar nas águas territoriais nacionais, responsabilidade dos ultra-conservadores por trás da manutenção da falsa moral e bons costumes que minam a hipócrita sociedade portuguesa.
Correndo o risco de ser mal educado e ordinário, acredito que, se este barco tivesse vindo a Portugal há alguns anos e tivesse cumprido a sua função, esta situação não seria possível agora.
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24/08/2004
Trapattoni
Evitei fazer comentários após a derrota do Benfica frente ao Porto, na esperança de estar errado. Mas agora não tenho dúvidas. Há um grande responsável pelos resultados vergonhosos conseguidos pelo Benfica nos últimos jogos. E esse responsável é Luís Filipe Vieira.
O presidente do Benfica tem que assumir as responsabilidades da má escolha que fez ao trazer Trapattoni para o Benfica. Não está aqui em causa o profissionalismo, nem a competência da "Velha Raposa". Trata-se de perceber que nem todas as peças encaixam em todas as máquinas. Trapattoni é um excelente treinador se tiver jogadores capazes de praticar o seu futebol cerebral e calculista. Acontece que o Benfica não é uma equipa inteligente. É uma equipa emotiva. Os jogadores portugueses não são cerebrais, são virtuosos. Por isso é que a fúria espanhola de Camacho funcionava para melhorar o jogo do Benfica, porque dava ainda mais força a essa qualidade encarnada. Não a frieza de Trapattoni. Essa não cabe no Benfica, não funciona. E, sinceramente, nem quero vê-la no meu clube.
O Benfica que eu amo é a equipa emotiva, imprevisível, capaz do melhor e do pior, mas cujos espectáculos são um hino ao desporto. Não é uma equipa de jogadores cinzentos e calculistas, que preferem empatar a zero do que arriscar perder o jogo. Não é uma equipa que, a perder por três a zero, coloca mais um defesa em campo.
Mas Trapattoni também errou em termos técnicos contra o Anderlecht. Ricardo Rocha, o melhor central da equipa, e Zahovic, o jogador em melhor forma, não podiam ficar no banco. Mas a verdade é que o Benfica foi um enorme, um gigante zero. Foi vergonhoso e humilhante. Como já tinha sido contra o Porto. Aliás, para mim, a derrota contra o Porto ainda foi pior do que esta contra o Anderlecht. É que os belgas são uma equipa construída. O Porto é um grupo de jogadores a tentar construir uma equipa, depois da razia em relação à época anterior.
O que Luís Filipe Vieira tem que perceber é que um grande homem é aquele que consegue admitir os erros que comete e os corrige. Trapattoni não pode ficar no Benfica, porque não é homem para perceber o clube ou para dar-lhe o fogo necessário, pelo contrário, arrefece-o. Repito: não é uma questão de competência, é uma questão de adequação. Uma equipa de futebol é um grupo de homens. E cada grupo de homens tem que ser entendido e ter um método adequado a si. Mourinho percebe isso e, como tal, cria motivações e níveis de confiança inacreditáveis nos seus jogadores. Trapattoni não, prefere fiar-se na disciplina e na inteligência táctica.
Para o Benfica não fazer a pior época da história, só há duas soluções. Ou sai Trapattoni, ou Luís Filipe Vieira manda embora noventa por cento dos jogadores actuais e compra outro tipo deles, mais calculistas, mas sem o coração que caracteriza o meu Benfica.
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18/08/2004
Liber Mundi
Tenho passado grande parte do meu tempo livre a pesquisar e escrever sobre metafísica e o progresso espiritual. Não querendo misturar esses assuntos neste espaço, uma vez que não são bem aceites por toda a gente, muitas vezes por mero receio infundado do que ainda não conhecem ou por superstições tolas, criei um novo blogue, chamado Liber Mundi.
Nesse outro espaço irmão, colocarei os posts relacionados com essa temática, desde meros pensamentos, contos e parábolas, a estudos mais profundos sobre temas específicos como Tarot, Astrologia, estudos cabalísticos, etc, passando pelas palavras dos grandes mestres da humanidade. O objectivo é apenas partilhar a informação com quem se interesse pelos mesmos temas.
Fica já convidado a visitar esse novo espaço. Mesmo que "não acredite". Conhecer algo nunca fez mal a ninguém.
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Poemário
O Universos Desfeitos tem uma lista de poetas portugueses que vale a pena consultar. Está bastante actualizada e é extensa.
Um excelente trabalho a bem da cultura portuguesa.
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17/08/2004
Primeira medalha
Logo nos primeiros dias mdos Jogos Olímpicos de Atenas, um português alcançou uma brilhante medalha de prata, quase como que dizendo aos gregos que também somos capazes de conseguir bons resultados no “campo do adversário”. Sérgio Paulinho foi o autor do feito, na modalidade que elegeu há vários anos, o ciclismo.
Para mim, esta medalha teve um sabor algo especial, uma vez que acompanhei durante algum tempo a sua carreira, na altura em que colaborava na secção de desporto de um semanário regional e ele corria numa modesta equipa da zona de Alcobaça. Depois, o atleta deu o salto e acabei por perder-lhe o rasto. Agora, com surpresa e agrado, vejo-o ganhar uma medalha de prata na mais importante competição desportiva de todas.
Percebo que ganhar uma medalha olímpica deve ser um sentimento único. Ver a bandeira subir o mastro e ouvir os acordes do hino, ainda mais numa altura em que todos esses símbolos ganharam nova força junto do coração dos portugueses, deve provocar um momento de grande realização pessoal. É a noção clara de que toda uma nação está orgulhosa, embebida de um estranho e comovente amor comum, de que, por breves momentos, mais de doze milhões de pessoas, espalhadas pelo mundo, se emocionam e ovacionam um determinado feito.
Parabéns ao Sérgio Paulinho. Parabéns a Portugal.
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Fábrica de Sonhos
A Catarina Paramos, colega de escritas e pensamentos, pede-me para trocar o anterior link do blogue onde participava pelo novo, que se chama Fábrica de Sonhos.
Missão cumprida. Toca a visitar o novo blogue.
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13/08/2004
MPB
Na pesquisa que tenho andado a fazer sobre Música Popular Brasileira, encontro poemas de uma riqueza extraordinária, sempre com a simplicidade que caracteriza o povo brasileiro (voltarei a esse tema mais tarde). Quero, nos próximos dias, partilhar convosco alguns deles.
O primeiro, uma verdadeira obra-prima, é de um dos meus cantores brasileiros preferidos, Oswaldo Montenegro.
Metade
Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.
Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço,
Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente
Complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção.
E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade também.
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09/08/2004
Sonho III
Encontro continuamente um profundo pensamento metafísico nas lojas que se chamam "O meu sonho" (e há delas em todas as terras do País, pois por todo o lado existem sonhadores).
Agora, encontrei novo papel afixado na porta da dita loja, dizendo: "O Meu Sonho. Volto já"
Não é o que acontece muitas vezes? Termos que esperar pelos nossos sonhos e ganhar forças apenas das suas promessas de regresso?
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